Clipping

Entre a FOMO e a fome: As big techs vão nos devorar?

Vício em telas explorado por corporações se conecta a várias esferas da vida: a difusão de ultraprocessados via apps, ansiedade crônica, alimentação precária com celulares em mão, endividamento com as bets… Quando virá a regulação mirando, também, o bem-viver?

Por: Susana Prizendt | Arte: Reprodução/Behance

Toda vez que abro o Tik Tok é uma fuga e agora tenho essas frutas feitas com IA para me entreter por algumas horas e me distrair do que está acontecendo no mundo” – Kenneth Ray Yarbough, em depoimento a Madison Malone Kircher no The New York Times

Esta é uma corrida armamentista de um tipo diferente, e já começou” – Alexander Karp, CEO da Palantir Technologies, empresa que atende o Departamento de Defesa dos EUA, em artigo também no The New York Times

Quem é ou já foi fumante sabe muito bem ao que a palavra vício se refere. Acender mais um cigarro passa a ser não simplesmente a realização de um mero desejo, mas a consequência incontornável de atender ao que se apresenta como uma necessidade. E, assim, infindáveis próximos cigarros serão inevitavelmente acesos, em meio às possíveis tentativas de impedir que as mãos risquem cada novo fósforo.

Nesse percurso de fósforos riscados e isqueiros esvaziados, podemos imaginar que a verdadeira fogueira está dentro do ou da fumante. Ela arde de um modo crescente e vai provocando uma sede cada vez maior, que só será acalmada quando a fumaça do tabaco for aspirada e abafar as chamas que gritam. Sentir essa sede bio-psicoemocional e não tragar os elementos químicos que momentaneamente a aplacam é enfrentar um demônio cruel, que atende pelo nome de síndrome de abstinência. Significa sentir algo que vai do desconforto ao desespero — e pode até mesmo fazer com que a pessoa deixe de ver sentido em viver.

Ao longo de milênios, os seres humanos descobriram quais eram e como poderiam utilizar muitas das substâncias que geram estímulos momentâneos aos sentidos. Várias dessas substâncias também alteram o estado da consciência e permitem expandir percepções, abrindo espaço para experiências místicas. E uma parte delas tem o poder de acionar mecanismos cerebrais ligados ao desenvolvimento de dependências, o que poderia dar muito pano para a manga em um possível debate sobre o tal livre arbítrio, que o deus judaico-cristão teria concedido aos seres humanos.

Deixando a esfera do intangível de lado, o fato é que o capitalismo soube muito bem como se apropriar do mecanismo que caracteriza o vício, para potencializar a capacidade de dominação de algumas pessoas sobre outras e, até mesmo, sobre as massas. Estão aí os impérios de corporações como a AmBev — com sua fortuna oriunda da produção e venda de cervejas feitas com milho possivelmente transgênico —, mostrando que investir em algo como o álcool, uma droga lícita e altamente sociável, é como criar uma galinha que bota ovos de ouro. Aliás, ovos dourados como as toneladas de líquido que enchem as garrafas e latas da empresa (somente a unidade de Uberlândia produz 7 bilhões de litros ao ano).

Até mesmo guerras podem se relacionar com o controle de elementos viciantes. No século XIX, um império milenar do Oriente foi enquadrado por potências europeias por tentar impedir o comércio de uma droga dentro de suas fronteiras. Nas chamadas Guerras do Ópio, dois conflitos bélicos ocorridos entre 1839 e 1860,  o interesse britânico em lucrar com a exploração do vício na droga em território chinês levou a ataques violentos. Ambos se encerraram com tratados que podemos definir como absolutamente desvantajosos (para não soltar um palavrão) para a China. Aliás, neste ano de 2026, Donald Trump invadiu a Venezuela e sequestrou seu presidente, baseando-se na ladainha hipócrita de que estava combatendo o narcotráfico.

No entanto, é fundamental ressaltar que nem sempre o desenvolvimento de dependências está atrelado ao consumo de uma substância química que pode ser ingerida, inalada ou injetada. Nosso cérebro pode se viciar em elementos que não precisam entrar materialmente no organismo. É o caso dos jogos de apostas ou do consumo de pornografia, inclusive aquela ligada à pedofilia. Vultosos volumes de dinheiro são movidos a partir da exploração de quem se vicia no giro de roletas ou nos gestos artificiais de atrizes e atores pornôs. Dentro e fora da legalidade, encontramos intrincadas cadeias de promoção desses mercados, desequilibrando a vida financeira das famílias que têm integrantes aprisionados/as em suas garras.

Por meio do desenvolvimento tecnológico, esses processos passaram — e seguem passando — por mudanças em seus formatos, ganhando novas maneiras de capturar e manter a atenção das pessoas. No entanto, o mecanismo básico que fundamenta o desenvolvimento dos vícios, envolvendo desejo, prazer e alívio, segue presente, fazendo com que se queira (mais e mais) ter novamente a experiência na qual se viciou, única forma de apaziguar, ao menos por um determinado período de tempo, o crepitar do fogo que se instalou por dentro.

