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Anistia vê “nova era perigosa” com multilateralismo em crise

Ordem internacional entrou em erosão em 2025, diz relatório anual, citando conflitos no Oriente Médio. No Brasil, ONG vê retrocesso da lei ambiental e maior ameaça a defensores dos direitos humanos.

Por: Heloísa Traiano / Jens Thurau | Crédito Foto: Saeed Jaras/Middle East Images/picture alliance. Guerra em Gaza já deslocou a maioria dos 2,4 milhões de moradores do enclave palestino, um dos conflitos que assola o Oriente Médio

O mundo está à beira de uma nova era perigosa, impulsionada pelos ataques de Estados poderosos, corporações e movimentos transnacionais contra o multilateralismo, o direito internacional e os direitos humanos. É o que afirma a Anistia Internacional (AI), que publicou nesta quarta-feira (21/04) o seu relatório anual, no qual analisa o contexto em 144 países.

Para a secretária-geral da organização, Agnès Callamard, “o que torna este momento fundamentalmente diferente é que já não estamos apenas registrando uma erosão nas margens do sistema”. “Trata-se de um ataque direto aos alicerces dos direitos humanos e à ordem internacional baseada em regras, perpetrado pelos atores mais poderosos com o objetivo de obter controle, impunidade e lucro,” afirmou.

A AI denuncia a formação de uma nova ordem internacional “predatória”, criticando explicitamente alguns líderes políticos, a exemplo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

O foco das críticas repousa na proliferação e manutenção de conflitos pelos seus governos, enquanto “a vasta maioria dos outros Estados não tem se mostrado disposta ou capaz de consistentemente denunciar” violações da legislação internacional.

Já no Brasil, o relatório destaca o aumento da violência contra defensores dos direitos humanos, sobretudo indígenas e quilombolas, bem como a aprovação da lei do licenciamento ambiental, apelidada por ambientalistas de “PL da Devastação“. Segundo a AI, a legislação intensificou a ameaça contra o direito humano a um ambiente saudável.

Dupla pressão sobre iranianos

A ofensiva de EUA e Israel no Irã, iniciada há quase dois meses, recorreu ao “uso ilegal da força”, numa violação à Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), diz a AI. Desde então, o Oriente Médio foi arrastado para um novo conflito que, alerta a organização, “ameaça causar danos civis e ambientais vastos, previsíveis e de longo prazo, afetando o acesso à energia, à saúde, à alimentação e à água.”

Especialistas da ONU vêm também apontando às violações da lei internacional pelos ataques militares contra o Irã, cujo regime, por sua vez, viola os direitos humanos da própria população. O relatório da AI destaca que “autoridades massacraram manifestantes em janeiro de 2026, no que foi provavelmente a repressão mais letal em décadas”.

“No Irã, as pessoas vivem sob uma dupla ameaça: por um lado, os ataques contrários ao direito internacional realizados pelos EUA e por Israel, inclusive contra a população civil e a infraestrutura; por outro, as repressões do próprio governo, que já levaram a milhares de mortes,” disse Julia Duchrow, secretária-geral da AI na Alemanha.

A pressão sobre o regime iraniano não resultou em melhora para os direitos humanos a nível doméstico, embora os EUA tenham justificado a operação militar com o argumento de que era necessário proteger a população dos abusos de Teerã. “Justamente agora, tememos novos e ainda mais fortes ataques da liderança iraniana contra a própria população,” diz Duchrow.

Persistente guerra em Gaza

A análise global da AI ressalta, ainda, a manutenção do que vê como um genocídio em curso em Gaza – repetindo o vocabulário que, no ano passado, usaram outras organizações de direitos humanosestudiosos e uma comissão independente nomeada pela ONU. Segundo a comissão de três membros, quatro dos cinco critérios da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio para essa classificação haviam sido praticados por autoridades israelenses.

O artigo 2° da convenção define genocídio como qualquer ação “cometida com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”. Rejeitando as acusações, Israel trava desde 2023 a guerra contra o Hamas, classificado como organização terrorista pelos EUA, pela União Europeia (UE) e diversos países no mundo. Um frágil cessar-fogo foi acordado em outubro.

Ganhou tração ainda, também no ano passado, a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia sob uma atmosfera de crescente hostilidade, amplamente documentada pela imprensa. Hoje, mais de 700 mil colonos judeus israelenses vivem na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, segundo as Nações Unidas.

“As autoridades israelenses têm, cada vez mais, permitido ou incentivado os colonos a atacar e aterrorizar os palestinos com impunidade, e autoridades de destaque têm elogiado e glorificado a violência contra os palestinos, incluindo prisões arbitrárias e tortura de detidos,” diz o texto da AI.

A ONU considera todos os assentamentos israelenses além da linha de armistício de 1949, a chamada Linha Verde, uma violação do direito internacional. Num parecer consultivo de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou a ocupação ilegal.

 

 

Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/anistia-v%C3%AA-nova-era-perigosa-com-multilateralismo-em-crise/a-76867538