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Dowbor: Pós-capitalismo e os limites da Razão

Num parêntese em suas reflexões sobre o esgotamento do sistema e as saídas, o economista indaga: como superar o desejo, tão humano, de acomodação ao que está posto? Em busca de respostas, ele invoca, entre outras, Hannah Arendt

Por Ladislau Dowbor

OS LIMITES DA RACIONALIDADE: AFINAL, O QUE SOMOS?

Ainda que se abram imensas oportunidades com a sociedade do conhecimento, a economia imaterial e a conectividade planetária,na realidade, tudo dependerá da nossa capacidade de aproveitá-las. Independentemente das análises sobre classes sociais, organizações de trabalhadores ou partidos políticos, ou ainda da possibilidade de criarmos uma mídia democrática, coloca-se com força hoje a necessidade de compreender com mais realismo o que somos como pessoas, como seres humanos. Estou indo além da economia, extrapolando, por assim dizer, a minha expertise? Sem dúvida, e é o que os economistas sempre fizeram ao apoiarem, por exemplo, todo o edifício da teoria econômica herdado dos últimos séculos, fundado em uma imensa simplificação psicológica. Para que as equações fizessem sentido, era preciso imaginar que o ser humano maximizava racionalmente as suas vantagens, tornando-o cientificamente previsível e possibilitando apresentar a economia como ciência. Isso, obviamente, é uma monumental bobagem. Desenvolvemos construções científicas sofisticadas apoiadas numa premissa falsa. Uma leva de estudos recentes demonstra claramente que se trata, na expressão de Michael Hudson, de junk economics. Gostamos naturalmente de nos considerar racionais, somos superiores aos animais com os seus instintos e capazes de construir racionalmente o nosso futuro. Aqui há claramente um imenso wishful thinking, uma ilusão sobre o que somos. É tão gratificante nos sentirmos superiores. Aliás, procuramos sempre justificativas racionais para as nossas crenças ou ações, por absurdas que sejam. O conceito de racionalização resume bem essa construção precária em torno de opções que de racionais têm muito pouco.

Os nazistas estavam aperfeiçoando a raça superior, os carrascos da Ku Klux Klan estavam limpando o país e protegendo donzelas brancas, as ditaduras latino-americanas estavam nos protegendo do comunismo, a invasão do Iraque nos protegeria das armas de destruição em massa, o golpe de 2016 no Brasil foi para restabelecer o equilíbrio econômico e para combater a corrupção, Lula foi preso porque roubou e assim por diante. Hoje as racionalizações são construídas em escala industrial por empresas especializadas em marketing político, com o apoio de think tanks, de setores da academia e, evidentemente, da imensa máquina de comunicação articulada com as plataformas de informação individualmente direcionadas. A realidade foi substituída pelas narrativas. Qualquer semelhança com racionalidade é mera coincidência, ou uma construção a posteriori.

Essa dimensão dos nossos comportamentos é essencial para entendermos a nossa imensa dificuldade em construir uma sociedade que funcione. Em outros termos, uma coisa é analisarmos as dinâmicas de poder e as dificuldades estruturais para melhorarmos a sociedade, por exemplo o fato de que a economia se globalizou enquanto os governos são nacionais, ou ainda o fato de que as tecnologias avançam muito mais rapidamente do que a nossa capacidade de gerar instrumentos de governança. Outra coisa é pensarmos a que ponto a nossa própria irracionalidade, como seres humanos, torna difícil a construção de uma sociedade que funcione. Já pararam para pensar no imenso absurdo que são as guerras e os massacres por motivos ridículos, século atrás de século? Claramente, a nossa classificação como Homo sapiens constitui um forte exagero. Como funciona o Homo realmente existente?

O PRIMATA DENTRO DE NÓS

Não há como não considerar barbárie, nesta era de grande riqueza planetária, deixarmos morrer cerca de 6 milhões de crianças, todos os anos, por falta de acesso à comida ou à água limpa: sabemos onde essas crianças estão, temos os recursos e o conhecimento de que custa muito menos remediar a situação do que arcar com as consequências; no entanto, pouco ou nada fazemos. A comoção mundial com o resgate de 12 crianças de uma caverna na Tailândia mostra que podemos nos sentir solidários, mas é impossível não pensar que, diariamente, morrem 15 mil crianças por falta de alimento, um problema cuja solução não custaria quase nada e permitiria que se tornassem pessoas produtivas. É o espetáculo que comove? Como podemos manter 850 milhões de desnutridos, cifra que voltou a crescer, quando não só produzimos alimentos em excesso mas os desperdiçamos de maneira absurda? Como podemos assistir impotentes às famílias que se afogam no Mediterrâneo, à destruição ambiental, às fraudes generalizadas praticadas por corporações ou governos equipados com as mais avançadas tecnologias, manejadas por pessoas com formação superior e ampla cultura geral? Podemos nos dotar de fantásticos avanços tecnológicos para alcançar os nossos fins, mas os próprios fins estão profundamente enraizados nas águas turvas dos nossos instintos, preconceitos, ódios, ainda que frequentemente aflorem surtos de emocionante generosidade.

É muito impressionante a sofisticação técnica do software elaborado pela Volkswagen para fraudar a verificação de emissões de partículas pelos seus veículos, programa desenvolvido por pessoas que sabiam perfeitamente que 7 milhões morrem anualmente por causas relacionadas à poluição, em particular, crianças e idosos. A fraude foi montada em paralelo com grandes campanhas publicitárias incitando as pessoas a preferir esses carros por serem ambientalmente mais limpos. Que tipo de gente trambica informações sobre remédios ou agrotóxicos, mas dorme em paz com a sua família? A mídia comercial, sem dúvida, nos faz de palhaços, mas o que impressiona mesmo é a nossa facilidade de acreditar em argumentos completamente idiotas, quando, por outro lado, somos capazes de tantas proezas criativas. Quando Jessé Souza fala da imbecilidade das nossas elites, não se refere à sua falta de inteligência, e sim à imbecilidade de como a usam. E, francamente, a facilidade com a qual absorvemos como verdade os contos de fadas mais absurdos que nos empurram é impressionante.

Parece que andamos esquecidos das nossas origens. Somos essencialmente primatas. Primatas inteligentes, sem dúvida, mas uma coisa é constatar a inteligência, outra é avaliar como a utilizamos. E aí vamos para a profundidade das emoções, dos instintos, das nossas raízes primitivas. Não necessariamente para o mal, obviamente, tanto que temos poderosos instintos que nos levam a colaborar, a manter relações amorosas, a defender a justiça. Mas também para o mal, e aí estão as guerras, a mesquinhez, a violência absurda, a destruição do meio ambiente e as fraudes generalizadas. Como o Homo sapiens pode cair tão baixo?

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