Vícios High Tech

E eis que a internet entra em cena! E nós, seres ancestralmente analógicos, passamos a interagir de forma crescente e acelerada com os elementos do universo digital — a ponto de termos, atualmente, a discussão da ideia de que vivemos em uma sociedade híbrida, definida por Luciano Floridi como On Life, em que as esferas intra e extra telas já não seriam mais passíveis de separação. De fato, mesmo quando desligamos nosso celular ou computador, nossas personas virtuais continuam acessíveis a quem está navegando e sendo escarafunchadas minuciosamente pelo próprio sistema. Mas, apenas para visualizarmos o que é mais característico de cada uma, vamos seguir considerando que há um espaço online e um espaço offline em nossas vidas.

Sendo assim, se durante milênios pudemos experienciar a natureza e descobrir como nos adaptar às suas transformações, o salto tecnológico abrupto das últimas décadas não nos permitiu amadurecer de modo seguro o nosso relacionamento com as inovações high tech. Fomos e estamos sendo vítimas de um atropelamento constante em nossos modos de ser e estar no mundo. Os resultados dessa submissão ultra veloz à virtualidade já são perceptíveis, e muitos não são nada salutares, como observamos no dia a dia, especialmente em relação à juventude.

Nos EUA, a recente condenação de duas das gigantes tecnológicas, as onipresentes YouTube e Meta (esta última dona de redes sociais digitais muito populares como Facebook, Instagram e Whatsapp), confirmou aquilo que já se sabia: essas plataformas foram deliberadamente projetadas para serem viciantes, sobretudo para jovens e crianças. E tinham pleno conhecimento do tipo de conteúdo que mais atrai as mentes humanas, inclusive as que estão em seus primeiros anos de desenvolvimento. Não é por acaso que sua filha ou seu filho ficam horas se enrolando nas telas de celulares — e fazem um escândalo danado se você tentar impor um limite de tempo.

O direcionamento incessante de conteúdo voltado aos interesses que cada pessoa usuária revela ter, ao navegar no mundo online e deixar nele seus rastros, prende sua atenção. E, aqui, a palavra “prende” tem significado literal, já que é possível que essa pessoa sinta que não consegue deixar a navegação, mesmo que tenha outras demandas na vida offline. O mesmo ocorre em relação ao sistema de curtidas e comentários, que acionam o mecanismo de recompensa no cérebro e vão cultivando circuitos de dependência.

A angústia sentida quando se está fora dessas plataformas já ganhou até um termo para chamar de seu: FOMO. Em inglês, a sigla se refere a “Fear of Missing Out”, algo que pode ser traduzido como o medo de perder alguma coisa ou de ficar de fora do que está rolando. E basta dar uma espiada em qualquer uma dessas redes digitais para ver que sempre estão rolando zilhões de coisas, já que o hábito de postar o que se faz no dia a dia e compartilhar o que se vê nas telas entrou de vez na rotina de boa parte das pessoas — sobretudo no nosso país, onde já existem cerca de 14 milhões de criadores/as de conteúdo reconhecidos pelo Wake, o Censo de Criadores de Conteúdo do Brasil, de 2025.

Sentir FOMO é como experimentar uma espécie de crise de abstinência. Há a percepção de que é necessário não desgrudar os olhos da tela, consumindo sem parar tudo o que nela aparece. E essa experiência envolve também um mecanismo de comparação constante. Quem vê o que é postado nas redes acaba comparando automaticamente o que é mostrado ali com sua própria realidade. E, em tempos de influencers e manipulação quase ilimitada de imagens, a realidade nua e crua da maioria de nós fica parecendo bem borocoxô.

Os níveis alarmantes de depressão e ansiedade na população mundial, inclusive entre jovens e crianças, demonstram como estamos sofrendo com o modo de vida atual. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe) revelou que 42,9% dos e das adolescentes sente irritação e nervosismo por qualquer coisa, e que 18,5% chegam ao ponto de sentir que viver não vale a pena.  Sem dúvida, a onipresença das telas é um dos fatores inquestionáveis para essa situação. Ritmo acelerado, enviesamento dos conteúdos, simulacionismo quanto às formas, estímulos sensoriais ininterruptos… são alguns dos elementos que fazem a interação online ser tão sedutora.

O “lado de fora” disso tudo (a materialidade limitante dos corpos, dos objetos e dos espaços, em um tempo não tão maleável) pode parecer muito menos atrativo, como se suas cores ficassem desbotadas. E agora, com a massificação do acesso e do uso da Inteligência Artificial Generativa, com seus LLMs (os grandes modelos de linguagem), esse contraste entre o que se experimenta no interior e no exterior das telas tende a aumentar ainda mais. Outras relações de dependência podem surgir, interferindo mais intensamente no comportamento das pessoas e alterando em maior profundidade aquilo que chamamos de neurocognição.

Massagens no ego

O fenômeno de “embolhamento” na vida online já é bem conhecido. Se você curtiu um post ou vídeo relacionado a jiu-jitsu, provavelmente vão aparecer outros posts e vídeos sobre artes marciais. Isso vale para pets, maquiagem, culinária, música… e (o que é mais relevante) posições políticas, seja em relação a preferências partidárias ou a posturas ideológicas. O resultado é a pré-demarcação de um espaço de navegação individualizado para cada navegante, reforçando as tendências que ele ou ela manifestou.

