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Edgar Morin, cem anos de audácia intelectual

Ele desafiou como ninguém o pensamento cartesiano, compartimentado e incapaz de ir além do racional. Mas não se limitou à crítica. Buscou na complexidade uma trilha para compreender o que parece imponderável. Breve roteiro para compreender suas ideias

Por: Antônio Sales Rios Neto | Crédito Foto: Outras Palavras

O óbvio é fácil,
o que não é óbvio é para Prêmios Nobel
e o profundo é complexo”
Mitchell Feigenbaum

O pensamento crítico e, sobretudo, desvelador da conflituosa condição humana, perdeu, em 29 de maio, um dos seus mais importantes formuladores. Deixou-nos, bem próximo de completar 105 anos, o genial antropólogo, sociólogo, filósofo e historiador francês Edgar Morin, o pensador da Complexidade. Sua ausência será sentida, num tempo de avanço avassalador da distopia tecnocapitalista globalizada, comprometedora da sobrevivência da humanidade, com inédito poder de destruição social e ambiental. Para mantermos vivo seu legado extraordinário – por uma “reforma do pensamento”, como ele mesmo costumava alertar – resgato algumas reflexões sobre a vida, a obra e as ideias desse admirável pensador. Ele tem sido, aliás, uma das importantes referências do jornalismo “que não cabe no óbvio” oferecido pelo Outras Palavras, que busca o premente aprofundamento nessa complexidade do real.

A perspectiva inaudita de uma extinção precoce da espécie humana, em decorrência de suas próprias ações, será um dos principais estigmas que deve assombrar a humanidade nas próximas décadas. É o que vêm apontando os especialistas que investigam o acelerado processo de colapso climático e os que acompanham a conturbada geopolítica contemporânea, Inauguramos, como bem identificou o próprio Morin, o tempo da policrise terminal (Terre-Patrie, com Anne Brigitte Kern, 1993), que nasce sob o signo de uma agudização do processo de destruição dos ecossistemas e de deterioração das relações entre nações, povos e suas culturas. Está em acelerado curso, nesta época chamada Antropoceno. Nela, os humanos alcançaram, por meio da hegemonia capitalista globalizada – predatória, excludente e beligerante –, o estágio mais avançado do seu ímpeto de dominação e subordinação da natureza e, por consequência, de pulsão de morte e de autoaniquilação.

O trágico século XX foi marcado pelas guerras e pelos totalitarismos desencadeados no seio dos dois principais projetos civilizatórios fracassados – o capitalismo e o “socialismo real” –, os quais rivalizaram ao longo do período em que a humanidade vivenciou os maiores horrores contra a condição humana. Estima-se pelo menos 187 milhões de vidas foram dizimadas (segundo o cientista político Zbigniew Brzezinski, em sua obra Out of control: global turmoil on the eve of the 21st century, de 1993, mencionada por Eric Hobsbawm em A era dos extremos: o breve século XX, 1994) por deliberações humanas, o equivalente a algo em torno de 12% da população mundial em 1900. Neste instável início do século XXI, a humanidade insiste em continuar na rota ecocida do sistema-mundo capitalista. Adegradação ambiental em escala planetária, combinada ao crescente declínio das democracias e aos “avanços” da algoritmização da vida constituem os dois principais motores da regressão e da barbárie civilizatória que se anunciam. São ambos patrocinados pela globalização insana de uma visão tecnomercadológica de mundo,.

Como compreender as forças que nos arrastaram para um modo de viver tão incongruente com a natureza? Como se contrapor a uma insociabilidade capitalista tão dissonante das dinâmicas que sustentam a teia de vida do nosso planeta, e que está nos empurrando para uma realidade tão distópica e insustentável? Como entender e resistir a um comportamento humano tão esquizofrênico, conflituoso e, no limite, ecocida?

É preciso pensar o mundo a partir da sua complexidade

Uma das respostas a essas grandes indagações do nosso tempo está na trajetória de vida de um dos mais prodigiosos pensadores contemporâneos, que alcançou mais de um século de insurgência contra um modo de viver de viés unidimensional, fragmentado, controlador e, portanto, desconectado da complexidade do mundo real. Assim era Edgar Morin, que, mesmo centenário, conseguiu manter a lucidez e capacidade de compreender e lidar com as realidades precárias que vivenciou desde os tenebrosos anos 1920 — incluindo-se as adversidades pessoais. Como ele mesmo sempre gostou de mencionar, uma vida inspirada pelos versos do poeta espanhol Antonio Machado: “Caminhante, não há o caminho. O caminho se faz ao andar, ao andar se faz o caminho”.

O sociólogo francês Alain Touraine chamou-o de “humanista planetário”. Morin transitou pela sociologia, filosofia, antropologia, biologia e muitas outras áreas do saber, sempre buscando as conexões (invisíveis aos olhos da racionalização disjuntiva, que tudo separa) entre as diversas ilhas de conhecimento. Integrou-as a partir de um “pensamento do contexto e do complexo”, capaz de dar melhor entendimento às contradições da condição humana e de sua cada vez mais desajustada interação com a realidade complexa que a cerca e desafia permanentemente.

