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O Japão está se rearmando e abraçando o nacionalismo

Em meio a uma crescente onda de nacionalismo, o Japão está acelerando seu fortalecimento militar. De forma preocupante, enquanto o país abandona seu pacifismo pós-guerra, o governo também promove ideias revisionistas sobre as atrocidades que historicamente fundamentaram essa postura.

Por: Hamza Shehryar | Tradução: Pedro Silva| Crédito Foto: Akio Kon/Bloomberg via Getty Images.  O rápido processo de rearmamento do Japão é impulsionado pelo avanço das ideias de extrema-direita e nacionalistas no país.

Em 21 de abril, a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, anunciou oficialmente que o Japão havia suspendido uma proibição à exportação de armas letais que estava em vigor há décadas. A nova proposta abrange pelo menos dezessete países como potenciais compradores de caças, mísseis e navios de guerra japoneses.

A medida ocorre em um período de forte ascensão do militarismo. Apenas alguns dias antes, o Japão e a Austrália haviam assinado um acordo de US$ 7 bilhões para que a Mitsubishi Heavy Industries construísse onze navios de guerra para a Marinha Real Australiana. Na mesma semana, as Forças de Autodefesa do Japão (SDF) começaram a participar como combatentes nos exercícios Balikatan 2026, entre os EUA e as Filipinas, pela primeira vez, durante os quais testaram seu míssil superfície-navio Type-88, marcando a primeira vez que o Japão lançou uma arma ofensiva no exterior desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

O anúncio de Takaichi em 21 de abril também coincidiu com relatos de que ela havia enviado uma oferenda ritual ao Santuário Yasukuni, que homenageia japoneses mortos na guerra, incluindo mais de mil criminosos de guerra condenados da Segunda Guerra Mundial. Esse número inclui o ex-primeiro-ministro Tojo Hideki e o general Matsui Iwane, que ordenou explicitamente a seus soldados que realizassem execuções em massa de civis em Nanjing enquanto o Exército Imperial Japonês sitiava a cidade chinesa a partir de dezembro de 1937.

Esses são avanços alarmantes. O rápido rearmamento atual é impulsionado pelo avanço de ideias de extrema-direita e do sentimento nacionalista no país, que remetem ao militarismo etnonacionalista do Japão e à sua dominação do Leste Asiático, uma época de grande violência e brutalidade. Essas rápidas mudanças em relação ao pacifismo não sugerem um retorno aos horrores do Japão Imperial, mas são, no entanto, preocupantes, especialmente porque são alimentadas por correntes reacionárias em ascensão e pelo revisionismo histórico.

Mudanças de políticas e “capacidade de contra-ataque”

Essas mudanças são apenas os passos mais recentes em uma série de desdobramentos que sustentam uma transformação estrutural. No final de março, o Japão implantou mísseis de longo alcance na província de Kumamoto, na costa sudoeste da ilha, sistemas capazes, pela primeira vez, de atingir a China continental. Isso não é uma postura defensiva no sentido convencional, mas sim um reflexo de uma reorientação estratégica na qual Pequim, desde 2019, foi identificada como a principal ameaça à segurança nacional de Tóquio, ultrapassando Pyongyang e Moscou. O resultado é uma militarização constante do arquipélago sudoeste do Japão, de Okinawa a Kyushu, onde novas bases e instalações de mísseis estão sendo construídas, apesar da persistente oposição local.

“A doutrina de defesa japonesa, em constante evolução, foi formalizada como parte de uma ‘capacidade de contra-ataque’ definida de forma vaga.”

A Constituição japonesa do pós-guerra proíbe e renuncia formalmente à capacidade do país de travar guerras. No entanto, a doutrina de defesa japonesa, em constante evolução, foi formalizada como parte de uma “capacidade de contra-ataque” definida de forma vaga. O que, em teoria, é um direito limitado de resposta em caso de ataque, na prática é essencialmente indistinguível da estrutura de qualquer força militar convencional. Isso distorce o significado de autodefesa a ponto de torná-lo irreconhecível.

Sob o arcabouço legal em expansão estabelecido por sucessivos governos do Partido Liberal Democrático, o Japão agora pode intervir militarmente em nome da “autodefesa coletiva”, mesmo quando não é atacado diretamente, desde que um aliado seja considerado sob ameaça existencial. Novamente, não há uma definição rígida do que constitui uma ameaça existencial, o que permite ao Japão interpretar praticamente qualquer coisa como tal. É uma formulação suficientemente elástica para acomodar quase qualquer contingência e vaga o bastante para incitar uma escalada.

