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Na Colômbia, a esquerda cresce e a direita se reorganiza

A magnitude da batalha travada pela esquerda colombiana não pode ser totalmente compreendida sem um exame cuidadoso da história do país. O Pacto Histórico representa não apenas uma opção eleitoral, mas uma resposta popular a séculos de captura violenta do Estado por elites conservadoras e inescrupulosas.

Por: Diana Carolina Alfonso | Tradução: Pedro Silva | Crédito Foto: Foto via X/@IvanCepedaCast.  O Pacto Histórico consolida sua posição como a principal força política do país. Iván Cepeda e Aida Quilcué serão os candidatos à presidência nas eleições de 31 de maio.

Em 8 de março a Colômbia voltou às urnas. Não só o Congresso foi renovado — com 183 representantes na Câmara e 103 senadores —, como também houve mudanças nos diversos blocos políticos do país. Três primárias interpartidárias disputaram a indicação presidencial. De um lado, estava a chamada Grande Consulta, onde convergiam a direita e a extrema-direita. Mais ao centro, estava a Consulta de Soluções. E, paralelamente, o campo próximo ao Pacto Histórico se agrupou sob o nome de Frente pela Vida.

O Pacto decidiu participar com listas fechadas, uma estratégia concebida para evitar a divisão dos votos e para conter, tanto quanto possível, a antiga máquina de clientelismo e pressão sobre o eleitorado. A direita, por outro lado, optou por listas abertas, um formato que historicamente coexistiu muito bem com essas mesmas práticas.

O Pacto Histórico consolidou-se como a principal força política do país, conquistando quase 4,4 milhões de votos. No entanto, isso ocorreu apesar de um obstáculo significativo: Iván Cepeda — uma das figuras mais influentes da esquerda e favorito em diversas pesquisas — foi excluído das primárias interpartidárias após uma decisão arbitrária do Conselho Nacional Eleitoral. Como resultado, o voto progressista ficou disperso e dividido entre várias opções que, em outras circunstâncias, provavelmente teriam convergido para um único candidato.

A direita e a extrema-direita participaram das primárias com uma ampla gama de candidatos e conseguiram mobilizar um número significativo de eleitores. Quase cinco milhões de pessoas participaram das primárias. Paloma Valencia, a candidata apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, acabou vencendo. Ela garantiu a vitória com aproximadamente 3,2 milhões de votos, alcançando assim seu objetivo de se consolidar como a principal figura desse setor político.

Em segundo lugar ficou Juan Daniel Oviedo, ex-diretor do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE), que obteve quase 1,2 milhão de votos. Embora consideravelmente atrás de Valencia, esse resultado o posicionou bem dentro da direita, buscando se apresentar como uma alternativa mais tecnocrática, menos atrelada às máquinas políticas tradicionais.

Por sua vez, Abelardo de la Espriella, que cultivou uma relação próxima com o republicanismo estadunidense dentro do campo de Uribe, decidiu ficar de fora das primárias, buscando manter uma imagem de independência em relação às estruturas mais consolidadas da ala direita de Uribe. Essa manobra não é nova. Faz parte de uma estratégia de duas frentes que os apoiadores de Uribe já utilizaram antes. Algo semelhante aconteceu em 2022, quando essa facção acabou jogando com duas cartas simultaneamente: por um lado, a candidatura oficial do ex-prefeito Federico “Fico” Gutiérrez e, por outro, a do empresário Rodolfo Hernández, apresentado como uma opção supostamente independente.

Mas a expectativa de que De la Espriella se consolidasse como uma espécie de terceira via nesse espaço político não se materializou completamente. Seu partido, Salvação Nacional — fundado em 1990 pelo líder conservador Álvaro Gómez Hurtado, que mais tarde foi assassinado — mal conseguiu conquistar 3,6% do eleitorado. Isso se traduziu em três cadeiras no Senado, um resultado modesto que, além disso, deixa a organização à beira de perder sua legalidade devido ao fraco desempenho nas urnas.

