Clipping

Colômbia sob a mira de “El Tigre”

No último domingo, a Colômbia elegeu o candidato de extrema direita apoiado por Donald Trump. O país é apenas o alvo mais recente da “Doutrina Donroe”, que se baseia na convicção de que a América Latina pertence a Washington, que pode governa-la ou destruí-la.

Por: Emilie Teresa Smith | Tradução: Pedro Silva | Crédito Foto: Manuel Pedraza/AFP via Getty Images. O candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, favorito no segundo turno das eleições colombianas deste domingo, é uma figura caricaturalmente repugnante, um advogado de passado obscuro com um pé em Miami. Donald Trump não hesitou em apoiá-lo publicamente.

Na segunda-feira, 8 de junho, recebi uma notícia terrível da minha amiga Rosa, uma jovem ativista e fundadora de três hortas comunitárias em bairros carentes da zona norte de Bogotá. Vândalos destruíram um dos espaços, o Jardim dos Polinizadores em Suba.

Homens enfurecidos e encorajados, munidos de facões, pás e machados, derrubavam tomateiros e abacateiros, cortavam folhas e frutos de bananeira, lavanda, arruda, couve, orégano, manjericão e muitas outras hortaliças e ervas. Chorei ao ver as fotos da terra seca e marrom onde antes eu caminhava com ela e seus amigos pela vegetação exuberante e emaranhada.

“Eles não tiveram medo de nada”, disse Rosa (cujo nome foi alterado para preservar o anonimato). “Eles fizeram isso em plena luz do dia.” Eu me solidarizei. “É como se o cara deles já tivesse vencido”, acrescentou ela.

O segundo turno das eleições na Colômbia, neste domingo, levará o país a um extremo ou outro: um festival de ódio, exclusão e violência, ou a continuação de uma experiência progressista imperfeita. Após o primeiro turno, em 31 de maio, o senador Iván Cepeda, do Pacto Histórico, de esquerda, obteve 9,64 milhões de votos, e o advogado Abelardo de la Espriella, um novato na política com estética neofascista, inesperadamente ultrapassou-o, com 10,31 milhões de votos. A candidata que ficou em terceiro lugar, Paloma Valencia, uma conservadora tradicional originalmente apoiada pelo ex-presidente de direita Álvaro Uribe, ficou de fora da decisão.

Os resultados chocaram muitos estrategistas e ativistas do Pacto. Cepeda e sua candidata a vice-presidente, a renomada líder indígena Aida Quilcué, também senadora, lideravam as pesquisas com uma margem significativa até o dia da votação. Na manhã seguinte, todos voltaram ao trabalho: ativistas trabalhistas e climáticos, líderes afrodescendentes e indígenas, feministas, pessoas LGBTQIA+ e todos os seus aliados. A questão agora é se os colombianos que levaram o primeiro governo de esquerda do país ao poder conseguirão garantir o futuro de seu projeto progressista.

O candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, é uma figura caricaturalmente repugnante, um exibicionista midiático com dupla cidadania colombiana e estadunidense. Existem vídeos de de la Espriella se gabando de explodir gatos com fogos de artifício. Ele possui um histórico de inúmeras declarações vis, misóginas e homofóbicas. Como advogado, representou figuras duvidosas conhecidas por envolvimento com o tráfico de drogas e violência paramilitar. Viveu grande parte de sua vida adulta em Miami. Em suas redes sociais, apresenta-se como El Tigre (o Tigre). Ele possui características semelhantes às de muitos de seu tipo:  Nayib Bukele, de El Salvador, Javier Milei, da Argentina, e Daniel Noboa, do Equador.