Desde cedo, Morin começou a perceber que a realidade não poderia ser reduzida às noções de ordem, certeza, separação e causalidade linear – atributos considerados alicerces dos ideais iluministas da modernidade, ainda muito dominantes na contemporaneidade. Para ele, a busca da compreensão do real está nas incessantes interações e retrointerações entre uma infinidade de componentes que o integram. Isto é, a realidade é mais bem compreendida pelo entrelaçamento de atributos como incerteza, desordem e acaso.

Por isso, o estranho mundo real, em sua visão, comporta riscos constantes de erros e ilusões, face à aleatoriedade que o permeia. “A complexidade”, afirma Morin, “é o desafio, não a resposta”. Diferentemente das visões de mundo que moldaram a experiência humana no passado e que ainda a moldam no presente, a complexidade (a origem do termo complexo vem do latim complexus, que significa “o que é tecido junto”) nos remete a uma visão de mundo aberta, plural e incerta. Ela procura acolher, desmistificar e conciliar as inúmeras “verdades” que tentam decifrar a realidade. Reconhece que tais “verdades” são fluídas e temporárias, pois resultam de um oceano de relações e de incessantes interações que integram o real. Por isso, lidar com o real é estar em permanente processo de descoberta, desconstrução e reconstrução, em um constante diálogo com a realidade, cujos principais atributos parecem mais próximos da ideia de aleatoriedade, diversidade, ambiguidade, pluralidade, instabilidade, multiplicidade, imprevisibilidade e incerteza.

Uma vida desafiada pelo imponderável

Sua própria experiência de vida, intelectual, política e pessoal, o levou a essa percepção de um real imponderável. Morin já chega ao mundo, em 8 de julho de 1921, tendo seu primeiro contato com o imprevisível. Segundo ele, “o parto foi um momento trágico, no sentido de que a vida de minha mãe necessitava da minha morte e minha vida devia provocar sua própria morte. Minha mãe sobreviveu à expulsão, mas eu nasci quase morto, estrangulado pelo cordão umbilical.” A mãe, Luna Beressi, uma judia sefaradita, sofria, em razão da gripe espanhola, de uma grave doença cardíaca, o que a desaconselhava ter filhos. Beressi, com quem Morin estabeleceu uma ligação maternal muito forte, faleceu 10 anos depois, o segundo imprevisível devastador na vida de Morin, que lhe provocou “uma Hiroshima interior”.

A partir daí, Morin entra num processo de imersão pessoal, buscando refúgio na literatura e no cinema, principais influências na sua formação. “A literatura, assim como o cinema”, em sua ideia de mundo, “quando bem concebidos, representam uma aprendizagem da compreensão humana (…) Entendemos o próximo muito melhor do que na vida real, e é esta compreensão que é preciso inserir na realidade”.

Sua adolescência foi marcada pelas turbulências da Europa dos anos 1930, que se afundou em regimes ditatoriais implacáveis e sanguinários. Em 1940, antes de os nazistas chegarem à França, Morin, com apenas 19 anos e já sem a proteção do seu pai – Vidal Nahoum, também judeu sefaradita, que havia sido convocado para guerra –, resolve assumir sua liberdade. Pega um trem e vai se refugiar em Toulouse, onde consegue continuar seus estudos. Poucos anos depois, em 1942, para escapar da ocupação das tropas nazistas, foge para Lyon. “Conquistei minha liberdade”, diz ele, “contraditoriamente, quando a França perdeu a sua”.

Após a guerra, em 1945, voluntaria-se para ajudar na reconstrução da Europa e é nomeado oficial do exército francês de ocupação para trabalhar numa Alemanha devastada. Lá, escreve seu primeiro livro, O ano zero da Alemanha (L’An zéro de l’Allemagne. Paris, França: La Cité universelle, 1946.). Nessa obra, registra suas primeiras percepções acerca da complexidade do real. Mergulha nas contradições da condição humana ao refletir sobre a trágica experiência do povo alemão na guerra. Como uma sociedade que produziu mentes notáveis como Hegel, Marx, Brecht, Kant, Beethoven e tantos outros foi capaz de se deixar levar pelo devaneio nazista? “Perplexo, olhando aquele país destruído”, reflete: “me perguntava como era possível que aquela nação, que abrigou a mais rica filosofia, a mais bela música, uma cultura extraordinária, tenha sucumbido ao nazismo.”

Outros momentos marcantes de sua vida podem ser consultados no sítio eletrônico produzido pelo SESC-SP (acesso em edgarmorin.sescsp.org.br), que reúne o melhor acervo digital disponível no Brasil, sobre a vida, a obra e a visão de mundo desse extraordinário pensador.