Assim, Álvaro Uribe se vê novamente com dois candidatos alinhados à sua esfera política, ambos com um teto eleitoral relativamente limitado dentro da extrema-direita. Nesse contexto, Juan Daniel Oviedo surge como um potencial aliado para ampliar a base e incluir setores menos radicalizados. Com esses resultados, o ex-diretor do DANE — talvez a figura mais moderada do bloco — está bem posicionado para negociar uma possível vice-presidência ou até mesmo para se lançar como candidato à prefeitura de Bogotá nas eleições de 2027.

O centro político também saiu enfraquecido do pleito. O desempenho do Partido Verde e seus aliados nas eleições legislativas corroeu ainda mais a já frágil identidade desse ponto do espectro político. Na Consulta de Soluções, a ex-prefeita Claudia López obteve 574.670 votos, um contraste gritante com os 1.108.541 votos que a levaram ao Palácio de Liévano em 2019.

No âmbito legislativo, o Partido Verde também sofreu um duro golpe, perdendo figuras importantes em ambos os lados do espectro político. Inti Asprilla, próximo ao Pacto Histórico, perdeu sua cadeira. Katherine Miranda e Angélica Lozano, representantes da ala direita, também não conseguiram se reeleger. O resultado demonstrou claramente a crise do “centro verde” como projeto político.

Essa fragilidade tornou-se ainda mais evidente com os votos obtidos pelo influenciador Jota Pe Hernández, conhecido por sua admiração por Nayib Bukele. Hernández obteve 158.457 votos, tornando-se o terceiro congressista mais votado nas listas abertas. Ele foi superado apenas por Nadia Blel — membro do clã Blel, uma família poderosa do departamento de Bolívar, ligada a grupos paramilitares — e Lidio García Turbay, também ligado a um dos clãs tradicionais daquele departamento (é importante ressaltar que García Turbay é membro do grupo político liderado pelo ex-senador Álvaro García Romero, seu primo, que em 2010 foi condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça por sua participação no massacre de Macayepo em 2000, perpetrado por paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia).

Em resumo, as três maiores votações nas listas abertas de direita foram para dois representantes de clãs políticos historicamente ligados às redes de poder que acompanharam a institucionalização do paramilitarismo na costa caribenha, juntamente com um projeto político de cunho libertário que se inspira na estética e no discurso de Bukele.

Do outro lado do espectro político, a Frente pela Vida obteve um resultado bastante modesto. Após a decisão do Conselho Nacional Eleitoral de impedir Iván Cepeda de participar das primárias interpartidárias, o Pacto Histórico decidiu não apoiar formalmente a campanha da Frente. Roy Barreras, que durante anos foi um militante do Uribismo antes de se alinhar ao campo progressista, obteve cerca de 360.000 votos.

Ainda assim, Barreras e Daniel Quintero seguiram em frente com as primárias, que acabaram por angariar 595.837 votos. O resultado revelou claramente o declínio político de Barreras. As máquinas políticas regionais que o apoiaram durante anos como operador político retiraram o seu apoio, ao passo em que ele nunca conseguiu consolidar uma base verdadeiramente sólida nos setores da esquerda. O homem que aspirava mobilizar mais de 3 milhões de votos ficou muito aquém desse objetivo. Hoje, Barreras surge como uma figura enfraquecida no campo progressista, com uma capacidade muito menor de mobilizar apoio do que a que projetava no início da campanha.

Na frente legislativa, o bloco de esquerda no governo também não conseguiu garantir as maiorias parlamentares necessárias para superar com facilidade o impasse existente e o provável impasse futuro. No entanto, para além de qualquer interpretação triunfalista ou derrotista, vale a pena analisar esse resultado sob uma perspectiva histórica. Mesmo com suas limitações, ele representa o melhor desempenho legislativo já alcançado pela esquerda — uma esquerda que, desde sua origem, tem sido sistematicamente atacada por uma das oligarquias mais fratricidas do continente.

