Direita vence quase todas as eleições na região, mas há um elemento mais profundo. Desde 2010, paralisação de mecanismos como UNASUL desarticula coordenação entre países, esvazia a soberania da região e contribui para reprimarizá-la
Por: Pedro Silva Barros | Imagem: Reprodução/The Triconentinental
A América Latina — e, de forma mais aguda, a América do Sul — atravessa um período de fragmentação política e desintegração econômica que compromete sua capacidade de ação coletiva e amplia sua vulnerabilidade externa. Desde meados da década de 2010, houve uma inflexão recente no processo de integração regional da América do Sul: a paralisação de mecanismos como a UNASUL e o esvaziamento de instâncias técnicas como o Cosiplan desarticularam a coordenação intergovernamental em áreas estratégicas, como infraestrutura, energia e logística. Esse enfraquecimento institucional foi acompanhado por forte retração do comércio intrarregional — no caso brasileiro, as exportações para a região caíram cerca de 35% em termos reais entre 2011 e 2025 —, revertendo um ciclo anterior de expansão baseado em maior coordenação política e integração produtiva.
O resultado não é apenas a perda de densidade econômica regional, mas também a substituição de vínculos integradores por estratégias nacionais isoladas e, muitas vezes, concorrentes, com efeitos concretos como menor capacidade de barganha internacional, reforço de especializações primárias e maior isolamento logístico entre países vizinhos.
Esse processo ocorre em paralelo a uma polarização multinível, que atravessa tanto as relações entre países quanto o interior de cada sociedade. A fragmentação não é apenas ideológica, mas institucional: faltam mecanismos de governança capazes de coordenar políticas de longo prazo e mediar conflitos. A infraestrutura deixa de atuar como vetor de integração e passa a reproduzir assimetrias, conectando economias de forma fragmentada e subordinada a interesses externos. Inserida em um cenário global de rivalidade crescente — entre Estados Unidos e China, entre blocos geopolíticos e com instabilidade no Oriente Médio —, a região perde capacidade de inserção soberana justamente quando seus recursos naturais, energéticos e de biodiversidade ganham centralidade estratégica.
O Peru condensa esse quadro de forma exemplar. O país combinou, por quase três décadas, crescimento sustentado pela exportação de minerais com um sistema político frágil e pouco enraizado socialmente. Esse arranjo gerou um paradoxo: estabilidade relativa e expansão econômica convivendo com baixa legitimidade dos governos e elevada volatilidade partidária. A desconexão entre elites políticas e territórios — especialmente nas regiões extrativistas — limitou a formação de bases duradouras. Esse equilíbrio precário foi rompido com a Lava Jato, que desorganizou lideranças e partidos sem produzir um sistema substituto, levando à implosão do ciclo de estabilidade observado entre 2001 e 2016.
Desde então, o Peru opera em crise permanente, com Executivos isolados e um Legislativo fragmentado, incapazes de construir maiorias estáveis. O segundo turno entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez expressa essas clivagens estruturais — territoriais, sociais e institucionais — mais do que uma disputa entre projetos consolidados. Trata-se de um sistema que reproduz ciclos de instabilidade, independentemente do resultado eleitoral, ilustrando como a combinação entre fragmentação política e um modelo econômico pouco integrado territorialmente gera desintegração institucional persistente.
No plano regional, tensões bilaterais evidenciam o uso político de conflitos externos. As fricções entre Equador e Colômbia podem ser interpretadas como provocação do governo Noboa, com objetivos domésticos e impacto sobre o processo eleitoral colombiano. O país se aproxima de uma disputa polarizada após a ascensão de Gustavo Petro. Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico, lidera as pesquisas ao unificar o campo progressista e ampliar apoio entre setores moderados que rejeitam a radicalização do uribismo e sua aproximação com a agenda de Trump. A oposição aparece dividida entre Paloma Valencia, representante do campo tradicional vinculado a Álvaro Uribe, e Abelardo de la Espriella, que ocupa o espaço da extrema direita.
Nesse quadro, a pressão dos Estados Unidos sobre o governo Petro — por meio de ameaças econômicas e acusações diretas — insere-se no ambiente eleitoral, mas não tem fortalecido a oposição. Ao contrário, tende a reforçar a coesão governista e a ampliar a resistência de setores de centro a candidaturas associadas a agendas externas mais agressivas. Assim, a combinação entre polarização interna e pressão externa reorganiza a disputa em torno da rejeição ao radicalismo, consolidando Cepeda como polo de convergência e evidenciando o papel crescente da política externa nas dinâmicas domésticas.