A cegueira do Ocidente diante da complexidade do real

Todas essas experiências intensas parecem ter ajudado Morin a desenvolver suas múltiplas capacidades de compreensão do real, para além do que a visão de mundo hegemônica sempre impôs em cada momento histórico. Para ele não há como observar e compreender o real sem que haja uma religação das muitas disciplinas e saberes que foram apartados pelo “grande paradigma do Ocidente”, concebido por Descartes e irradiado para o mundo dentro do processo histórico de dominação eurocêntrica, a partir do século XVII. Sua principal proposta para melhorarmos nossa percepção do real está no “pensamento complexo”, que procura compreender que os fenômenos da Natureza (incluindo a humana) não podem ser traduzidos pelas dualidades cartesianas, tais como ordem/desordem, sujeito/objeto, alma/corpo, espírito/matéria, qualidade/quantidade, emoção/razão, liberdade/determinismo, dentre muitas outras. Na visão complexa de mundo elaborada por Morin, todas essas dicotomias não são atributos da realidade tão separados e excludentes como imagina a visão de mundo cartesiana por trás do ideário tecnoeconomicista atualmente hegemônico.

Sua postura torna-se cada vez mais rebelde diante de uma academia produtora de conhecimentos estanques, compartimentalizados e, consequentemente, reprodutora de mentes embotadas para o real, acomodadas num “conformismo cognitivo”. Por isso sua preocupação com a pertinência do conhecimento gerado pela academia. Para Morin, “o parcelamento e a compartimentalização dos saberes impedem de aprender ‘o que está tecido junto’”. Contrariando a primazia da objetividade e da razão, Morin resolve transgredir o modo de fazer Ciência e opta por compreender o real a partir de novos métodos de cognição.

Um desses métodos, por exemplo, é o que adota o princípio dialógico, conforme ele mesmo expressa neste depoimento sobre suas primeiras pesquisas sociais: “quando se deseja estudar uma comunidade, seres humanos, devemos, evidentemente, ser 100% objetivos, procurar considerar os fatos, os dados assim como se apresentam. Ao mesmo tempo, era preciso ser 100% subjetivo, quer dizer participar, comunicar, amar as pessoas. Ou seja, é preciso utilizar inteiramente a objetividade e a subjetividade, apesar de que a subjetividade era considerada pela maioria dos sociólogos como sendo algo negativo.” Para Morin, os supostos antagonismos que integram a realidade não são mutuamente excludentes como pensa a visão binária de mundo ainda predominante. Eles são, simultaneamente, concorrentes e complementares, razão pela qual precisamos saber abracá-los para compreendermos e lidarmos melhor com o real.

Foi graças ao trabalho de Morin que muitos autores de diversas áreas do conhecimento passaram a desenvolver novos métodos de cognição e investigação dos problemas que se colocam diante da experiência humana. A partir desse novo olhar, que considera que o real é “tecido junto”, novos pressupostos para colocar o pensamento complexo em prática já estão sendo adotados. Daí surgiu, como uma das estratégias para abordarmos melhor os desafios contemporâneos, a aplicação dos chamados operadores cognitivos do pensamento complexo, também chamados de operadores de religação. São eles: circularidade, autoprodução/auto-organização, operador dialógico, operador hologramático, integração sujeito-objeto e ecologia da ação.

Para quem deseja aprofundar-se na gigantesca obra de Morin, que compreende mais de 100 livros (incluindo-se as muitas parcerias que fez com diversos autores), e nas suas formulações sobre a teia de relações que integram o mundo real, os seis volumes de O Método (A natureza da natureza, 1977; A vida da vida, 1980; O conhecimento do conhecimento, 1986; As ideias, 1991; A humanidade da humanidade, 2001; Ética, 2004), contendo mais de 2.500 páginas, sistematizam e explicitam uma epistemologia do pensamento complexo. Nessa obra, Morin oferece muitos elementos para quem deseja uma melhor compreensão das muitas nuances implícitas nas concepções sobre a vida, a condição humana, o nosso destino, e propõe uma ética de religação que nos permita uma melhor conexão com a complexidade do mundo real e com a construção de um futuro possível, de modo a evitar o abismo para o qual estamos caminhando.

Destaco também mais dois livros de Morin, um voltado para a educação e outro para a política, que me parecem centrais para o entendimento da necessidade de mudança para uma nova sociabilidade, fora da lógica do mercado, que os nossos tempos reclamam. O primeiro é o ensaio Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (Cortez – UNESCO/ONU Brasil, 2000), que convida o atual sistema educacional, aprisionado pela lógica do produtivismo do mercado, que opera a partir de fundamentos meramente utilitaristas e só reforça ainda mais a exacerbação do individualismo, a rever seus pressupostos e a buscar uma educação emancipadora de sujeitos, mais centrada no desenvolvimento da compreensão da condição humana e da necessidade de uma cidadania planetária, que nos permita lidar melhor com as múltiplas crises da atualidade. O segundo trata-se do livro Rumo ao Abismo? – Ensaio sobre o Destino da Humanidade (Bertrand Brasil, 2010), no qual denuncia o agravamento da gigantesca crise planetária e a incapacidade do pensamento político atual de propor uma nova política de civilização que evite o mergulho na barbárie. Para Morin, precisamos abandonar o sonho de dominação e “substituir a noção de desenvolvimento pela de uma política da humanidade e a de uma política de civilização”.