A violenta democracia colombiana

Após quatro anos no governo, o avanço do Pacto Histórico no Senado começa a mostrar uma tendência que não passou despercebida. Embora seja um processo gradual, um certo nível de confiança institucional em seu projeto político parece estar crescendo. O bloco progressista aumentou sua representação na câmara alta de 20 para 25 cadeiras, e a recontagem ainda pode recuperar pelo menos mais duas vagas. Isso não seria inédito. Já aconteceu em 2022. Naquela época, a recontagem recuperou aproximadamente 570 mil votos que não haviam sido contabilizados inicialmente para o Pacto. Esse processo permitiu que o bloco aumentasse de 16 para 20 senadores. As quatro cadeiras recuperadas haviam sido originalmente destinadas ao Partido do U, grupo que por anos serviu como um dos principais veículos políticos de Álvaro Uribe, antes de romper com seu sucessor, Juan Manuel Santos, e decidir fundar o Centro Democrático em 2013.

No cenário atual, o Centro Democrático aparece como a segunda maior força no Senado, com 17 cadeiras, enquanto o Partido Liberal ocupa o terceiro lugar com 13. Assim, o mapa político da casa é liderado pelo Pacto Histórico com 25 cadeiras, seguido pelo Uribismo com 17 e pelo Partido Liberal com 13. A situação na Câmara dos Representantes, por sua vez, ainda está em desenvolvimento. A contagem de votos está progredindo de forma um tanto lenta, portanto o quadro final ainda não está totalmente claro. No entanto, projeções preliminares sugerem que o bloco progressista também poderá crescer significativamente. De acordo com estimativas do Sistema Público de Mídia RTVC, o Pacto aumentaria sua representação de 26 para cerca de 38 cadeiras na Câmara Baixa.

Contudo, o fato de a recontagem ter tanto peso em comparação com a contagem inicial levanta questões profundas sobre o funcionamento do sistema eleitoral colombiano. O que se torna evidente de maneira reiterada é a existência de uma estrutura parainstitucional que permeia todos os aspectos da vida política do país. A perda, alteração ou desaparecimento de votos dificilmente pode ser entendida como um simples “erro técnico”. Faz parte de um conjunto de práticas que, ao longo da história, têm sido utilizadas para bloquear ou eliminar adversários políticos.

Nesse repertório aparecem mecanismos familiares: compra de votos, pressão clientelista, guerra jurídica, perseguição política, proscrição de partidos, coerção armada e até episódios de chacinas políticas ou magnicídios. São recursos acionados sempre que o sistema de poder precisa se realinhar para proteger os interesses daquilo que Jorge Eliécer Gaitán chamou de “país político”: aquela minoria de elites que administra o Estado e que, historicamente, mantém um profundo distanciamento das maiorias populares que compõem o chamado “país nacional”.

Breve histórico da eliminação política na Colômbia

Houve um momento em que a política colombiana tomou um rumo brutal. Em meados da década de 1980, em meio à recomposição do poder por setores conservadores — independentemente do partido a que se alinhassem —, o país passou por dois períodos eleitorais sangrentos: 1986 e 1990. Durante esses anos, vários dos principais candidatos que representavam alternativas políticas fora das elites tradicionais e que também se situavam à esquerda da estrutura de poder que orbitava o Cartel de Medellín foram assassinados.

A lista é bem conhecida, mas nem por isso deixa de ser arrepiante. Jaime Pardo Leal, líder do Partido Comunista Colombiano e da União Patriótica (UP), foi assassinado em 1987. Dois anos depois, Luis Carlos Galán, líder do movimento Novo Liberalismo e um dos principais candidatos à presidência, foi morto. Em 1990, Bernardo Jaramillo Ossa, figura central da União Patriótica, e Carlos Pizarro León-Gómez, ex-comandante do grupo guerrilheiro M-19 que havia acabado de depor as armas para participar da política formal, também foram assassinados.

Tanto a União Patriótica quanto o M-19 haviam iniciado processos de paz que envolviam o abandono da luta armada para se integrarem ao sistema político por meio de eleições. Mas, em vez de abrir um espaço democrático liberal, o que se seguiu foi o extermínio sistemático da União Patriótica e o assassinato daqueles que tentaram construir uma alternativa política dentro da lei. Ao longo do tempo, diversas investigações indicaram que múltiplos atores convergiram por trás dessa violência, incluindo setores das forças armadas, grupos paramilitares, redes de narcotráfico, empresários e os próprios funcionários do Estado.