O candidato do Pacto, Iván Cepeda, é um homem ponderado com ares de professor de filosofia. Há doze anos, ele é senador no Congresso colombiano. Seu pai, Manuel Cepeda, também foi senador. Cepeda pai foi assassinado em 1994, como parte de uma campanha de assassinatos em todo o país contra políticos de esquerda que, segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, eliminou cerca de seis mil líderes e ativistas em menos de uma década. Iván Cepeda tornou-se membro fundador e o mais persistente defensor do movimento das vítimas da violência estatal durante os últimos anos da longa e amarga guerra civil. Ele próprio foi legalmente reconhecido como vítima em um processo bem-sucedido que, em 2025, levou o ex-presidente Uribe (temporariamente) à justiça. Aida Quilcué também é vítima da violência estatal. Em 2008, soldados do governo assassinaram seu marido a tiros. Seis soldados foram posteriormente condenados pelo assassinato.

O Pacto Histórico foi formado em 2021 e, um ano depois, venceu as eleições presidenciais, levando um presidente de esquerda ao poder executivo nacional pela primeira vez. Gustavo Petro, um ex-guerrilheiro, mostrou-se um presidente dinâmico e enérgico, que não teve medo de enfrentar Donald Trump e seus aliados.

Durante os quatro anos do governo Petro, houve grandes conquistas: reforma da previdência e agrária, leis que tornaram permanente a gratuidade do ensino superior, proteção de biorregiões de importância crítica, especialmente na Amazônia, e o lançamento de um sólido movimento internacional para o desinvestimento em combustíveis fósseis. Por outro lado, também houve retrocessos decepcionantes: melhorias na saúde pública foram emperradas pela burocracia do Congresso, e a Colômbia segue registrando recordes de assassinatos de defensores territoriais. A promessa de “Paz Total” de Petro permanece distante, já que remanescentes de guerrilhas e muitos grupos paramilitares e de narcotráfico ainda aterrorizam o interior do país.

Cerrando fileiras

OPacto me convidou para monitorar as eleições colombianas como parte da Missão Unificada de Observação Internacional. Havia grandes expectativas de que a chapa Cepeda-Quilcué vencesse no primeiro turno, ultrapassando a cláusula de barreira de 50%.

Em 29 de maio, houve um coquetel para a equipe de observadores estrangeiros no subsolo de um hotel chique. Cheguei atrasada. Meu táxi avançava lentamente pelas ruas congestionadas de Bogotá, enquanto o sol se punha sobre uma cidade imperfeita e repleta de lixo. Ao chegar, me deparei com uma verdadeira seleção de progressistas internacionais: um espanhol, líder do Podemos; membros da Câmara dos Lordes e da Câmara dos Comuns do Reino Unido; representantes do Sinn Féin, do Parlamento Europeu e do Partido Comunista de Portugal; e esquerdistas da maior parte da América Latina e do Caribe, incluindo Argentina, Uruguai, Chile, México, República Dominicana e Brasil. Todos sabiam: esta eleição na Colômbia era sobre mais do que o futuro político de um único país. A faca de Trump estava afiada, rasgando a América Latina, tratando a região mais uma vez como sua para governar ou arruiná-la. Ele desprezava Petro e estava determinado: a Colômbia seria dele.

“O que claramente aconteceu foi uma grande manipulação e influência indevida por parte de forças externas à Colômbia.”

No final da tarde de 31 de maio, ao término do dia da eleição, os membros do Pacto se aglomeraram em outro quarto de hotel, um enorme. Estavam agitados, animados. Ainda não havia números, mas havia relatos de que mais colombianos do que nunca haviam votado. Fui puxada por um dos jovens e entusiasmados voluntários do Pacto através de uma multidão inacreditável, espremida entre guardas e uma porta, recebi uma fina pulseira de identificação e fui então liberada para entrar no quarto cavernoso com todos os partidários — para esperar.

A emissora nacional de televisão RTVC estava transmitindo ao vivo. A cada poucos minutos, um gongo baixo e sombrio soava. Os analistas faziam uma pausa e o locutor anunciava os números da última apuração das pesquisas. Imediatamente, ficou claro: Cepeda não conquistaria a presidência no primeiro turno. De la Espriella estava na frente e nunca perdeu a liderança, embora nunca tenha ultrapassado os 50%. O clima no quarto do hotel permaneceu tenso, mas mais sério, determinado a não desistir sem lutar até o fim.

