Presidente americano ameaça com tarifas nações que se alinharem aos planos do bloco para desafiar a hegemonia do dólar. Apesar do progresso limitado da iniciativa, dezenas de nações ainda estão ansiosas para participar.
Por: Nik Martin | Crédito Foto: Brendan Smialowski/REUTERS. Apesar de suas muitas diferenças, os líderes do Brics assumiram uma posição firme sobre as tarifas de Trump durante a cúpula no Brasil
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está dobrando aposta na pressão contra o bloco de economias de rápido crescimento do Brics, incluindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, alertando que as iniciativas do bloco para minar o domínio do dólar americano ameaça a supremacia econômica dos EUA.
No momento em que os líderes do Brics se reuniram no Rio de Janeiro para sua cúpula anual, Trump prometeu, no domingo (06/07), impor uma tarifa adicional de 10% a qualquer nação que apoie as “políticas antiamericanas” do grupo, aumentando a pressão sobre as taxas comerciais existentes e as que ameaçou lançar.
A pausa de 90 dias do governo Trump nas tarifas mais altas deve expirar nesta quarta-feira (09/07), e cartas foram enviadas para informar dezenas de países sobre a nova taxa de importação dos EUA, de acordo com a Casa Branca.
Embora sua última ameaça seja muito mais comedida do que as tarifas de 100% prometidas em janeiro para os países que “brincam com o dólar”, Trump continua inflexível quanto à necessidade de proteger a moeda de reserva mundial.
Na última década, o Brics aumentou seu tamanho de quatro para 10 membros, incluindo a Indonésia, que aderiu em janeiro. A Arábia Saudita está listada como membro, mas ainda não confirmou seu status. O bloco também tem nove países parceiros, enquanto dezenas de outros estão fazendo fila para entrar.
O bloco, apresentado como a alternativa da China para as nações ricas do G7 (Grupo dos Sete), agora representa um quarto da economia global e quase metade da população mundial.
“Trump tem um motivo para se preocupar”, diz Alicia Garcia-Herrero, pesquisadora sênior do think tank Bruegel, com sede em Bruxelas. “O Brics é claramente antiocidental. Parte de seu mantra é mudar a ordem global.”

Sem alternativa real ao dólar
O Brics recentemente intensificou os esforços para reduzir a dependência do dólar, promovendo o comércio em moedas locais entre os membros.
Atingidos pelas sanções e tarifas ocidentais, a Rússia e a China estão liderando o chamado movimento de desdolarização, fechando acordos de energia em rublos e yuans. A Índia, por sua vez, tem pago pelo petróleo russo barato desde 2023 em yuan, rublos e até mesmo no dirham dos Emirados Árabes Unidos.

Ambições maiores, como uma moeda comum lastreada em ouro, apelidada de “Unidade”, até o momento foram paralisadas em meio a divergências internas entre os poderosos membros do Brics. A Índia, preocupada com o domínio do yuan da China, rejeitou o plano, enquanto o Brasil, anfitrião da cúpula de 2025, também quer priorizar o comércio em moeda local em vez de uma moeda unificada.
“A Índia, juntamente com o Brasil, está tentando equilibrar a mensagem antiocidental do Brics, que é dominado pela China e pela Rússia”, afirma Garcia-Herrero, que também é economista-chefe (Ásia-Pacífico) do banco de investimentos francês Natixis.
De acordo com o site do Brics, dos cerca de 33 trilhões de dólares (R$ 180 trilhões) de comércio global realizado em 2024, o comércio intra-Brics representou apenas 3%, ou cerca de 1 trilhão de dólares.
“A maior parte do comércio mundial ainda é liquidada em dólares e outras moedas tradicionais”, explica o economista Herbert Poenisch. “Será preciso muito para destronar isso.”
A moeda americana é usada em 90% das transações globais e em 59% das reservas cambiais, o que leva vários economistas a argumentar que a desdolarização continua sendo uma ameaça distante.
Eles acreditam que qualquer alternativa do Brics será prejudicada pelos controles de capital do yuan, pela volatilidade do rublo e pela relutância de alguns membros em abandonar o dólar.
Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/por-que-donald-trump-tem-tanto-medo-do-brics/a-73204340