O cerco político não terminou aí. Em 2002, quando o extermínio da União Patriótica ainda pesava fortemente na memória recente do país, o Comitê Nacional Eleitoral (CNE) decidiu revogar o status legal do partido. A medida foi tomada durante a ascensão política de Álvaro Uribe. Mais de uma década depois, em 2013, a Corte Interamericana de Direitos Humanos reconheceu a responsabilidade do Estado colombiano por esse extermínio e ordenou a restauração do status legal da UP.

A história se repetiu, ainda que de formas diferentes, em 2018. Naquele ano, o CNE bloqueou a possibilidade do Colômbia Humana, movimento liderado por Gustavo Petro, se registrar formalmente como partido político. Diante dessa decisão, Petro e sua coligação acabaram concorrendo às eleições presidenciais utilizando o status legal que havia sido restaurado à União Patriótica (este ano, a Colômbia Humana finalmente optou por se dissolver e integrar-se totalmente ao Pacto Histórico, decisão que, ao menos em parte, respondeu à necessidade de superar os obstáculos que o próprio CNE impôs ao processo de unificação desse projeto político).

O período de assassinatos marcou profundamente a política do país no final do século XX. Num contexto de sufocamento da abertura democrática, a participação eleitoral da esquerda declinou durante décadas. Esse cenário só começou a mudar em 2018, quando Gustavo Petro emergiu como candidato presidencial com uma capacidade de mobilização sem precedentes dentro do movimento progressista.

Por quase três décadas — entre 1990 e o fim do ciclo político do Uribismo, que acabou se dissipando sob o governo de Iván Duque em meio à Greve Nacional de 2019-2021 — a abstenção eleitoral na Colômbia girou em torno de 53%. Esse padrão começou a mudar em 2018, quando a abstenção caiu para 44%. Essa queda foi impulsionada principalmente pela mobilização de novos eleitores e pelo entusiasmo de setores progressistas que viam Petro como um candidato real ao poder. A tendência se intensificou em 2022, quando a abstenção caiu para 41,9%, o nível mais baixo em décadas.

Diante do crescimento do voto progressista — também observado nas eleições legislativas de 8 de março — tudo indica que essa tendência poderá se consolidar ainda mais até o primeiro turno da eleição presidencial, marcado para 31 de maio deste ano. O cenário político colombiano continua em transformação, mas, pela primeira vez em muito tempo, uma parcela significativa do eleitorado parece convencida de que a participação pode fazer a diferença.

Reação conservadora?

Oantigo sistema bipartidário liberal-conservador havia conseguido reunir uma parcela significativa da oposição no Congresso nas eleições de 2022. No entanto, as eleições de 8 de março transformaram mais uma vez a composição partidária da câmara baixa. O resultado obtido pelo Centro Democrático, partido de Álvaro Uribe, não só o consolida como a segunda maior força política do país — ultrapassando até mesmo o Partido Liberal —, como também remodela o panorama da direita. Seu avanço eleitoral enfraqueceu partidos que durante anos detiveram considerável influência (como o Mudança Radical) e empurrou o Partido Conservador para a quinta posição no equilíbrio de poder no Congresso.

A presença de Álvaro Uribe já havia alterado o equilíbrio do sistema político tradicional na década de 2000. Naquela época, a recomposição da direita era impulsionada por setores emergentes da elite econômica, os chamados “novos ricos”, que consolidaram seu poder em meio à expansão do capital ligado ao narcotráfico e sua subsequente projeção internacional durante o governo Ronald Reagan.

Com o tempo, esse segmento da burguesia se integrou firmemente à estrutura de poder colombiana. Sua consolidação foi acompanhada por recorrentes casos de ligações entre os setores político e empresarial e redes de narcotráfico, grupos paramilitares, exportação de mercenários e diversos escândalos relacionados ao tráfico de armas em áreas de fronteira, especialmente quando essas regiões estavam sob governos considerados “incômodos” para os Estados Unidos.