Compreender as ambivalências da condição humana

Um dos legados mais importantes da abrangente obra de Morin talvez esteja nas suas reflexões em torno da condição humana. No seu entendimento acerca dos caminhos a serem traçados para enfrentarmos os principais desafios contemporâneos está a ideia de que “o século XXI deverá abandonar a visão unilateral que define o ser humano pela racionalidade (Homo sapiens), pela técnica (Homo faber), pelas atividades utilitárias (Homo economicus), pelas necessidades obrigatórias (Homo prosaicus). O ser humano é complexo e traz em si, de modo bipolarizado, caracteres antagonistas”. Morin nos instiga, portanto, a abdicar dessa visão unilateral que define o ser humano exclusivamente pela racionalidade tecnoeconomicista. O homem é, a um só tempo, sapiens e demens (sábio e louco), faber e ludens (trabalhador e lúdico), empiricus e imaginarius (empírico e imaginário), economicus e consumans (econômico e consumista), prosaicus e poeticus (prosaico e poético).

Somos, portanto, mais bem compreendidos pela ideia de um Homo complexus, que nas palavras de Morin significa que “o ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida; sujeito de afetividade intensa e instável”. Daí a necessidade de voltarmos mais nossas atenções para a condição humana e menos para o aperfeiçoamento das técnicas e dos instrumentos, pois a crise de civilização que enfrentamos, em grande medida, é fruto dessa incompreensão. Precisamos entender, como o próprio Morin alerta, que “quando há hegemonia de ilusões, excesso desencadeado, então o Homo demens submete o Homo sapiens e subordina a inteligência racional a serviço de seus monstros”.

Assim como prevaleceu ao longo de quase todo o percurso civilizatório, nossas inclinações para ilusões desnecessárias – talvez as mais nocivas sejam a ilusão de ordem, controle e dominação –, que ainda persistem com mais intensidade na contemporaneidade, estão a nos empurrar para o abismo. Nas duas últimas décadas, elas se expressam especialmente por meio da aposta que tem sido feita no avanço da tecnologia para resolver todos os problemas do mundo. Trata-se do chamado movimento transumanista que pressupõe que o ser humano caminha para um aperfeiçoamento que o alçará à condição de pós-sapiens, mediante os aparatos e as manipulações a cargo da inteligência artificial. Como alertou o próprio Morin (entrevista ao Le Monde, em 20/04/2020), ao refletir sobre a crise sanitária gerada pela pandemia da Covid-19, “a loucura eufórica do transumanismo leva ao paroxismo o mito da necessidade histórica do progresso e do domínio do homem não apenas sobre a Natureza, mas também sobre o seu destino, ao prever que o homem terá acesso à imortalidade e controlará tudo pela inteligência artificial.”

Contrariando os supostos benefícios em prol de um progresso da humanidade, que poderiam advir a partir dos algoritmos, o que se conseguiu até agora com essa visão cibernética de mundo foi amplificar assustadoramente o ímpeto de controle, dominação e apropriação da verdade que caracteriza a cultura ptriarcal milenar. De um lado, afloram novamente novas regressões sob variadas formas: ameaças às democracias em muitos países, corrupção generalizada, desigualdades socioeconômicas brutais, regimes totalitários, arroubos nacionalistas, crime organizado, xenofobia, racismo e outras formas de desagregação do tecido social. De outro, assistimos inerte a um processo de degradação ambiental em escala planetária, que já nos colocou dentro da sexta extinção em massa e ameaça nossa sobrevivência como espécie.

No fundo, o que Morin nos mostra é que estamos no cerne de uma mudança de época histórica, na qual há uma profunda crise de percepção que fragmenta os modos de interpretação da realidade e que constitui a gênese da vulnerabilidade institucional que fragmenta os modos de intervenção nessa mesma realidade. Há, assim, com o atual modo de vida centrado no desenvolvimento tecno-econômico, que alimenta a insanidade do crescimento do sistema de produção capitalista, um agravamento sem precedentes da crise planetária. Por isso, Morin propõe uma passagem do pensamento linear cartesiano (enfoque em fragmentação, controle e previsibilidade) – cujas concepções remontam à época de Aristóteles, Platão e Sócrates, na Grécia antiga –, bem como do pensamento sistêmico (enfoque em conjuntos, padrões e totalidades), desenvolvido ao longo do século XX, para o pensamento complexo, cujo enfoque está nas interações, incertezas e imprevisibilidades, que é bem mais abrangente para lidar com a complexidade da condição humana e da realidade que a cerca. Daí a necessidade de aplicarmos novos operadores cognitivos, conforme mencionado antes, para podermos colocar o pensamento complexo em prática e, desse modo, nos religarmos novamente à nossa condição natural.