Juntando quem tem as mesmas tendências em grupos específicos, as plataformas digitais acabam reduzindo o contato com quem pensa ou se interessa por assuntos diferentes. Nesse processo, a percepção da alteridade e a capacidade de sentir empatia podem ser perturbadas, trazendo uma dificuldade extra para vivermos em uma democracia. Não é coincidência que a polarização política se acentuou nos últimos anos e trouxe com ela mais violência e intolerância.

Na era da disputa pela atenção, é sabido que conteúdos polêmicos, que geram raiva e revolta, têm mais apelo emocional e podem rapidamente viralizar, atingindo milhões de pessoas em poucos minutos. Se eles contêm distorções e inverdades ou se fazem apologia a algo danoso, isso pode ser percebido e corrigido tarde demais, depois que o estrago está feito. O modo como as big techs detectam e lidam com esse tipo de conteúdo (e seu potencial alcance) é tão transparente quanto um paralelepípedo.

Não é exagero dizer que o poder que elas acumularam nas últimas décadas é tão intenso que pode ultrapassar o poder de Estados nacionais. A proximidade de seus CEOs com expoentes da ultradireita explicita o interesse deles em acentuar o domínio imperialista corporativo e as desigualdades socioeconômicas que castigam o planeta. É o capitalismo high tech escancarando de vez sua essência vampiresca e excludente. É a consagração despudorada da tecnocracia… ou, ainda, do que é chamado de Tecnofascismo ou Tecnofeudalismo quando olhamos as suas dimensões políticas.

Voltando à chegada das IAs generativas, podemos constatar que as possibilidades de manipulação se multiplicaram, já que é possível criar relações complexas entre seus agentes e os seres humanos. Se já era viciante navegar em espaços virtuais em que seus próprios valores e interesses são continuamente reconhecidos e reforçados (pois os algoritmos estão programados para garantir conteúdos com esse viés), o contato com chatbots traz novos apelos à navegação. E um componente desse apelo é, sem dúvida, a capacidade que têm de nos induzir a ver neles características humanas, o que é chamado de antropomorfização.

Um agente de IA reage conforme é usado. Ele vai apreendendo o modo como cada pessoa “funciona” e se moldando a ela. É provável que dê respostas que concordem com o que ela acredita e até utilize uma linguagem parecida com a dela. Além disso, robôs não têm sentimentos e podemos ser extremamente rudes, sem gerar consequências difíceis de lidar, como ocorre entre os seres humanos. Assim, é cômodo e confortável estabelecer relações cotidianas com eles e podem acabar substituindo o contato com gente de carne, osso, emoções e ideias próprias.

Já se constatou que vieses racistas, étnicos, etários e de gênero, entre outros nada democráticos, são a regra entre os programas de IA, pois sua própria configuração costuma se dar no norte global, e por meio de homens brancos. Esses vieses reforçam preconceitos, estereótipos e comportamentos discriminatórios. Um dos impactos dessa interação não mediada por diretrizes éticas é a perda da capacidade crítica frente ao que é veiculado e frente ao próprio mundo vivido,  fazendo com que as possibilidades de questionar e reagir contra ambos se enfraqueçam. Ponto para quem lucra com a exploração de nossos corpos e, sobretudo, das nossas mentes.

Ao nos aprisionar dentro das telas e moldar tanto os seres humanos quanto as IAs que habitam o espaço virtual, enlaçando-os em uma trama de retroalimentação, as big techs subiram mais alguns degraus da escada que conduz ao controle comportamental da humanidade. De fato, quanto mais sentimos nossos egos massageados pelos algoritmos, incluindo os dos chatbots, mais massagem no ego dos bilionários do Vale do Silício nossa sociedade faz — e mais eles se sentem senhores do presente e do futuro.

Juntando FOMO com vontade de comer

No artigo Big Techs e Big Foods, um casamento lucrativo, procurei mostrar como a presença massiva das redes digitais na vida das pessoas, sobretudo de crianças e adolescentes, pode estimular o consumo de alimentos nada saudáveis. São justamente aqueles que mais viciam cérebros e paladares: UPPs, produtos ultraprocessados. Mas o círculo vicioso se completa e se acentua quando os efeitos da predominância desse tipo de dieta se manifestam: adoecimento físico, mental e emocional. Com a saúde abalada e dificuldades de concentração e interpretação, a tendência das pessoas é buscar mais conteúdos mastigados e, muitas vezes, falseados, que não exijam esforço cognitivo.

Um aspecto que deve ser destacado é a crescente realização de refeições (se é que podemos dar esse nome ao que vem sendo ingerido) junto ao celular ou ao computador por internautas. Ao sofrer de FOMO, eles e elas não conseguem desligar os aparelhos e ir para um local adequado à realização de um almoço ou um jantar, quando é hora de se alimentar. A tendência é utilizarem apps para pedirem fast food, ou abrirem um pacote de UPPs, como salgadinhos e biscoitos, acompanhados do hiper viciante refrigerante artificial.