Esse bloco de poder político, financeiro e militar opera de maneira relativamente coesa e se move de acordo com interesses geopolíticos alinhados a Washington. Estruturalmente, trata-se de uma burguesia transnacional. Nesse sentido, a suposta derrota eleitoral de Álvaro Uribe como candidato ao Senado assemelha-se menos a uma retirada do que a uma simples manobra tática dentro desse mesmo bloco de poder.

Em vez de um “colapso da direita”, está em curso um processo de reorganização interna. O crescimento do Centro Democrático e o declínio do Partido Conservador sugerem uma redistribuição de papéis dentro desse mesmo campo político. O uribismo está novamente na ofensiva, enquanto o conservadorismo abre caminho e funciona — como historicamente tem funcionado — como um terreno fértil para a administração pública e uma frente institucional para os setores mais concentrados do poder real.

A base política de Álvaro Uribe está envolta em controvérsias desde sua época como deputado federal na década de 1990. Diversas investigações apontaram ligações entre setores de seu círculo político e familiar e o Cartel de Medellín. Posteriormente, durante seus dois mandatos como presidente (2002-2010), investigações conduzidas por Gustavo Petro e Iván Cepeda ajudaram a evidenciar a extensão do fenômeno da “parapolítica”, no qual mais de 35% do Congresso foi investigado por supostos vínculos com as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) e redes de narcotráfico.

Essa rede nunca foi totalmente processada. As investigações avançaram de forma fragmentada, deixando vastas áreas de impunidade na relação entre poder político, paramilitarismo e economias ilegais. Nesse contexto, o chamado “dinheiro fácil” — o fluxo de capital originado dessas redes — torna-se uma variável fundamental para entender como a direita colombiana está se reorganizando hoje.

Os eventos recentes parecem reforçar essa interpretação. Operações do Plano Democracia da Polícia Nacional revelaram quase 4 bilhões de pesos supostamente destinados à compra de votos. Os escândalos envolveram setores tanto do Centro Democrático quanto do Partido Liberal. No entanto, esses casos apenas arranham a superfície de um fenômeno muito mais profundo, enraizado na persistência de estruturas de poder que combinam fundos ilícitos, influência política e capacidade coercitiva.

Diversas acusações feitas pelo presidente Gustavo Petro também apontam para a possível existência de uma rede de narcotráfico conhecida como “Nova Junta”. As acusações alegam que essa rede opera por meio de conexões políticas e financeiras que se estendem muito além do território colombiano. Elas traçam o alcance de seus nós logísticos e financeiros até Dubai, capital dos Emirados Árabes Unidos, o que dá uma ideia do nível de transnacionalização alcançado por essas estruturas.

Nesse contexto, o processo eleitoral colombiano de 2026 não é apenas uma disputa eleitoral entre partidos. É uma oportunidade para vislumbrar com mais clareza os fios da recomposição de um bloco de poder que combina política, capital e redes ilegais, e que continua a ter uma enorme capacidade de influenciar o rumo institucional do país.

O peso do antibolivarianismo

As origens divisivas e profundamente militarizadas dessa burguesia colombiana transnacionalizada remontam à reação histórica contra um dos projetos políticos mais ambiciosos surgidos após a independência: a visão de Bolívar de uma América Latina integrada. Essa visão tomou forma concreta no Congresso Anfictiônico do Panamá, em 1826, convocado por Simón Bolívar com o objetivo de unir as novas repúblicas e construir uma confederação que combinasse diplomacia, defesa e uma política comum diante das potências estrangeiras. Dois séculos depois, essa primeira tentativa de integração continental é uma lembrança distante. Mas mesmo em sua época, o projeto enfrentou enormes obstáculos. Rivalidades entre as elites locais, interesses comerciais divergentes e pressões externas acabaram por enfraquecer o sonho de Bolívar de uma América politicamente unificada.

A história pessoal de Bolívar, de certa forma, reflete o fracasso desse projeto político. O Libertador morreu doente e famélico enquanto tentava deixar o país rumo ao exílio em Santa Marta. Algo semelhante aconteceu com vários daqueles que tentaram dar continuidade ao seu legado político na Colômbia. Um deles foi o General José María Melo, um oficial militar bolivariano que liderou um breve governo reformista em 1854. Seu projeto foi finalmente derrotado por uma aliança entre facções conservadoras e liberais tradicionais. Após anos de exílio e lutas na América Central, Melo foi assassinado em 1860 no sul do México.