A esperança reside na improvável, mas indispensável, metamorfose cultural

No entanto, esse pensamento complexo proposto por Morin ainda está muito longe de superar o pensamento linear e o pensamento sistêmico. Por isso, torna-se tão difícil abraçarmos novos modos de cognição que nos permitam lidar melhor com a complexidade do mundo natural ao qual estamos imbricados e com as múltiplas crises que se manifestam na contemporaneidade. Como diz Morin, “por todo lugar se aceleram e se amplificam a crise da democracia, a crise da biosfera, a crise do pensamento, o sonambulismo político, e também os delírios xenófobos, racistas e belicistas”. Razão pela qual ele alerta que “a desintegração é provável. O improvável, mas possível é a metamorfose”. A aposta na metamorfose, a que ele se refere, é o elemento catalisador da capacidade humana, diante da possibilidade da autodestruição, de mudar seu modo de ver e interagir com o mundo e, desse modo, ressignificar-se diante de uma crise tão profunda, pois, nas atuais condições do nosso planeta, sem uma mudança radical em nosso modo de estar no mundo não teremos futuro. “Quanto mais nos aproximamos da catástrofe”, diz Morin, “mais a metamorfose é possível. Então, a esperança pode vir do desespero”.

Todos os cenários, seja no âmbito político, ecológico, social ou econômico, apontam para o fim da longa história de prevalência da cultura patriarcal, que também se originou de uma metamorfose ocorrida no neolítico. Segundo a socióloga austríaca Riane Eisler, a partir de algum momento por volta da época da revolução agrícola, deu-se a grande bifurcação cultural do Ocidente, na qual os povos guerreiros indo-europeus fizeram uso das armas para promover a passagem da “sociedade de parceria”, a chamada cultura matrística que predominava até então, para a “sociedade de dominação”, que resultou na Cultura Patriarcal vigente até hoje (O Cálice e a Espada: nossa história, nosso futuro, Palas Athena, 2008). Desde essa época aos dias atuais, a história da civilização tem sido uma história de guerras, massacres e destruições, em nome de um suposto progresso da humanidade.

As próximas décadas, portanto, contêm todos os elementos para serem marcadas por uma nova metamorfose, com todas as indesejáveis agruras que esse tipo de fenômeno comporta. Como lembra Morin, “a História humana nasceu de uma metamorfose não programada que teria parecido impossível a todo observador extraterrestre há dez mil anos”. É a partir dessa perspectiva que Morin parece encontrar, doravante, alguma possibilidade de regeneração, muito embora haja um forte e crescente sentimento coletivo de desesperança que não vê mais alternativas à civilização.

O fato é que temos uma realidade cada vez mais distópica no horizonte. Qual percurso, então, poderia nos desviar do colapso civilizatório? Com muito esforço de otimismo, se buscarmos algum aprendizado das muitas regressões do passado, um novo modo de viver certamente seria algo que aceitasse a nossa limitada e contraditória condição natural e tentasse superar o nosso aprisionamento à cultura patriarcal. Não resta à civilização outra saída que não seja abandonar a visão mercadológica de mundo e assumir uma visão relacional (complexa) de mundo, que considere o entrelaçamento de todas as dimensões da condição humana e do mundo natural, com o qual temos uma inarredável relação de interdependência.

Se tivéssemos hoje alguma instância de governança global com esse propósito, que alcançasse os consensos necessários entre os países mais desenvolvidos, que ditam os destinos da humanidade, uma política de civilização, tal como defendida por Morin, provavelmente contemplaria pelo menos as seguintes abordagens de transformação: uma estratégia de redução da sobrecarga populacional sobre a Terra, para mitigar as mudanças climáticas já em curso; a articulação de uma democracia global, que tolere o pluralismo de modos de vida; o resgate do sentido de comunidade e de preservação dos bens comuns, que foram destruídos pelas relações narcisistas, excludentes e predatórias do mercado; e a formulação de uma nova economia relacional, que dê centralidade à vida e ao cuidado da nossa Casa Comum e não à acumulação e ao consumo. A construção de um futuro reconhecível necessariamente passa por este caminho, mas ele está muito longe de ser uma realidade.

Ao que tudo indica, daqui em diante, o futuro da humanidade ficará, cada vez mais, sob os desígnios do acaso e da metamorfose. Há aproximadamente vinte anos, quando escrevia o último livro de sua principal obra, La Méthode 6 – Éthique (Editions du seuil, 2004), Morin vislumbrava dois desfechos para o atual impasse civilizatório imposto pelas múltiplas crises da contemporaneidade. Segundo ele, poderíamos sair da História “por cima”, pela regeneração do poder absoluto do Estado-nação, ou “sair por baixo”, pela regressão generalizada e pela “explosão de uma barbárie à Mad Max”. No entanto, Morin parece já ter descartado a primeira saída, conforme podemos observar das suas manifestações nos últimos anos, e indica ter se rendido aos muitos prognósticos que apontam cada vez mais para a barbárie. Nas palavras dele, “a barbárie está presente, hoje, ameaçando-nos novamente, esta velha barbárie de destruição e ódio, aliada a uma nova barbárie, nascida em nossa civilização, uma barbárie fria, gélida, a da técnica e dos cálculos que ignoram os sentimentos e a vida.”