Na Argentina, Javier Milei enfrenta o pior nível de aprovação de seu governo, mesmo com apoio externo recorde de instituições multilaterais, refletindo os custos sociais de um programa baseado em ajuste fiscal acelerado, liberalização econômica e retração do Estado. O núcleo desse desgaste está no aprofundamento do conflito distributivo, com recomposição de preços e cortes de gastos recaindo de forma desproporcional sobre os segmentos de menor renda e setores voltados ao mercado interno. Enquanto grupos financeiros e exportadores se beneficiam, ampliam-se a perda de poder de compra, a precarização e a pressão sobre serviços públicos. Esse descompasso intensifica a polarização e fragiliza a legitimidade do governo.
No Chile, o início do chamado “governo de emergência”, liderado por José Antonio Kast, sinaliza uma inflexão conservadora mais dura. Medidas como o escudo fronteiriço e reformas fiscais regressivas indicam uma agenda de controle territorial e reconfiguração do Estado em favor de segmentos de maior concentração de renda e capital. Embora esses movimentos dialoguem com tendências regionais, a articulação entre governos ocorre de forma mediada por interesses mais amplos, frequentemente alinhados à estratégia política de Donald Trump, que serve de base para iniciativas como o “Escudo das Américas”.
A reunião realizada em 7 de março de 2026, no resort Trump National Doral, em Miami, é particularmente reveladora. Em primeiro lugar, a narrativa de segurança — centrada no combate ao narcotráfico e ao terrorismo, em linha com a doutrina da OEA — retoma padrões históricos de intervenção e legitima a ampliação de mecanismos de controle regional. Esses argumentos vêm sendo mobilizados para ações extremas, como o sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro. Ao mesmo tempo, a composição do encontro — restrita a 12 países alinhados e sem Brasil, México e Colômbia — revela um recorte ideológico e a tentativa de formação de um bloco político subordinado à agenda de Washington.
Em segundo lugar, os objetivos reais apontam para o controle de recursos estratégicos, em que o “narcoterrorismo” funciona como cortina de fumaça para interesses mais amplos. A Amazônia, o Caribe e outras áreas ricas em biodiversidade e energia tornam-se centrais na disputa geopolítica. Essa lógica se expressa em iniciativas como a operação conjunta entre Estados Unidos e Reino Unido que resultou na apropriação de urânio enriquecido da Venezuela no início de maio. Por fim, consolida-se um mecanismo de alinhamento assimétrico, no qual governos trocam apoio externo por fidelidade em agendas sensíveis, aprofundando a dependência regional.
A América do Sul entra em um ciclo eleitoral decisivo, passando por Peru e Colômbia e culminando em outubro no Brasil. Diferentemente de 2018, candidaturas de extrema direita passaram a questionar abertamente princípios como autodeterminação, solução pacífica de conflitos e integração regional. O discurso de lançamento de campanha de Bolsonaro Filho, em Dallas, em inglês, com defesa explícita de intervenção externa, sintetiza esse deslocamento e marca um nível de alinhamento que, em outros momentos históricos, seria inaceitável mesmo no campo conservador.
A atual “baixa temperatura” nas relações entre Brasil e Estados Unidos — especialmente após o encontro deste mês na Casa Branca entre Lula e Donald Trump — deve ser entendida como recuo tático após o auge das tensões de 2025, marcado por tarifaços e aplicação da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras. Esse arrefecimento reflete tanto o interesse estratégico em minerais críticos e outras agendas centrais na disputa entre Estados Unidos e China — como energia, infraestrutura e cadeias de suprimento —, que reconfigura profundamente dinâmicas regionais e padrões de inserção internacional, quanto o reconhecimento de que o Brasil exerce hoje uma política externa relativamente autônoma, impondo limites a formas mais diretas de pressão externa. Com o avanço da polarização, porém, as possibilidades de nova ingerência tendem a crescer. Nesse contexto, a desintegração regional deixa de ser apenas uma condição de fundo e se converte em um risco estratégico imediato, capaz de comprometer de forma duradoura a autonomia e os fundamentos da soberania sul-americana.
Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-desintegracao-regional-da-america-do-sul/