Décadas mais tarde, Rafael Uribe Uribe, general liberal e uma das últimas figuras a propor a possibilidade de reintegração territorial entre a Colômbia e a Venezuela, teve um destino igualmente trágico. Em 1914, foi assassinado a golpes de facão no centro de Bogotá, a poucos metros do centro histórico da cidade e da praça que hoje leva o nome de Simón Bolívar.

No início do século XX, a perda do Canal do Panamá e a ascensão da hegemonia conservadora consolidaram uma profunda mudança na orientação internacional do país. A doutrina Respice Pollum (“olhar para o norte”), promovida pelo presidente conservador Marco Fidel Suárez entre 1918 e 1921, postulava que a política externa colombiana deveria ser orientada principalmente para os Estados Unidos, tornando Washington o principal ponto de referência estratégico do país.

Essa orientação acabou gerando uma inércia política duradoura. Com o tempo, a relação privilegiada com os Estados Unidos tornou-se um dos pilares estruturais da política externa colombiana, suplantando os projetos de integração regional autônoma que haviam definido a visão de Bolívar no século XIX. Nesse contexto, uma elite política e econômica consolidou seu poder, encontrando nessa relação assimétrica uma forma eficaz de perpetuar sua influência, deixando como legado uma longa tradição de dependência geopolítica.

A família Valencia e a questão Cauca

Odepartamento de Cauca parece concentrar uma parcela significativa das tensões históricas do país atualmente. Não é coincidência que tanto Iván Cepeda quanto sua adversária política, Paloma Valencia, sejam originários dessa região do sudoeste da Colômbia, onde os sobrenomes funcionam quase como arquivos históricos. Em lugares como Popayán, a linhagem familiar ainda importa — e muito — para entender como o poder, a terra e a política foram distribuídos ao longo dos séculos.

O sobrenome Valencia traça uma genealogia que abrange diversos momentos cruciais da história colombiana: a economia escravista da era colonial, o conservadorismo aristocrático do século XX e as estratégias de contrainsurgência que definiram a Guerra Fria na América Latina. Paloma Valencia, atual senadora e figura proeminente do movimento político de Uribe, provém precisamente dessa linhagem. Sua família pertence aos clãs que dominaram a elite de Popayán durante séculos e estiveram ligados à mineração e à exploração de terras no litoral do Pacífico colombiano, sustentadas pelo trabalho escravo de africanos e indígenas.

As origens do poder dessa família remontam ao século XVIII, com Pedro Agustín de Valencia y Fernández del Castillo, o primeiro Conde da Casa Valencia em Popayán. Como membro da aristocracia colonial de Cauca, sua riqueza se baseava na posse simultânea de fazendas, minas de ouro e escravos. Seus domínios se estendiam por territórios próximos aos rios Yurumanguí, Cajambre e Naya, na costa do Pacífico, onde grupos de africanos escravizados eram forçados a trabalhar nas minas que impulsionavam o comércio colonial de ouro. Foi em torno dessas minas e fazendas que a família Valencia consolidou sua posição econômica e social, tornando-se uma das linhagens mais influentes da aristocracia de Popayán.

No início do século XX, emergiu outra figura-chave dessa mesma linhagem: Guillermo Valencia. Poeta modernista, líder do Partido Conservador e candidato à presidência em 1930, seu nome é geralmente lembrado mais por sua obra literária do que por sua influência política. Mas Guillermo Valencia representava um setor do conservadorismo colombiano que, nas décadas de 1930 e 1940, via com simpatia as correntes hispanistas e corporativistas expressas no regime de Francisco Franco e na doutrina da Falange Espanhola.