Apender com as lições da História

O filósofo político e escritor britânico John Gray resumiu bem essa paradoxal condição humana de aprisionamento a um perene mal-estar civilizatório, identificada por Edgar Morin, quando afirmou: “se existe algo de único no animal humano é que ele tem a capacidade de aumentar seu conhecimento em ritmo acelerado, mas é cronicamente incapaz de aprender com a experiência”. Os entendimentos acerca das origens desse desarranjo civilizacional ainda estão muito dispersos, o que dificulta bastante a busca de consensos e a convergência de propostas e ações, por isso a necessidade mais que urgente de religarmos saberes e reformarmos o pensamento que Morin, há tempos, nos alerta.

Essa dissonância cognitiva tem a ver com a nossa dificuldade de aprendizagem com os inúmeros fatos negativos vivenciados ao longo da história, razão pela qual Edgar Morin sempre gostou de se reportar às muitas encruzilhadas da História para compreender as instabilidades e incertezas do momento presente. Segundo ele, “a primeira lição da história é que não aprendemos lições da história, que somos cegos para o que ela nos ensinou”. Perdemos nossa capacidade de autocrítica quanto às ilusões contidas na ideia de progresso e precisamos, hoje mais do que nunca, ficar alertas. Precisamos, segundo Morin, “pensar que os períodos que parecem progressistas podem ser seguidos de regressão e barbárie, e que nem mesmo essa é eterna”.

Mesmo após a celebração do seu centenário, em julho de 2021, Morin continuou em intenso ativismo intelectual, dando entrevistas e escrevendo artigos e livros esclarecedores acerca da conturbada conjuntura geopolítica, abordando as implicações do atual contexto de crescente exacerbamento da policrise global instalada desde os anos 1970. Policrise refletida principalmente na degradação dos ecossistemas em escala planetária, no declínio dos regimes democráticos, no retorno às regressões nacionalistas e na perda de coesão social resultante da nova sociedade de mercado guiada pela obsessão do lucro. Uma crise de civilização que surge, paradoxalmente, junto com as promessas de melhoria de condições de vida trazidas pela globalização do modo de vida tecnocapitalista. Percebemos, assim, a clareza e profundidade de sua visão de mundo, a multidisciplinaridade do seu conhecimento e, principalmente, sua capacidade de articular a complexidade inerente aos riscos e virtualidades implicadas na agonia civilizatória que se coloca bem à nossa frente.

Para encerrar essa breve homenagem, segue um mosaico das três principais lições que, na visão de Edgar Morin, têm conduzido, para o bem e o mal, o curso da história, e que novamente se sobressaem neste momento de agudização dessa policrise terminal. Para não turvar as perspectivas que Morin nos ofereceu, este mosaico é montado a partir da transcrição literal de alguns excertos das suas entrevistas mais recentes, os quais traduzem as grandes contradições e possibilidades da História, e que podem servir de importantes guias ante a catástrofe civilizatória anunciada.

As regressões

Existem progressos possíveis, progressos incertos e todo progresso que não se regenerar degenera. Tudo pode regredir.”

A convicção de que a livre concorrência e o crescimento econômico são panaceias sociais universais escamoteia a tragédia da história humana que essa convicção agrava.”

Observo que a explosão descontrolada do desenvolvimento tecno-econômico, animada por uma sede ilimitada de lucro e favorecida por uma política neoliberal generalizada, tornou-se prejudicial e provocou crises de todos os tipos. A partir desse momento, estou intelectualmente preparado para enfrentar o inesperado, para enfrentar convulsões.”

O desenvolvimento econômico-capitalista, então, desencadeou os grandes problemas que afetam nosso planeta: a deterioração da biosfera, a crise geral da democracia, o aumento das desigualdades e as injustiças, a proliferação de armamentos, os novos autoritarismos demagógicos (com os Estados Unidos e o Brasil na cabeça). Por isso, hoje, é necessário promover a construção de uma consciência planetária sob sua base humanitária: incentivar a cooperação entre países com o objetivo principal de fazer crescer os sentimentos de solidariedade e fraternidade entre os povos.”

Estamos em uma época regressiva. A regressão se manifesta com a crise das democracias que, em muitos lugares, inclusive na Europa, dá lugar a regimes semiditatoriais, na Turquia, Hungria, Rússia, um pouco também na Polônia. Uma tendência quase universal, à qual se soma o domínio de forças econômicas gigantescas, que nas atuais condições do neoliberalismo pesam sobre os povos que tentam se levantar, mas fracassam. Essas revoltas se esvaziam ou são esmagadas porque não há força para guiá-las, uma voz capaz de dar sentido ao futuro. Fatores negativos estão predominando.”