Nosso grupo de observadores declarou que houve pouca ou nenhuma violência nos locais de votação (uma grande melhoria). Houve cerca de seiscentos incidentes menores de intimidação — compra de votos, cortes de energia elétrica e obstrução da votação. Houve irregularidades — uso indevido de cores partidárias por parte dos eleitores — mas nenhuma fraude visível de grande porte.

Com quase todos os votos apurados, Cepeda e Quilcué apareceram diante da multidão entusiasmada. Os ânimos estavam exaltados. Cepeda discursou: “É hora de cerrarmos fileiras. Temos três semanas para lutar pela Colômbia.” Aida falou: “Esta é uma luta pela Mãe Terra. Pela vida.” A multidão aplaudiu fervorosamente e, em seguida, dispersou-se, energizada e pronta.

Na manhã seguinte, a equipe internacional de observação se reuniu com representantes do Pacto para uma análise pós-primeiro turno. Na noite da eleição, Petro (e depois Cepeda) alegaram que houve fraude massiva. Nessa reunião, essa alegação foi descartada. O que ficou claro, no entanto, foi uma grande manipulação e influência indevida de forças externas à Colômbia.

Estávamos testemunhando o desenrolar de um plano meticulosamente elaborado, com raízes profundas no governo Trump. O recém-empossado senador estadunidense por Ohio, Bernie Moreno, nascido na Colômbia e com fortes laços com a classe conservadora e abastada do país, estava em campo, orquestrando a postura pública de Trump.

O Pacto foi vítima de uma campanha massiva de desinformação nas redes sociais e em outros meios. Os alarmistas de direita praticaram todas as táticas, recorrendo a velhos clichês:  Os comunistas estão vindo para destruir o país.  Eles vão acabar com seus pequenos negócios.  Eles são ateus. A equipe de De la Espriella, inspirando-se na maestria de Bukele em manipulação, criou duas fazendas de likes. Segundo estimativas do Pacto, mais de cem mil contas falsas foram colocadas em operação rapidamente, espalhando histórias e semeando dúvidas.

“Jogamos limpo, fizemos campanha à moda antiga”, disse o senador do Pacto, Alirio Uribe:

Tínhamos equipes em todos os departamentos, manifestações em todas as principais cidades. Dezenas de milhares de voluntários, jovens, líderes comunitários, ativistas. Mas, no fim, fracassamos. Não temos os mesmos recursos que De la Espriella. A campanha dele se baseou em ódio, violência, vulgaridade e ameaças. Nós simplesmente não vamos por esse caminho.

“A Colômbia é um país que está sentindo o impacto das políticas de Trump em tempo real”, disse Ana Cristina, ativista do Pacto. “O neoliberalismo está morto. Estamos enfrentando o neofascismo. O plano deles foi claramente delineado. Simplesmente não conseguimos acreditar.”

A Doutrina Donroe

Em 2 de junho, o presidente Trump se manifestou sobre as eleições colombianas em sua plataforma Truth Social. “Abelardo tem meu apoio total e irrestrito”, escreveu. Ele não menciona Cepeda, mas chama o oponente de Abelardo de “marxista de esquerda radical”. Trump disse que estava no time El Tigre “por causa das tremendas conquistas de [de la Espriella] na vida e por seu apoio político a mim, pessoalmente”. Mais preocupante ainda, a interferência na Colômbia faz parte de um renovado e revigorado imperialismo estadunidense nas Américas.

Em setembro de 2025, as forças armadas dos EUA iniciaram sua campanha de destruição de embarcações na costa da Colômbia, no Caribe e no Pacífico. Simultaneamente, Trump declarou que os cartéis de drogas seriam identificados como organizações terroristas estrangeiras. Em seguida, passou a se referir ao presidente Gustavo Petro como um “líder do narcotráfico” (assim como fez com o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela). Depois, em dezembro de 2025, Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional (ESN), chamando-a de “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, ou “Doutrina Donroe”.

“A interferência na Colômbia faz parte de um renovado e revigorado imperialismo estadunidense nas Américas.”