A continuidade do poder familiar foi então projetada em seu filho, Guillermo León Valencia, presidente da Colômbia entre 1962 e 1966. Seu governo coincidiu com um dos períodos mais intensos da Guerra Fria na América Latina, quando os Estados Unidos promoveram estratégias de contrainsurgência para conter a expansão dos movimentos guerrilheiros no continente. Foi nesse contexto que, em 1964, o governo lançou a ofensiva militar contra Marquetalia, um importante bastião da resistência armada camponesa.

A mobilização conhecida como Operação Marquetalia — oficialmente chamada de Operação Soberania — teve início em 18 de maio de 1964, por ordem do presidente Valencia. O exército colombiano mobilizou aproximadamente 16.000 soldados para atacar uma área habitada por cerca de 1.000 pessoas. Destas, apenas algumas dezenas de camponeses estavam armados, liderados pelo liberal Manuel Marulanda Vélez e pelo líder comunista Jacobo Arenas. Após a operação militar, esse pequeno grupo conseguiu se refugiar nas montanhas. Com o tempo, essa experiência formaria o núcleo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

A importância da candidata uribista Paloma Valencia, portanto, só pode ser compreendida ao situá-la no longo continuum histórico que se estende das minas de escravizados do Pacífico colonial às estratégias de contrainsurgência da Guerra Fria. Sua trajetória política ilustra como certas linhagens familiares conseguiram navegar por diferentes estágios do Estado colombiano, adaptando-se a cada contexto. Hoje não é diferente.

A história política de Cauca também ajuda a compreender a persistência dos conflitos na região. Deu origem a inúmeros movimentos organizacionais que desafiaram as estruturas tradicionais dos clãs escravistas, como o grupo guerrilheiro indígena que adotou o nome do líder do povo Nasa, Quintín Lame, ativo entre 1984 e 1991; a Primeira Frente das FARC; o Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC); e o Processo de Unidade Popular do Sudoeste da Colômbia (PUPSOC). Todas essas iniciativas, de diferentes maneiras, questionaram o legado colonial e as hierarquias raciais que ainda moldam a arquitetura urbana e a estrutura social de cidades como Popayán.

Em 16 de maio de 2015, Paloma Valencia propôs a divisão do departamento de Cauca em dois: um para os povos indígenas e outro para as populações mestiças. Para muitos setores sociais e indígenas da região, essa ideia evocou uma lógica de segregação territorial que lembrava o apartheid. Ao longo de sua carreira, a senadora defendeu posições extremistas em questões de segurança, apoiando políticas fortemente criticadas por organizações de direitos humanos, como o escândalo dos chamados “falsos positivos”, a perseguição a líderes de esquerda e os atentados a bomba que mataram menores em zonas de conflito.

Quilcué frente à Paloma bélica

Em contraste com a longa tradição oligárquica de Cauca, com clãs que concentraram o poder político e econômico por séculos, surge hoje uma figura que vem da mesma região, mas com uma história completamente diferente. Trata-se de Aida Marina Quilcué Vivas. Na última segunda-feira, 9 de março, um dia após as eleições legislativas, o candidato presidencial do Pacto Histórico, Iván Cepeda — filho do senador de Cauca e comunista Manuel Cepeda, assassinado em 1994 durante o extermínio da União Patriótica — anunciou que a atual senadora indígena seria sua companheira de chapa para a vice-presidência nas eleições de 31 de maio.

Com essa decisão, a campanha do Pacto Histórico busca projetar para o cenário presidencial líderes que emergiram de lutas sociais e territoriais, especialmente de comunidades que foram excluídas do poder estatal por séculos. Quilcué, de 53 anos, é hoje uma das vozes indígenas mais reconhecidas do país. Nascida na comunidade Nasa, na reserva Piçkwe Tha Fiw, em Cauca, sua trajetória está profundamente ligada ao movimento indígena colombiano. Ela participou de organizações importantes como o Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC) e a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), onde liderou mobilizações, processos de defesa territorial e propostas de paz elaboradas dentro das comunidades. Ela também foi uma das líderes que participaram dos diálogos com as antigas FARC e contribuiu para a redação do capítulo étnico do Acordo de Paz Final, assinado em 2016.