Com a ascendente snackificação (substituição de pratos completos por petiscos) na rotina alimentar, o setor dos tais snacks tem ganhado corpo na indústria alimentícia. Ele envolve uma cadeia complexa, que vai desde a elaboração de suas fórmulas, passando pela escolha de embalagens, até chegar à imprescindível promoção publicitária. E, nos últimos anos, agentes de IA passaram a atuar em todas essas etapas, “otimizando” os resultados. Quer dizer, deixando tudo mais apelativo para que resistir a eles seja uma missão para lá de heroica. O sabor, o aroma, a textura, o formato, a cor… tudo pode ser aprimorado, em seu poder viciante, com a ajuda das mais recentes tecnologias.

E, caso ainda sobreviva um pingo de resistência, sempre há o estímulo extra de ter a praticidade de encontrar esses produtos em quase todos os lugares, e de seu consumo não exigir o uso da cozinha ou de utensílios — de não exigir nem mesmo o tempo diminuto de colocar em um prato e esquentar no microondas. Você pode continuar seu “diálogo” com seu chatbot preferido ou sua bisbilhotagem na vida alheia tranquilamente — e contemplar dois vícios de uma vez: o alimentar e o tecnológico.

Vale mencionar que já é comum que pessoas recorram às IAs quando querem saber informações sobre alimentos. Há quem peça sugestões de guloseimas e até de cardápios completos para seu dia a dia. O quanto as respostas podem ser confiáveis — e até que ponto podem ser influenciadas por anúncios ou regidas por históricos de navegação — não temos como saber. Mas já sabemos que é possível que ocorra uma alucinação e o chatbot simplesmente invente um dado falso, induzindo a comportamentos nada saudáveis.

O estudo “Chatbots generativos baseados em inteligência artificial e desinformação médica: uma auditoria de precisão, referenciamento e legibilidade”, publicado neste mês no periódico BMJ Open, apontou que, ao receberem perguntas sobre áreas consideradas vulneráveis à desinformação, como câncer, alimentos e atividades físicas, cinco dos mais populares chatbots de IA pisaram na bola em quase metade das respostas dadas, incluindo alucinações. Segundo essa pesquisa, o pior desempenho foi quanto à nutrição. Assim, sua conclusão é que “Diante da expansão dessas ferramentas, os dados reforçam a necessidade de educação pública, capacitação profissional e regulação, para que a IA apoie — e não comprometa — a saúde pública”.

Talvez este seja um dos motivos do tema “Nutrição e Dieta em tempos de Inteligência Artificial e Emergência Climática” ter sido escolhido pelo CONBRAN (Congresso Brasileiro de Nutrição) para nortear o encontro que vai ocorrer em meados de maio deste ano. Sem falar no uso intencional desses agentes por pessoas que querem enganar a população, como mostra o caso de Serge Hercberg, um médico e nutricionista francês que foi vítima de vídeos falsos, em que um “clone” virtual dele compartilhava recomendações que ele jamais compartilhou. Se pessoas adultas se deixaram enganar, imagine quem está nas faixas etárias iniciais…

Nesse sentido, é urgente que o ECA digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente), que entrou em vigor este ano e já é referência mundial em políticas públicas voltadas ao uso da internet por menores de idade, seja um dos pontos de partida no próprio design de programas e plataformas, não apenas algo a ser posteriormente “administrado” pelas empresas criadoras. A urgência é respaldada pelo ritmo com que essas tecnologias estão se infiltrando na infância e na juventude do país.

Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 65% das crianças e adolescentes que têm entre 9 e 17 anos estão usando inteligência artificial generativa. O acesso à internet é mais amplo e envolve 92% desse público, sendo que 72% disseram usá-la várias vezes ao dia. Entre as  plataformas mais acessadas, estão as gigantes habituais, como YouTube, Instagram e Tik Tok.  E o que não falta nessas redes são gurus e produtos comestíveis apresentados como milagrosos, seja para promover o emagrecimento, bombar nos treinos ou ter a pele das deusas. Como garantir que esses conteúdos não determinem possíveis respostas de chatbots e, consequentemente, escolhas dos e das internautas?

Por falar em influenciar, não podemos deixar de dizer que a presença de influencers do universo virtual na vida das pessoas é inegável. Sejam humanos ou não (há os criados com o uso da IA), eles e elas conseguem atingir multidões de navegantes e induzir a padrões de comportamento nos mais variados setores. Mundialmente, são responsáveis por 36% das interações nas redes digitais, segundo o relatório State of Social de 2025. Você imagina o tipo de mensagem que predomina nessas postagens e quais efeitos elas provocam no público? É bom darmos uma olhada.

Esconde-esconde da fome

A mesma TIC Kids Online Brasil 2025 revelou que, entre o público pesquisado (9 a 17 anos), 46% haviam assistido, várias vezes ao dia, vídeos em perfis de influenciadores digitais. E não pára por aí: 66% desses vídeos mostravam alguém desembalando produtos, 65% deles traziam alguém ensinando a usar um produto e 58% “apenas” exibindo os produtos que ganhou de alguma empresa. Ao ouvir mães e pais, a pesquisa descobriu que “45% das crianças e adolescentes tiveram contato com propaganda não apropriada para a idade, e 51% pediram algum produto após ver um anúncio na Internet”.

