Fenômeno pode chegar até 2027 e o governo tenta se preparar. Mas impera a lógica reativa – e o negacionismo acossa municípios. Caminho para evitar o ciclo de tragédias anunciadas passa por outros paradigmas de articulação na esfera pública e organização comunitária
Por: Sérgio Botton Barcellos | Crédito Foto: André Ávila/Agência RBS
Das grandes inundações às secas agravadas por ondas de calor extremo, o país inteiro, de norte a sul, está à prova — e as cidades, na maioria dos casos, seguem despreparadas. Mais de 85% dos municípios brasileiros carecem de planos de adaptação climática, revelando a frágil capacidade institucional e legislativa para enfrentar os impactos socioambientais. Apenas cidades mais ricas, e com mais de 500 mil habitantes, formularam políticas sobre o tema. Com base em dados do IBGE (2021), pesquisadores calcularam um índice geral de adaptação urbana a partir de 25 indicadores — habitação, mobilidade, produção de alimentos, gestão ambiental e riscos climáticos. Entre as capitais, a disparidade é expressiva: Curitiba, Brasília e São Paulo lideram; Recife, Boa Vista e Aracaju figuram entre as menos preparadas. Porém, é importante sublinhar, a existência de instrumentos ou políticas públicas não garante eficácia — tampouco dá conta das complexidades e desigualdades territoriais.
Neste cenário, especulação imobiliária e racismo ambiental caminham de mãos dadas. O avanço da financeirização da moradia empurra populações para as bordas das cidades, ocupando áreas de risco. A verticalização, inclusive, agrava ilhas de calor e compromete sistemas de drenagem e o microclima urbano. Sem opção habitacional, essas populações ocupam áreas ambientalmente frágeis — beiras de córregos, mananciais e encostas —, com desmatamento e remoção de vegetação. O Serviço Geológico do Brasil estima que quase 5 milhões de pessoas vivem nessas condições. E cerca de 66% das pessoas que residem em áreas de risco nas cidades brasileiras são negras, de acordo com o relatório “Sem Moradia Digna, Não Há Justiça Climática”, feito pela ONG Habitat — e que cerca de 2,1 milhões de casas foram danificadas por desastres climáticos e 107 mil destruídas entre 2013 e 2022, por desastres ambientais; a maioria chefiadas por mulheres negras.
Discutir o El Niño a partir da sociologia, inclusive do urbanismo, parece pertinente porque suas influências e efeitos não decorrem apenas de alterações climáticas, mas da forma como a sociedade brasileira pode produzir e distribuir recursos, solidariedade, danos ambientais, desigualdades e injustiças. Afinal, o mesmo fenômeno que provocou as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024 — deslocando milhares de pessoas e causando prejuízos bilionários — também contribuiu para secas severas na Amazônia em 2023 e 2024, dificultando ou inviabilizando a navegação fluvial, o abastecimento de comunidades ribeirinhas e o acesso a serviços básicos.
Esses efeitos não podem ser explicados apenas pela climatologia, pois estão relacionados à ocupação de áreas ecologicamente sensíveis, à insuficiência de infraestrutura urbana adequada, ao desmatamento de biomas estratégicos para a regulação do ciclo hidrológico e às desigualdades sociais que determinam quem possui recursos para se proteger e quem permanece mais exposto às mudanças climáticas.
Este breve artigo convida a um diálogo, mostrando como a sociologia permite compreender que enchentes, secas e ondas de calor não são apenas eventos naturais, especialmente nas cidades brasileiras, mas processos sociais e formas de relação da sociedade com a natureza que produzem efeitos sociais. E mais: como os fenômenos naturais trazem à tona as condições (ou a incapacidade) das instituições e políticas públicas, no capitalismo contemporâneo, de responder aos riscos e desastres decorrentes das mudanças climáticas, em grande medida produzidas pelo modelo de desenvolvimento social e econômico vigente. Analisar a possibilidade concreta de ocorrência de um fenômeno climático que, em razão de suas proporções, tem sido chamado de Super El Niño exige ir além das previsões meteorológicas. Implica, sobretudo, compreender por que certos grupos sociais, regiões e comunidades são atingidos de forma tão desproporcional. Mais do que isso: requer investigar de que modo decisões econômicas e políticas, acumuladas ao longo de décadas, transformam os eventos climáticos extremos de hoje em verdadeiras crises sociais de grande impacto na vida de grande parcela da população brasileira.