Nós podemos temer fortemente a regressão geral que já estava em curso durante os primeiros 20 anos deste século (crise da democracia, corrupção e demagogia triunfantes, regimes neoautoritários, impulsos nacionalistas, xenófobos, racistas). Todas essas regressões (e, na melhor das hipóteses, estagnações) são prováveis enquanto não aparecer a nova via político-ecológico-econômico-social guiada por um humanismo regenerado. Esta multiplicaria as verdadeiras reformas, que não são cortes no orçamento, mas sim reformas de civilização, de sociedade, ligadas a reformas de vida.”

Essa guerra [Ucrânia] provoca uma crise considerável que agrava e agravará todas as enormes crises do século sofridas pela humanidade, como a crise ecológica, a crise econômica, a crise das civilizações, a crise do pensamento. Em 2017, havia 80 milhões de seres humanos à beira da fome. Depois da pandemia, 276 milhões. Atualmente, 345 milhões.”

Estamos na escalada da desumanidade e no colapso da humanidade, na escalada do simplismo e no colapso da complexidade. Acima de tudo, a escalada para a guerra global é o colapso da humanidade no abismo.”

Não acredito que estamos caminhando para um amanhã brilhante. O futuro é obscuro. Sei que muitas vezes o inesperado acontece na história, estou atento e vigilante. Contudo, estou muito angustiado pelo futuro da humanidade.”

A policrise que estamos vivendo em todo o planeta é uma crise antropológica: é a crise da humanidade que não consegue se tornar Humanidade. Houve um tempo – não muito longe – onde poderíamos ter previsto uma mudança de rumo. Agora parece tarde demais.”

A incerteza

A chegada do coronavírus nos lembra que a incerteza permanece um elemento inexpugnável da condição humana.”

A unificação técnico-econômica do mundo, que trouxe o capitalismo agressivo nos anos 1990, gerou um enorme paradoxo que o surgimento do coronavírus agora tornou visível a todos: essa interdependência entre países, em vez de favorecer o progresso real da consciência e da compreensão dos povos, desencadeou formas de egoísmo e ultranacionalismo. O vírus desmascarou essa ausência de uma autêntica consciência planetária da humanidade”

Poucos cientistas leram Karl Popper, que estabeleceu que uma teoria só é científica se for refutável, Gaston Bachelard, que colocou o problema da complexidade do conhecimento, ou Thomas Kuhn, que mostrou como a história da ciência é um processo descontínuo. Muitos cientistas ignoram a contribuição desses grandes epistemólogos e ainda trabalham de uma perspectiva dogmática.”

Os conhecimentos se multiplicam exponencialmente, de repente, transbordam a nossa capacidade de nos apropriarmos deles e, acima de tudo, lançam o desafio da complexidade: como confrontar, selecionar, organizar adequadamente esses conhecimentos, conectando-os e integrando a incerteza. Para mim, isso revela mais uma vez a carência do modo de conhecimento que nos foi inculcado, que nos faz separar aquilo que é inseparável e reduzir a um único elemento aquilo que forma um todo ao mesmo tempo uno e diverso. Com efeito, a revelação fulgurante das convulsões que sofremos é que tudo o que parecia separado está ligado, pois uma catástrofe sanitária catastrofiza em cadeia a totalidade de tudo o que é humano.”

A loucura eufórica do trans-humanismo leva ao paroxismo o mito da necessidade histórica do progresso e do domínio do homem não apenas sobre a natureza, mas também sobre o seu destino, ao prever que o homem terá acesso à imortalidade e controlará tudo pela inteligência artificial.”

A história também ensina como, em certo ponto, tudo parece entrar em colapso como, por exemplo, a romanidade; depois de um processo multissecular algo novo e revolucionário surge. Estamos em um mundo incerto e podemos imaginar um futuro em que forças catastróficas intervenham, mas a probabilidade nunca é certeza.”

Como crise civilizacional, ela (a pandemia da Covid-19) nos leva a perceber as carências em termos de solidariedade e a intoxicação consumista que a nossa civilização desenvolveu; e nos pede que reflitamos sobre uma política de civilização. Como crise intelectual, ela deveria nos revelar o enorme buraco negro na nossa inteligência, que torna invisíveis para nós as evidentes complexidades do real.”

As origens da guerra na Ucrânia estão ao mesmo tempo no retorno do poder russo e no avanço da OTAN. (…) É preciso fazer um diagnóstico correto do homem no mundo e na história atual.”

O improvável

Testemunhei tantos eventos imprevistos em minha vida – desde a resistência soviética na década de 1930 até a queda da URSS, para mencionar apenas dois fatos históricos improváveis antes que eles acontecessem – que faz parte do meu jeito de ser.”

Ocasionalmente, um fator agradável e inesperado interfere, como a eleição do papa Francisco.”