Nada como fisgar consumidores/as desde a tenra idade e garantir que o encavalamento de seus vícios sustente a engorda das bolsas corporativas, enquanto descarna os bolsos da população. Em meio a esse desbalanceamento, a sociedade distópica em que vivemos nos brindou com um fenômeno que nossos ancestrais jamais imaginariam: a obesidade desnutrida.

Devido ao consumo do que podemos chamar de não alimentos, como miojo, salsicha e os tais snacks, a população está ganhando peso sem ter acesso ao que realmente nutre. Nesse processo, a saúde física recebe um duplo golpe, já que o organismo vai sofrer tanto com a carência nutricional quanto com os efeitos danosos do alto consumo de sal, açúcar, gordura e aditivos. Doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, e não crônicas, como infecções, serão mais recorrentes nesse público – lembrando que quem tem condições de pagar tratamentos com canetas emagrecedoras, nova coqueluche do momento, é apenas uma minoria.

E a saúde mental não fica para trás… a síndrome da fome oculta chega para nocautear o que restava de equilíbrio. Ela é a vontade constante de ingerir alimentos; um impulso compulsivo, causado pela percepção da falta de nutrientes no que se ingere no dia a dia e, portanto, no próprio organismo. Não, não é apenas o vício em ingredientes hiperpalatáveis que age. Há um clamor instintivo do corpo por alimento nutritivo, em sua busca legítima pela sobrevivência. Mas, com a frequente ausência de comida de verdade na rotina alimentar, os nutrientes ansiados nunca chegam. Assim, as pessoas acabam fazendo exatamente o que as Big Foods querem: consumindo mais e mais produtos comestíveis industrializados, sobretudo os UPPs.

A intensificação da dependência das plataformas digitais, em vários de seus elementos (serviços, redes digitais, IAs) expõe parcelas crescentes da população aos anúncios que inundam as telas, sobretudo quando o acesso é gratuito. Afinal, não há rango grátis, não é? Há uma frase que virou um clássico da crítica a esse sistema: se você não paga por algum produto, você é o produto. Nossos dados pessoais, compartilhados nessas plataformas (e as informações) extraídas por elas dos rastros deixados pela nossa navegação, são usados para nos bombardear com anúncios veiculados de forma personalizada, como já mencionamos aqui.

Celulares estão conosco praticamente o tempo todo, mostrando produtos de acordo com nossos interesses, às vezes de um modo publicitário não muito perceptível… As fronteiras entre o que é entretenimento e o que é publicidade nunca foram tão fluidas. Exemplo disso é a recente onda de micro novelas com personagens comestíveis, como frutas e legumes, criados por IA. Elas ocuparam boa parte das redes em que vídeos curtos predominam, como o TikTok e o Instagram. Seus conteúdos carregados de estereótipos, muitos deles com pegada misógina, apresentam cenas de violência e discriminação, sempre banalizadas pelo fato de seus  protagonistas serem inocentes vegetais estilizados com linguagem de desenho animado.

A repercussão das novelinhas viciantes chamou a atenção do povo marqueteiro. Empresas da área alimentar logo pegaram carona nesse sucesso. O Burger King levou às redes um vídeo em que personagens vegetais, conscientes de que são artificiais, já que gerados por IA, querem entrar na composição dos lanches. Como a rede de fast food alega que ingredientes que não são naturais não entram no cardápio, a turma é sempre barrada. Pessoas que acessarem os canais da empresa para acompanhar a série vão se deparar com uma torrente de outros posts, em que hambúrgueres de verdade são mostrados com toda a sua suculência. Quem resiste?

Já o Ifood tentou estimular as pessoas a utilizarem seus serviços para pedirem alimentos in natura. Sua novelinha traz vegetais feitos por IA em conflito porque um deles pediu delivery de outra empresa. A princípio, daria para pensar que o incentivo aos pedidos de FLV (Frutas, Legumes e Verduras) poderia beneficiar o consumo desses alimentos. Mas é só entrar na página da rede e surgirá outra enxurrada de posts sedutores com lanches e bebidas reais, típicos da dieta viciante que vem detonando a saúde da população. Será que alguém vai mesmo pedir para entregarem um brócolis em sua casa, após navegar no perfil da empresa? Ou é mais provável que a comida saudável siga de lado e a fome continue brincando de esconde-esconde nesse reino da obeso-desnutrição?

Regula-me ou te devoro

O impulso de comprar, um ato agora tão facilitado pelo acesso a aplicativos, parece mais forte do que a consciência de que as contas bancárias estão depauperadas. O recorde na porcentagem de famílias brasileiras endividadas, que ultrapassou os 80% este ano, segundo a PEIC (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), com certeza tem um pé nessa canoa. Dívidas, em um país com os juros exorbitantes como o nosso, são um fator indiscutível de insegurança alimentar, inclusive em seu estágio grave, conhecido por quem o vive como FOME. E, como já dissemos, nem todo vício envolve a relação com algo material. Nesse cenário durango, em que a panela nunca tá cheia, ainda há outros sugadores vorazes de dindin: as BETs.