Compreendendo o Super El Niño
O El Niño é um fenômeno climático decorrente do aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, processo desencadeado pelo enfraquecimento dos ventos alísios e por perturbações na circulação atmosférica conhecida como Célula de Walker. Embora tenha sua origem no Pacífico, seus efeitos estendem-se por vastas regiões do planeta, alterando regimes de temperatura, precipitação e circulação de ventos em diferentes continentes. No Brasil, há contornos regionais bem marcados: na Região Sul, o fenômeno costuma elevar o volume de chuvas e ampliar o risco de enchentes; já no Norte e em partes do Nordeste, favorece a ocorrência de secas prolongadas. Também intensifica ondas de calor em diversas áreas do país.
De acordo com a pesquisadora Luciana Gatti, em entrevista recente, quando esse aquecimento ultrapassa 2°C da média histórica do oceano, o fenômeno passa a ser denominado como “Super El Niño” — uma versão muito mais intensa e rara do evento, capaz de amplificar significativamente seus efeitos sociais, econômicos e ambientais. O El Niño já começou, aponta a Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) — e a Agência Espacial Europeia (ESA) divulgou um vídeo que mostra que este fenômeno poderá receber o superlativo.
Ressalta-se que o El Niño de 2026 não deve ser tratado como um evento cíclico estatisticamente mapeável, mas como uma alteração climática severa catalisada pelo aquecimento global antropogênico. A atual “rampa de aquecimento”, caracterizada pela velocidade sem precedentes na elevação das temperaturas do Oceano Pacífico, indica alterações térmicas entre 2,5°C e 4,0°C. Para a alta gestão, o dado mais crítico transcende a média global: enquanto o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta um aumento médio global de 2,8°C, a inércia térmica e a menor capacidade térmica continental poderiam resultar em um aquecimento real no Brasil de 3,5°C a 4,0°C. Em outras palavras, estamos diante de uma imensa massa de energia que altera a circulação atmosférica de maneira irreversível no curto prazo — e cujos efeitos, tanto em sua magnitude quanto em seus desdobramentos sociais, não podem ser comparados com fenômenos anteriores.
Em um contexto de aquecimento global provocado pelas atividades humanas, os efeitos do Super El Niño tornam-se ainda mais alarmantes, pois incidem sobre um planeta já mais quente, potencializando sua frequência e intensidade — o que se traduz em enchentes, secas, incêndios florestais, crises hídricas, perdas agrícolas e problemas de saúde pública.
De acordo com o pesquisador Luiz Marques, em entrevista recente, o problema não reside apenas no fenômeno climático em si, mas no fato de que ele ocorre em um planeta já aquecido pela acumulação de gases de efeito estufa. Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelas atividades humanas, funcionando como uma espécie de reservatório térmico que potencializa os efeitos do El Niño. Outro pesquisador, George Monbiot, em artigo recente, critica o que denomina de uma racionalidade econômica incapaz de reconhecer os limites biofísicos da Terra ao tratar cenários de aquecimento global em termos de perdas econômicas graduais, e descartando a possibilidade de pontos de inflexão climática, como a savanização da Amazônia ou alterações na Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC). Em síntese, o Super El Niño evidencia aquilo que a sociologia ambiental, em diálogo com a ecologia política, vem argumentando há décadas: os eventos climáticos extremos não podem ser dissociados dos modelos de desenvolvimento social e econômico vigentes, das emissões de gases de efeito estufa e das escolhas políticas assumidas por governos ao redor do mundo — sobretudo os do Norte global, cuja trajetória histórica de industrialização e consumo aprofunda desmedidamente a crise climática planetária.