A Doutrina Monroe de 1823 delineava que os Estados Unidos — ainda não a potência dominante nas Américas continentais — não interfeririam nos assuntos europeus. Em contrapartida, a Europa deixaria as Américas em paz. A primeira grande alteração à doutrina, o Corolário Roosevelt de 1904, afirma que os EUA podem interferir quando e onde quiserem, no continente americano como um todo. E foi exatamente o que fizeram: uma invasão ou ocupação aqui, uma mudança de regime secreta ali, assassinatos e treinamento de assassinos, desaparecimentos, destruição de movimentos populares e de esquerda, da Guatemala ao Chile. Em quase todos os países e regiões das Américas, os EUA têm apoiado exércitos locais e oligarcas nos últimos 120 anos.

“A política estadunidense deve se concentrar em recrutar líderes regionais que possam ajudar a criar uma estabilidade tolerável na região, mesmo além das fronteiras desses parceiros”, afirma o novo documento da Estratégia de Segurança Nacional.

Rapidamente, o plano se transformou em ação: a invasão da Venezuela e o sequestro de seu presidente e sua esposa; o estrangulamento de Cuba; os ataques contínuos a pequenas embarcações. Os aliados de Trump na região se sentiram encorajados: Milei na Argentina (que recebeu um “pacote de apoio financeiro” de US$ 20 bilhões de Trump), Bukele em El Salvador (que apertou ainda mais seu controle sobre a pequena nação centro-americana, enviando juristas, jornalistas e ativistas de direitos humanos para o exílio e aceitando US$ 5 milhões dos Estados Unidos para receber “estrangeiros hostis” em suas megaprisões monstruosas) e Noboa no Equador (que interveio diretamente na eleição colombiana, prometendo punir o país com tarifas caso a esquerda vencesse). Entre os políticos mais recentes — também da extrema-direita — estão José Antonio Kast, do Chile, cujo pai era membro do Partido Nazista Alemão e que defende com veemência a bandeira, até recentemente desacreditada, de Augusto Pinochet, e Honduras, onde Trump — também sem pudor — interferiu no resultado da eleição presidencial de novembro passado, garantindo a vitória de seu candidato, Nasry Asfura.

Em 7 de março de 2026, todos esses e outros, um grupo previsível de líderes latino-americanos de extrema-direita, reuniram-se na Flórida com membros da equipe de Trump, incluindo o Secretário de Guerra Pete Hegseth, o Secretário de Estado Marco Rubio e a recentemente desacreditada e agora realocada Enviada Especial Kristi Noem. Na reunião, Trump firmou o chamado Escudo das Américas, também conhecido como Coalizão das Américas Contra os Cartéis. O principal objetivo declarado do escudo: combater o narcotráfico. Na mira dele estão os governos progressistas do México, Colômbia e Brasil.

O que torna o objetivo declarado de combate às drogas do programa Escudo mais do que uma farsa — um ultraje absoluto — foi o indulto concedido por Trump a Juan Orlando Hernández em novembro de 2025. Hernández, ex-presidente de Honduras, havia sido condenado pelo tráfico de mais de quatrocentas toneladas de cocaína para os Estados Unidos e sentenciado a quarenta e cinco anos de prisão. Na época, o Procurador-Geral Merrick Garland afirmou: “Como Presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández abusou de seu poder para apoiar uma das maiores e mais violentas conspirações de narcotráfico do mundo, e o povo de Honduras e dos Estados Unidos sofreram as consequências”. E assim se desfaz a promessa de Trump de combater o narcoterrorismo.

Um mundo a perder

Os colombianos do Pacto e de outras regiões estão dando tudo de si no último turno das eleições, neste domingo. Também se preparam para resistir caso haja uma reviravolta no cenário político. Passaram a maior parte da vida na oposição. Pela primeira vez, têm muito a perder.

Minha amiga e seus colegas em Suba organizaram um velório para o jardim devastado. As pessoas trouxeram velas e poemas. “Eu entendo a organização para combater o crime. Para combater os traficantes. Mas quem organiza uma campanha para destruir comida e flores?”, perguntou Rosa.

“Quem é que odeia tanto esta vida?”