O acaso costuma intervir, mas é a complexidade dos fatores que operam na história que mais a modificam, eventos que fermentam e trabalham sobre a realidade. Gorbachev, por exemplo, quem esperava isso?”

Antes da guerra, a dominação nazista na Europa parecia geral e o que fez as coisas mudarem? O Duce. Porque ele quis atacar a Grécia, mas foi parado pelo pequeno exército grego, então pediu ajuda a Hitler, que teve que adiar o ataque à URSS por um mês, previsto para maio de 1941, porque teve que combater a Resistência sérvia antes de conseguir plantar a bandeira da suástica na Acrópole. Assim, chegando aos portões de Moscou, o exército alemão ficou congelado por um inverno precoce. Mas se tivesse atacado em maio, teria tomado Moscou e o destino teria mudado.”

A ciência é devastada pela hiperespecialização, que é o fechamento e a compartimentalização dos saberes especializados, em vez da sua comunicação. E são sobretudo pesquisadores independentes que estabeleceram desde o início da epidemia uma cooperação, que agora se alarga entre infectologistas e médicos do planeta. A ciência vive de comunicações, toda censura a bloqueia. Portanto, devemos ver as grandezas da ciência contemporânea ao mesmo tempo que as suas fraquezas.”

Não sei qual improvável que possa aparecer hoje. Na história humana, no entanto, os dois inimigos irreconciliáveis, mas inseparáveis, que são Eros e Thanatos continuarão se enfrentando, e Thanatos não será capaz de destruir Eros ou Eros eliminar Thanatos. Cada um por sua vez assumirá o controle. Hoje os mais fortes são Polemos e Thanatos, mas não há eternidade na história.”

O pós-epidemia será uma aventura incerta, em que se desenvolverão as forças do pior e as do melhor, sendo estas últimas ainda fracas e dispersas. Saibamos, enfim, que o pior não é certo, que o improvável pode advir, e que, no combate titânico e inextinguível entre os inimigos inseparáveis que são Eros e Thanatos, é saudável e enérgico ficar do lado de Eros.”

A experiência das irrupções do imprevisto na história ainda não penetrou nas consciências. Ora, a chegada de um imprevisível era previsível, mas não sua natureza. Daí a minha máxima permanente: ‘Espere o inesperado’.”

A pior ameaça e a maior promessa chegam, simultaneamente, ao século. (…) Com a condição de não naufragar nela, a catástrofe se converte na última oportunidade.”

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O inestimável legado de Edgar Morin nos mostra que quaisquer tentativas humanas de moldar a realidade, seja pela visão mercadológica de mundo, seja pela fantasia transumanista dos algoritmos, ou alguma outra artimanha de dominação e apropriação patriarcal, que estão disputando hegemonia nesta mudança de época histórica, estarão fadadas ao fracasso, o que pode acelerar ainda mais a interrupção prematura da experiência humana neste planeta já irreversivelmente degradado. Para Morin, a sensatez recomenda apostarmos nosso futuro na reforma do pensamento, na aceitação da pluralidade de modos de viver, na revisão de nossas crenças e valores patriarcais, numa visão de mundo que dialogue com a complexidade inerente à teia da vida, da qual somos parte indissociável, que se afaste das ilusões de controle, hierarquia e apropriação da verdade, que aceite a aleatoriedade, a ambiguidade, as contradições, a multiplicidade, a imprevisibilidade e a incerteza que conduzem a nossa limitada condição humana.

Morin certamente figurará entre aqueles raros pensadores que conseguiram abraçar a Natureza, a vida, o conhecimento, as ideias, a humanidade e a ética, sem perder a perspectiva da complexidade do mundo real que ele tão bem soube perceber e articular, chegando talvez o mais próximo daquilo que alguns chamam de “espírito do mundo”. Se mais adiante evoluirmos para um futuro reconhecível, quando nos libertarmos das misérias, da ignorância e da estupidez que nos trouxeram à agonia antropocêntrica deste início do século XXI, Morin provavelmente será lembrado pela persistência em nos mostrar qual é o nosso lugar diante da complexidade do mundo real.

Salve a centenária resistência de Edgar Morin! Uma resistência que nos instiga a aceitar e a abraçar a complexidade das dinâmicas que sustentam a vida, para nos livrarmos do engodo da cultura de dominação patriarcal milenar, desencadeadora do longo e tortuoso projeto civilizador do Ocidente que produziu, dentre tantos desvios antropocêntricos, a insanidade tecnocapitalista que está destruindo a nossa humanidade e a nossa biosfera. Uma necessária e imprescindível inspiração para superarmos os impasses civilizatórios deste século, enquanto ainda temos tempo.

A missão do intelectual não é apenas formular

os problemas humanos fundamentais e globais, inclusive políticos,

mas também saber formulá-los em sua complexidade.”

Edgar Morin

 

 

Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/descolonizacoes/edgar-morin-cem-anos-de-audacia-intelectual/