Como argumenta Ulrich Beck, os riscos ambientais na atualidade são produzidos pela própria modernização, fruto da ação humana ao longo dos últimos séculos. Contudo, autores da ecologia política, como Enrique Leff, Vandana Shiva e Rob Nixon, mostram que seus efeitos não atingem todos os grupos da mesma forma, mas tendem a recair desproporcionalmente sobre populações historicamente marginalizadas. O conceito de justiça ambiental, formulado por Robert Bullard, evidencia que comunidades pobres e populações negras costumam estar mais expostas a enchentes, secas, contaminações, desastres e outros riscos socioambientais, ao mesmo tempo em que dispõem de menor acesso aos recursos necessários para proteção e adaptação.
No Brasil, há uma distribuição desigual dos danos ecológicos segundo critérios de classe, raça e território, como apontam os pesquisadores Carlos Walter Porto-Gonçalves e Henri Acselrad. Assim, quando um Super El Niño provoca enchentes no Sul brasileiro, secas na Amazônia ou crises hídricas no Semiárido, não está em jogo apenas a intensidade das mudanças climáticas, mas também a exposição das consequências de décadas de urbanização desigual, concentração fundiária, desmatamento, ausência de planejamento territorial e exclusão social. Sob essa perspectiva, os eventos climáticos extremos tornam visíveis processos de racismo ambiental pelos quais determinados grupos sociais são sistematicamente mais vulneráveis aos riscos climáticos e, ao mesmo tempo, menos contemplados por políticas públicas de prevenção, mitigação, reconstrução e adaptação.
As pedras no meio do caminho
A realidade chocante de que 85% dos municípios brasileiros sequer possuem planos de adaptação climática — como já mencionado — não é fruto do acaso nem da falta de informação. É, antes, o resultado de três fatores estruturais que paralisam a criação e a implantação de políticas públicas na área.
O primeiro é o orçamento público destinado à mitigação dos impactos socioambientais. Foram criados o Fundo Clima (BNDES), a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (Ministério da Fazenda) e a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC). Mas é necessário atenção: o Brasil ainda investe relativamente pouco em clima. O gasto climático representou apenas 0,23% do PIB em 2023 e 0,35% do PIB em 2024 (cerca de 150,7 bilhões); cresceu, claro, mas os valores são considerados modestos diante da magnitude dos riscos climáticos enfrentados pelo país. E, se pensarmos somente sob uma lógica economicista, destaca-se ainda que o Brasil perdeu cerca de R$110 bilhões por ano (entre 2000-2023) do PIB devido a eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas, de acordo com o Relatório “Impactos econômicos de eventos extremos no Brasil e o custo das mudanças climáticas” do Centro Celso Furtado.
O segundo é a desarticulação do Estado brasileiro. A adaptação climática deveria se tornar uma das dimensões centrais da gestão pública no Brasil e no mundo. Entretanto, nenhuma dessas medidas terá efetividade se o país não conseguir, de fato, operacionalizar seu pacto federativo e superar a cultura política de tomada de decisão baseada no Modelo da Lata de Lixo (Garbage can) — ou seja, soluções já prontas em busca de desafios para justificar ações, com a participação dos atores estatais e da sociedade inconstante e, claro, sem um plano claro e concreto; ou seja: ao final, todas as nuances estratégicas acabam jogadas num mesmo recipiente, de forma desorganizada. Isto caracteriza, historicamente, grande parte da gestão pública nacional. A emergência climática exige políticas de Estado com coordenação permanente entre União, estados e municípios, compartilhamento sistemático de informações e definição clara de responsabilidades — inclusive de atos de improbidade administrativa. Nesse sentido, cabe uma pergunta incômoda, mas necessária: quantos(as) candidatos(as) incluem, de fato, a adaptação climática e as políticas ambientais como prioridade em seus planos de governo e de legislatura?