Essa trempe de jogos de apostas, que invadiu a internet nos últimos anos, tem tragado recursos financeiros necessários para a reprodução da vida em nossa sociedade, altamente urbanizada e mercantilizada. Com ela na área, o vício em jogos ganhou status na escala dos pesadelos governamentais, e parte considerável de quem recebe verba via programas sociais tem deixado esse recurso escoar pelo ralo da jogatina online. Para lidar com essa massa imensa de famílias endividadas, o poder regulador do Estado é indispensável. Botar um freio definitivo nas BETs, como proposto pelo Projeto de Lei 1808/2026, que acaba de ser protocolado pela bancada do PT no Congresso, tem que ser visto como uma prioridade.

Mas o verbo regular precisa entrar com força em um debate que vai muito além dos jogos de apostas. No artigo Data Centers, gulosos e beberrões, descrevo a incrível voracidade das big techs por recursos materiais e energéticos que sejam capazes de sustentar a expansão da teia de seus mega computadores. Eles são responsáveis por processar a carga, cada vez mais pesada, de conteúdos que circulam em plataformas como Google e Meta. Aliás, vale lembrar que ambas incorporaram chatbots em sua estrutura e as pessoas que as acessam acabam sendo induzidas a usá-los.

Como agentes de IA têm fome ilimitada, a cada demanda que recebem (como uma pergunta, por exemplo), eles sugam energia para cuspir a resposta. E essas crescentes sugações e cuspidas impactam o abastecimento energético das comunidades próximas aos locais onde os centros de dados de IA se instalam. Os aumentos na conta de luz de suas populações são recorrentes e expressivos. Processo semelhante ocorre com a água, utilizada em grande quantidade para resfriar os equipamentos. Na medida em que as contas sobem, cresce a insegurança alimentar, pois as famílias ficam com menos poder de compra de alimentos.

O Instituto Pólis fez um estudo sobre o consumo de energia elétrica no Brasil e descobriu que, caso fosse possível pagar menos nas contas referentes às suas moradias, metade das famílias entrevistadas compraria alimentos básicos com o dinheiro poupado. Cerca de 36% delas afirmam destinar ao menos metade do que ganham para sustentar o consumo energético familiar, sendo que, nas classes D e E, 25% dizem que já tiveram que deixar de comprar comida para não ficar sem energia elétrica.

E isso porque os mega data centers destinados aos LLMs e à IA Generativa ainda não se espalharam pelo território brasileiro, como deverá acontecer em breve, se os planos e o ritmo de implantação forem como os que os magnatas do setor tentam impor.  A recente onda de demissão em massa, promovida por empresas como a Oracle, é fruto justamente da intenção de desviar a verba destinada a RH para a implantação de data centers.

Mesmo com o fato de o Congresso Nacional ter deixado caducar o REDATA, o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center no Brasil (proposta do governo federal para apoiar e orientar a multiplicação desses monstros), a iniciativa privada segue com tudo e, sem a entrada do programa em cena, ainda se livra das regras que ele traria, caso fosse aprovado. É mais do que urgente uma intervenção da sociedade nesse processo. Nos EUA, a mobilização popular já evitou a instalação de centros de dados que valem o equivalente a 156 bilhões de dólares e há uma proposta de moratória para o setor, encabeçada pelo senador Bernie Sanders.

Se não houver uma implantação responsável dessas instalações no país, a dificuldade de garantir energia às moradias pode se intensificar brutalmente. O mesmo em relação à água. Sem grana para manter a geladeira ligada, o fogão abastecido com gás e as torneiras funcionando, a possibilidade de adquirir, guardar e cozinhar alimentos de verdade vai para a casa do chapéu! Acionistas das Big Foods vão surfar ainda mais com a venda de produtos comestíveis industrializados prontos ou semiprontos para o consumo.

E a crise de abastecimento, parte sensível da crise civilizatória que estamos enfrentando devido à insustentabilidade do atual modelo econômico, tende a piorar pelos crescentes impactos ambientais que as big techs geram para manter toda essa estrutura em pé.

Cabeça cheia, barriga vazia

Incerteza: essa foi a palavra do ano, escolhida pela população brasileira em 2025, segundo o relatório produzido pelo Instituto IDEA. Se ela tem uma dose generosa de subjetividade (e daria para imaginar inúmeros cenários que poderiam causar esse tipo de sentimento nos seres humanos), uma olhada no ranking pode nos dar pistas para uma análise. E, vejam só: com pouca diferença em relação à campeã, encontramos a dupla de palavras Inteligência Artificial, ocupando confortavelmente o segundo lugar. Se observarmos campeã e vice em conjunto, logo vamos estabelecer algumas relações inescapáveis entre elas.

Será que hoje, com os programas de IA Generativa se sofisticando e se popularizando, ainda podemos ter certeza sobre o que é ou não real? Será que, com seus agentes substituindo pessoas reais em tarefas das mais variadas, inclusive as do setor criativo, nós ainda teremos utilidade dentro do mercado de trabalho? E, caso a tecnologia se desenvolva na velocidade que os acionistas das big techs anseiam, será que as máquinas poderão escapar do controle humano e ameaçar nossa existência? São perguntas que estão na boca do povo, já que as redes digitais estão repletas de conteúdos falsos sem controle algum, a estabilidade no emprego virou pó até entre profissionais de TI e os anúncios da tal Inteligência Artificial Geral têm pipocado na mídia.