Em 2022, Aida Quilcué foi eleita para o Senado pela circunscrição especial indígena, com o apoio do Movimento Alternativa Indígena e Social (MAIS). Desde então, integra a Primeira Comissão, um dos órgãos legislativos mais influentes do Congresso, onde trabalha em questões relacionadas aos direitos humanos, à construção da paz e ao reconhecimento da jurisdição própria dos povos indígenas. Dois anos depois, em 2024, foi eleita presidente da Comissão Jurídica para a Paz e o Pós-Conflito, o que consolidou sua presença no bloco progressista alinhado ao governo de Gustavo Petro.

Sua trajetória política também é marcada por conflitos armados. Em 2008, seu marido, Edwin Legarda, foi assassinado por membros do exército na estrada entre Inzá e Popayán. O Estado colombiano acabou reconhecendo sua responsabilidade pelo crime e seis soldados foram condenados. Desde então, Quilcué vive sob constantes ameaças. Em 2022, sua equipe de segurança foi atacada a tiros e, em fevereiro, há poucas semanas, ela foi sequestrada em Cauca, de onde acabou sendo libertada graças à pressão e mobilização da Guarda Indígena.

Iván Cepeda apresentou sua candidatura como uma aliança em defesa dos direitos humanos, da paz e das lutas históricas dos povos indígenas. A liderança de Quilcué surge como expressão de uma longa tradição de resistência comunitária que enfrentou décadas de violência, racismo, desapropriação e exclusão de seus territórios.

As pedras de Sísifo

Os resultados das eleições de 8 de março apresentam um paradoxo difícil de ignorar. Por um lado, a esquerda obteve uma de suas conquistas mais significativas em toda a história republicana colombiana. Ao mesmo tempo, os resultados evidenciam a continuidade de uma dinâmica de poder fechada que, originada no Congresso, se estende a grande parte dos órgãos de controle do Estado, chegando a abranger a própria Comissão Nacional Eleitoral.

O CNE, criado em 1888 durante o período conhecido como Hegemonia Conservadora, é composto por magistrados eleitos pelo próprio Congresso. Em outras palavras, aqueles que controlam as maiorias parlamentares acabam influenciando diretamente a instituição responsável por fiscalizar as regras do processo eleitoral. Na prática, isso significa que o panorama político do Congresso se reflete quase automaticamente no CNE. Nos últimos anos, o órgão tem sido composto por figuras intimamente ligadas ao movimento político de Uribe, como Álvaro Hernán Prada, condenado por obstrução de justiça e suborno de testemunhas no caso contra o ex-presidente Álvaro Uribe, e o deputado César Lorduy, acusado de feminicídio e também ligado à mesma facção política.

Mas essa forma de reprodução do poder não se limita apenas à esfera eleitoral. Dinâmicas semelhantes podem ser observadas em outras instituições-chave do sistema político e judiciário colombiano, como o Conselho de Estado, os tribunais superiores, a Procuradoria-Geral da República, a Inspetoria-Geral da República e a Controladoria-Geral da República. Em conjunto, essas estruturas tendem a consolidar um clima institucional no qual as forças de direita conseguem estender sua influência para além do âmbito estritamente legislativo.

Outro elemento preocupante está relacionado às Cadeiras da Paz, criadas após os acordos de 2016 entre o Estado colombiano e as FARC com o objetivo de ampliar a representação política em áreas rurais afetadas pelo conflito. Em alguns casos, essas cadeiras acabaram nas mãos de figuras ligadas a famílias paramilitares (um dos exemplos mais controversos é o de Jorge Tovar, filho de Rodrigo Tovar Pupo, vulgo “Jorge 40”, um dos mais notórios perpetradores das AUC).

Diante dessa situação, corrigir o que muitos consideram um “sequestro institucional” exigiria uma profunda reforma política. No entanto, uma transformação dessa magnitude dificilmente seria aprovada pelo atual Congresso. Portanto, setores progressistas começam a considerar outra solução: lançar uma grande mobilização nacional para abrir caminho para uma assembleia constituinte. Para um possível governo liderado por Iván Cepeda, essa discussão poderia se tornar uma das tarefas políticas mais urgentes diante do persistente impasse dentro do sistema político.