O terceiro fator — talvez o mais perverso de todos — é o negacionismo climático que, sobretudo a partir do governo Bolsonaro, tomou conta do Estado brasileiro e segue entranhado em várias prefeituras e governos estaduais. Como demonstram Naomi Oreskes e Erik M. Conway, no livro Mercadores da Dúvida, a produção organizada da dúvida científica atende frequentemente a interesses econômicos e políticos que buscam evitar regulações ambientais e favorecer modelos de desenvolvimento predatórios e intensivos em emissões de carbono, deslocando o debate público da adaptação e da mitigação para falsas polêmicas e controvérsias em torno da própria existência da crise climática. Os efeitos do negacionismo, portanto, vão além da esfera discursiva, produzindo consequências concretas sobre políticas públicas e capacidades institucionais. Ao enfraquecer a legitimidade da ciência e relativizar os impactos do desmatamento, da destruição de ecossistemas e da expansão desordenada das cidades, ele reduz a pressão por investimentos em prevenção, infraestrutura resiliente, monitoramento ambiental e proteção das populações historicamente mais expostas a riscos climáticos: comunidades pobres, periféricas, indígenas, quilombolas
E as políticas públicas?
Esta questão é tão complexa quanto urgente — e deve enfrentar estes fatores estruturais que emperram a justiça socioclimática. Mas há, antes de tudo, um aspecto central que não pode ser negligenciado: o governo federal, na gestão de Lula 3, precisa superar a lógica reativa que, historicamente, marca a gestão dos desastres ambientais no Brasil e assumir, de fato, uma política nacional de adaptação climática baseada no planejamento de longo prazo, na coordenação federativa e na justiça ambiental. Isso implicaria fortalecer efetivamente as instituições científicas e os sistemas de monitoramento climático; ampliar investimentos em infraestrutura resiliente; recuperar biomas estratégicos como a Amazônia e o Cerrado; seguir combatendo o desmatamento e as queimadas ilegais; e, por mais que pareça utópico, integrar as políticas ambiental, agrícola, energética, urbana e de desenvolvimento regional. Isto, claro, implica orçamento público, mas também horizontes políticos…
Recentemente, o governo federal anunciou a criação de uma sala de situação e de um grupo permanente de especialistas com a missão de acompanhar semanalmente a evolução do El Niño e seus potenciais impactos sobre o território nacional. A iniciativa reúne representantes do Ministério do Meio Ambiente, do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de universidades e de outros órgãos federais. O objetivo é integrar informações científicas, elaborar cenários de risco e articular ações preventivas junto a estados e municípios. Também foi retomada a Sala de Situação sobre Incêndios Florestais — movimento que, ainda que em ano eleitoral e a meses da possível ocorrência do Super El Niño, sinaliza uma tentativa de superar a lógica reativa de sempre. Após ter destinado cerca de R$ 60 bilhões em resposta à catástrofe climática no Rio Grande do Sul, não seria hora de ações preventivas e mais estruturais?
Ao nível regional, enfrentar o Super El Niño não exigiria, necessariamente, uma agenda super. Seria necessário ampliar os mecanismos de proteção social capazes de reduzir a vulnerabilidade das populações expostas a secas, enchentes e ondas de calor, reconhecendo que a crise climática tende a aprofundar desigualdades históricas. Tudo isto baseado numa política de segurança nacional — afinal, os impactos do que se anuncia podem comprometer a produção de alimentos, o abastecimento de água, a geração de energia e a própria estabilidade econômica do país. Nesse sentido, a heterogeneidade do território brasileiro demanda uma análise de riscos que, embora integrada, seja necessariamente diferenciada por região, uma vez que os ativos de infraestrutura serão submetidos a extremos opostos de estresse hídrico e térmico.