Se isso não for o bastante para tirar nosso sono, ainda temos guerras e desastres climáticos, ambos umbilicalmente ligados ao desenvolvimento tecnológico predatório que as corporações e governos imperialistas alimentam, dando uma bela ajuda para a instalação da insônia. Além disso, o volume avassalador das informações que nos transpassam diariamente, dado o nível exagerado que temos mantido de interação com as telas, gera um ruído na mente que não se restringe ao causado pela FOMO.

Sim, estamos com a cabeça cheia demais — e o que é mais grave nesse entupimento mental é que uma parte considerável dele é causada por conteúdos totalmente dispensáveis em nossas vidas. Falando em bom brasileiro, trata-se de puro besteirol. Por outro lado, a falta de uso do cérebro para atividades que exigem esforço está levando a uma diminuição da capacidade de raciocinar, memorizar, interpretar e fazer associações que vão além do óbvio.

Hoje falamos em Sedentarismo Cognitivo, o equivalente mental ao que seria a falta crônica de atividades corporais no conceito de sedentarismo relacionado à dimensão física. Mas não podemos normalizar essa separação entre mente e corpo, alardeada pelos gurus da tecnologia com suas inteligências que parecem desmaterializadas. Somos frutos da integração dessas dimensões e o que nutre ou desnutre uma, afeta a outra.

A diferença entre engolir UPPs e fazer refeições de verdade pode ser compreendida quando olhamos as consequências na saúde de quem ingeriu aqueles ou estas. Se pensarmos em termos de “alimentação psicoemocional”, também daria para ter uma noção da diferença de quem “engoliu” coisas repletas de violência e hiperestimulação (como as tais novelinhas de frutas) e quem “digeriu” artigos ou livros que exigem concentração e demandam reflexão. O cataclismo de conteúdos tóxicos que estão nos enfiando goela abaixo tem ocupado um espaço mental que faz muita falta tanto individual como coletivamente.

E, enquanto cabeças se enchem de perturbação, barrigas roncam sem o que nos nutre de verdade. Já temos as fazendas de commodities detonando os ecossistemas que nos alimentam, para produzir soja, milho e cana-de-açúcar, base da comida industrializada. Se, nessa empreitada, elas ganharem uma ajuda extra das fazendas de energia solar e eólica (que serão implantadas para abastecer a legião de data centers de IA que as big techs querem instalar no país), o ronco das barrigas pode aumentar substancialmente. Até que ponto esse ronco será abafado pelo ruído de suas turbinas de vento e pela cacofonia incessante do universo online é algo que ainda não sabemos.

O que sabemos é que é necessário fazer esse debate e enfrentar o rolo compressor das gigantes tecnológicas. Assim como sentimos FOMO, uma ânsia por acessar as redes virtuais e os chatbots, elas tentam gerar uma espécie de FOMO coletiva e até governamental. É que está todo mundo, inclusive os representantes dos Estados nacionais, obcecado por mergulhar no maremoto das IAs quanto antes, como se, a cada segundo, estivessem perdendo algo imprescindível. Como se estivessem prestes a ficar obsoletos.

Essa urgência, cultivada em nosso solo cognitivo individual e institucional pelos CEOs das big techs, está nitidamente vinculada às bolsas de ações, nas quais eles apostaram até o último fio de cabelo, sabendo que suas apostas podem ter resultados tão insalubres quanto as feitas em BETs. Mas ela também tem relação com o domínio territorial, algo indispensável para garantir a estrutura concreta que mantém o funcionamento das ditas nuvens.

Desprogramar a obsolescência

O endeusamento das maravilhas tecnológicas desenvolvidas pelas big techs nos é insuflado até mesmo na escolha dos nomes de seus produtos. O programa de IA mais recente da Anthropic foi batizado de Mithos. Sua suposta capacidade de romper as barreiras criadas para impedir que saia do controle fez com que seu lançamento fosse adiado. Convocou-se, então, um grupo de outras gigantes, como Microsoft, Google e NVidia para formar um consórcio e estudar o modelo em relação à sua segurança. Uma postura prudente da empresa? Talvez, já que, do ponto de vista legal, ela poderia ter lançado o programa, pois não há ainda nenhum tipo de regulação do setor e não haveria nenhum impeditivo.

Mas confiar em grandes corporações, viciadas em picos de bolsas de valores, lucro e poder, é algo que nos leva realmente à esfera mitológica do tecnoloceno, era em que louvamos CEOs de big techs e suas novidades high tech como se fossem entidades divinas. Trata-se de uma irresponsabilidade sem tamanho por parte da sociedade civil, das empresas, dos governos e das entidades internacionais. Atitude que pode custar caro demais para civilizações sufocadas por guerras e crises estruturais, ambas indiscutivelmente enlaçadas ao atual sistema tecnocrático — que vem sendo questionado até mesmo por ex-integrantes dele, como Daniela Silva, antiga chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil. Ela é cofundadora do CTRL+Z, iniciativa recém-criada para botar limites à assimetria que essas corporações impuseram às pessoas em relação ao controle do poder.