Novamente, o Rio Grande do Sul é ilustrativo: embora o estado tenha acumulado experiência significativa com o desastre de 2024, quando registrou precipitações de 600 mm em 24 horas (uma chuva forte numa grande cidade fica entre 50 e 120 mm no mesmo intervalo de tempo), as projeções para o próximo trimestre de 2026 concentram os principais riscos agora no Paraná. Nesse contexto, os governos estaduais ocupam uma posição estratégica, uma vez que são responsáveis por articular as diretrizes nacionais às realidades territoriais regionais. Caberia a eles, portanto, desenvolver sistemas permanentes de gestão de riscos climáticos e realizar investimentos maciços em educação ambiental, no fortalecimento das Defesas Civis, nos órgãos ambientais e em redes de monitoramento hidrometeorológico.
Ao mesmo tempo, os estados precisam investir na adaptação de setores sensíveis, como agricultura, recursos hídricos, saúde pública e infraestrutura logística. No Sul, por exemplo, isso significaria ampliar a capacidade de prevenção e contenção de enchentes e, especialmente, fortalecer o sistema de saneamento; no Norte e no Nordeste, consolidar políticas de convivência com a seca e proteger as bacias hidrográficas; e, em todo o território nacional, expandir programas de restauração ecológica e prevenção de incêndios florestais. Mais do que responder a emergências — ainda que isso pareça evidente — os estados precisariam incorporar a variável climática em seus planos de desenvolvimento, reconhecendo que eventos extremos deixarão de ser exceções para se tornar cada vez mais frequentes na vida social, econômica e política brasileira.
Os governos municipais, por sua vez, constituem — em tese — a linha de frente da adaptação climática. Para exercerem efetivamente esse papel, seria necessário revisar os modelos de gestão urbana, restringir a ocupação de áreas sujeitas a enchentes e deslizamentos, ampliar investimentos em drenagem, saneamento e infraestrutura verde, além de fortalecer sistemas locais de alerta e resposta rápida. Além disso, seria preciso preparar os serviços de saúde para atender ao aumento de doenças associadas a ondas de calor, à poluição atmosférica e à proliferação de vetores. Num cenário de intensificação dos eventos climáticos extremos, a capacidade dos municípios de planejar o território, proteger populações vulneráveis e construir cidades mais resilientes será decisiva para reduzir perdas humanas, sociais e econômicas.
Cabe lembrar que as mudanças climáticas são consideradas também um grande risco à soberania nacional no século XXI. De acordo com Paulo Artacho (IPCC/USP), em entrevista recente, a elevação da temperatura entre 2,8°C e 4°C não é apenas uma métrica climática e ambiental — pode se tornar um gatilho de instabilidade social e econômica. A possível inação dos governos diante desse cenário afetará, ao menos, dois pilares críticos da economia capitalista no Brasil: o agronegócio, dependente da estabilidade pluviométrica, e a segurança energética, ancorada na hidrografia. Para além disso, o país poderá enfrentar uma crise demográfica com a emergência de refugiados climáticos internos, especialmente diante da desertificação da bacia do Rio São Francisco e da transformação do Semiárido nordestino em uma zona árida inabitável. Esta tragédia se intensifica no planeta: são 123 milhões de deslocados à força no mundo, 90 milhões vivem em países com alto ou extremo risco climático — um aumento de 5 milhões apenas entre 2023 e 2024, segundo o relatório “Sem escapatória: na linha de frente das mudanças climáticas, conflitos e deslocamento forçado”.
Ou seja: sem comprometimento administrativo para antecipar riscos, planejamento continuado, políticas públicas orientadas por evidências e cooperação federativa efetiva, permaneceremos presos a um ciclo recorrente de tragédias anunciadas, reconstruções custosas e ampliação das desigualdades sociais e das injustiças ambientais.
O que o povo pode fazer?