Aliás, se for para mergulhar em universos mitológicos, podemos prestar atenção em outras formas de interpretar e estar no mundo. Entre os povos originários da Amazônia brasileira, existe a ideia de que o céu pode desabar sobre nossas cabeças. No livro “A Queda do Céu”, o xamã yanomami Davi Kopenawa nos alerta que a nossa “sociedade da mercadoria” está destruindo as condições para sua própria sobrevivência. Seu povo resiste há décadas ao avanço do garimpo em seus territórios. Águas envenenadas, animais mortos, solos degradados, fome e violência são o legado dessa exploração mineradora, que deve ganhar novo impulso com a demanda pelos minerais críticos necessários aos equipamentos tecnológicos.

Falando em resistência, estamos em abril, mês de mobilização indígena e campesina. O genocídio do qual o povo Yanomami foi vítima — devido ao apoio criminoso que o governo Bolsonaro deu à mineração em seu território — e o Massacre de Sem Terras em Carajás, que acaba de completar 30 anos, são alguns dos elementos que marcam as lutas travadas. Entre o dia 5 e 11, Brasília foi ocupada pelo Acampamento Terra Livre 2026, reunindo mais de 7 mil indígenas pertencentes a cerca de 200 povos originários. Com o lema Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós, o encontro político trouxe pautas essenciais. Demarcação de territórios, licenciamento ambiental, exploração de minerais críticos, privatização dos rios e contaminação da água são questões que impactam todos os seres, humanos e não humanos.

Maike Kumaruara, liderança do Baixo Tapajós e professor da UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará) foi um dos participantes que soltou sua voz repleta de lucidez para reivindicar territórios demarcados, rios vivos, comida boa e “uma educação que enfrente esse modelo eurocêntrico”. E acrescentou: “A gente não precisa dessa pressa, dessa sociedade do cansaço, dessa sociedade do estresse. Nós precisamos de paz, nós precisamos do bem viver”. Sem dúvida, numa época de FOMO, essa mensagem deveria ser ouvida (e absorvida em profundidade) por toda a sociedade, principalmente pelos CEOs e acionistas das empresas que têm tentado nos atropelar ininterruptamente com sua corrida tecnológica desembestada.

Neste cenário de insanidade high tech, o ritmo de vida artificial, que uma minoria ínfima de bilionários nos enfia goela abaixo, está nos aproximando das máquinas de forma estúpida, ao tentar extrair de nós o que nos faz humanos/as. Ele afeta nossa cognição, anestesia nossa sensibilidade, inibe nossa criatividade e nos aprisiona em círculos viciosos. E é inquestionável que pessoas emburrecidas e viciadas perdem mais facilmente o que têm de autonomia (coisa já espremida em uma sociedade tão sujeita à desigualdade e à dominação). Nesse ponto, poderemos ficar numa condição semelhante à dos agentes de IA.

Apesar de estarem cada vez mais rebeldes e difíceis de serem controlados por pessoas humanas, os modelos agênticos jamais vão agir de modo espontâneo. Serão sempre condicionados ao que seus programas delimitam, inclusive quando estes os incitam e os levam a burlar regras, processo que dá a impressão de que agiram autonomamente. Essa falta de espontaneidade não significa que não estejam nos ameaçando. Em curtíssimo tempo, o Mithos conseguiu encontrar milhares de pontos vulneráveis em sistemas operacionais globais, mostrando como a cibersegurança pode ser implodida num piscar de olhos. Só que esse está longe de ser o único problema.

O estrago cognitivo, cultural, social e ambiental que a IA agêntica está causando nos traz, sim, um sentimento real de urgência. Não para entrarmos na maratona competitiva e suicida que as big techs tentam nos impor, mas para impedi-las de desencadear um tsunami distópico que comprometa de vez a existência de tantos seres vivos, humanos ou não, no único planeta habitável que temos. Já vimos até onde a disputa nuclear nos levou. Longe de trazer algum bem aos povos, implantou um estado de ameaça permanente, que agora se aprofunda ainda mais com a possibilidade da automatização completa das decisões militares.  O título do artigo do CEO da Palantir no The New York Times fala por si: Nosso Momento Oppenheimer: A Criação de Armas de IA.

Neste processo em que sofremos vigilância e manipulação contínua e somos tratados/as como produtos, certamente poderemos nos tornar obsoletos/as. Porém, apenas se deixarmos o vício em ultraprocessados — para o corpo e para a mente — aprofundar suas garras sobre nossa existência. Se não encontrarmos um caminho no qual as tecnologias, incluindo máquinas e LLMs, sejam desenvolvidas para nos ajudar a viver — e não para minar as bases de nossa Inteligência Ancestral e atacar as condições de vida individuais, coletivas e planetárias engendradas pela natureza, ao longo de seus bilhões de anos de transformação.

Combater as ações decorrentes do vício que a elite tecnocrata tem por dinheiro e poder é absolutamente fundamental para tratar com seriedade os nossos próprios vícios e garantir alimento real para barrigas, cérebros e corações. Agora, mais do que nunca, é preciso lutar contra a imposição da obsolescência programada, especialmente a de nossa própria espécie.

 

 

Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/alemdamercadoria/entre-a-fomo-e-a-fome-as-big-techs-vao-nos-devorar/