Preparar-se para um possível Super El Niño não é alarmismo. Por isso, o alerta para 2026 e parte de 2027 (até julho) deve ser compreendido como uma oportunidade de antecipação e planejamento, ainda que sem suporte do poder público. Mesmo que os cenários mais severos não se confirmem a partir de julho próximo, sobretudo a partir de novembro, os investimentos que serão feitos em prevenção, monitoramento e adaptação não fortalecerão efetivamente a capacidade da sociedade de enfrentar possibilidades de secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos que farão parte da realidade climática brasileira.
A crise climática não será enfrentada e nem superada apenas pelo tecnicismo, é importante sublinhar. Novas tecnologias ou obras de infraestrutura são limitadas diante da força da natureza. É preciso uma educação socioambiental nas cidades, a partir da solidariedade e construção de laços comunitários robustos — e que, diante da negligência de gestões públicas, hoje é encampada principalmente pelos movimentos sociais. Isso significa acompanhar informações de fontes públicas com base em dados, divulgação científica promovida por universidades nos territórios, conhecer os riscos específicos da região onde se vive — e até elaborar planos familiares de emergência, como rotas de evacuação, contatos de emergência, guardar documentos importantes e ter estoques básicos de água, alimentos e medicamentos. Em um país marcado por profundas desigualdades, a resiliência climática dependerá tanto da preparação material quanto da capacidade de construir formas de proteção social e cooperação entre as comunidades e as instituições. O trabalho é árduo: afinal, apenas 6 em cada 10 brasileiros associam as mudanças climáticas à ação humana — ainda que 9 em cada 10 já tenham sentido seus efeitos no dia a dia, como chuvas torrenciais, ondas de calor, alta nos alimentos e na energia. A desinformação climática é alarmante: a conta chega para todos, mas as causas seguem obscuras para muitos.
Nos municípios, especialmente em cidades sujeitas a enchentes, deslizamentos e ilhas de calor, são fundamentais ações para evitar a ocupação de áreas de risco e cobrar dos governos investimentos em drenagem urbana, saneamento básico, contenção de encostas, recuperação de áreas degradadas e prevenção de desastres. Contudo, o problema não se resume à localização das moradias. As vulnerabilidades climáticas são produzidas por modelos de urbanização marcados pela desigualdade social, pela especulação imobiliária, pela impermeabilização excessiva do solo, pela supressão da vegetação e pela ausência de planejamento territorial de longo prazo. Em muitas cidades brasileiras, populações de baixa renda tendem a ser empurradas para encostas, margens de rios e áreas ambientalmente frágeis, enquanto os setores mais valorizados concentram infraestrutura e proteção. Enfrentar os impactos das mudanças climáticas exigiria repensar o próprio modelo de desenvolvimento urbano, ampliando investimentos em habitação social com localização apropriada, infraestrutura verde, parques urbanos, corredores ecológicos, renaturalização de rios, sistemas sustentáveis de drenagem e ampliação massiva da arborização. Também será cada vez mais importante adaptar residências às novas condições climáticas, com sistemas de captação e drenagem de água da chuva, melhoria da ventilação dos imóveis, utilização de materiais mais adequados ao conforto térmico e outras medidas voltadas ao enfrentamento dos períodos de calor extremo.
Nas regiões rurais, agricultores e comunidades tradicionais precisam investir em diversificação produtiva, armazenamento de água, recuperação de solos, sistemas agroflorestais e práticas ecológicas que aumentem a resistência às secas e às irregularidades climáticas. Essa adaptação torna-se ainda mais necessária diante dos impactos associados à expansão de monoculturas intensivas, que frequentemente reduzem a biodiversidade, ampliam o desgaste dos solos e tendem a aumentar a vulnerabilidade dos territórios aos eventos climáticos extremos.
A experiência internacional demonstra que comunidades organizadas respondem melhor às crises socioambientais. Associações de bairro, cooperativas, organizações comunitárias, universidades, sindicatos e movimentos sociais podem desempenhar papel fundamental na disseminação de informações, na construção de redes de solidariedade e na pressão por políticas públicas adequadas às mudanças climáticas.
Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/outras-cidades/super-el-nino-as-cidades-estao-preparadas/