Interpretações geopoliticamente convenientes do Artigo 9 da Constituição japonesa, que o governo de direita de Takaichi deseja revisar formalmente, não são novidade. A própria existência das SDF, estabelecidas em 1954, e sua expansão desde então, dependem de uma série de cuidadosas reinterpretações e contorções legais que permitiram ao Estado manter o que é, na prática, um exército moderno sob uma Constituição que o proíbe explicitamente.

As SDF — legalmente classificadas como “funcionários especiais do governo nacional” — foram convertidas, ao longo das últimas três décadas, de uma instituição predominantemente simbólica e humanitária em uma força militar operacional abrangente. Um ponto de virada ocorreu após a Guerra do Golfo, quando a incapacidade do Japão de fornecer apoio militar direto à coalizão liderada pelos EUA foi amplamente percebida pelas elites políticas como uma humilhação nacional. Desde então, cada crise subsequente — testes de mísseis norte-coreanos, disputas marítimas no Mar da China Oriental, crescentes tensões sobre Taiwan, etc. — tem sido usada para expandir gradualmente o escopo das ações das SDF e os locais onde elas podem atuar.

Takaichi já descreveu um hipotético ataque chinês a Taiwan como uma potencial “crise existencial” para o Japão. Essa interpretação permitiria a intervenção militar sob a legislação de segurança vigente, apesar da ausência de qualquer ataque direto ao território japonês. Agora, esses contorcionismos legais estão sendo ativamente padronizados em favor da expansão formal.

Nada disso ocorre isoladamente. O rearmamento do Japão — a aquisição de centenas de mísseis Tomahawk fabricados nos EUA , o aumento dos gastos com defesa a níveis recordes e, agora, a suspensão das restrições à exportação de armas letais — está se desenrolando em estreita sintonia com as prioridades estratégicas dos Estados Unidos, cujos esforços para conter a China têm dependido cada vez mais da remilitarização de aliados regionais. Mas as consequências desse alinhamento são de responsabilidade exclusiva do Japão. E, à medida que o país se distancia das restrições que outrora definiram sua identidade no pós-guerra, o faz sem jamais ter refletido completamente sobre a última vez em que trilhou um caminho semelhante.

Violência imperial

Para compreender a importância da trajetória atual do Japão, é necessário confrontar a escala e a natureza do seu passado. Entre 1931 e 1945, a expansão do Império Japonês pela Ásia Oriental foi marcada por uma brutalidade sistemática que deixou milhões de mortos na China, Coreia e outros países. As estimativas variam, mas mesmo as mais conservadoras sugerem que muitos milhões de civis foram mortos. No entanto, o que distingue essa história não é apenas a sua escala, mas as formas que a violência assumiu.

“Nas últimas três décadas, as forças armadas do Japão foram convertidas de uma instituição predominantemente simbólica e humanitária em uma força militar operacional abrangente.”

A crueldade do Exército Imperial Japonês é bem ilustrada pelo Massacre de Nanjing. Em dezembro de 1937, quando as forças japonesas capturaram a capital chinesa, os soldados iniciaram uma campanha de assassinatos, estupros e destruição que durou semanas. Entre 100.000 e 300.000 civis foram assassinados em apenas seis semanas. As estimativas mais altas sugerem que quase todos que não conseguiram entrar na Zona de Segurança de Nanjing, uma área desmilitarizada criada por um grupo de empresários, missionários e jornalistas, foram mortos. Dezenas de milhares de mulheres foram estupradas. Bairros inteiros foram esvaziados por meio de execuções em massa, muitas vezes por esporte, com os corpos deixados para apodrecer nas ruas.

Esses atos não foram os excessos caóticos de tropas indisciplinadas, mas sim ações realizadas sistematicamente com o conhecimento e o incentivo de oficiais comandantes como o General Matsui Iwane, homenageado no Santuário Yasukuni. A magnitude e a brutalidade dessa violência são exploradas em detalhes meticulosos e angustiantes pela falecida Iris Chang em seu poderoso e comovente livro The rape of Nanking [O Estupro de Nanjing]. Embora talvez o mais bem documentado dos massacres japoneses na China durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, o Massacre de Nanjing foi apenas um entre muitos.

De forma semelhante, a Unidade 731 expôs a profundidade da desumanização que definia o Japão Imperial. Estabelecida em meados da década de 1930 sob a liderança de Shirō Ishii, a unidade conduziu experimentos biológicos e químicos em milhares de prisioneiros, a maioria civis chineses. As vítimas foram infectadas com peste e cólera, submetidas a vivissecção sem anestesia, congeladas, desmembradas e usadas em testes de armas. Crianças nascidas em cativeiro também não foram poupadas. Embora o número exato de vítimas permaneça incerto, a escala do sofrimento e o apoio institucional a ele colocam a Unidade 731 entre os programas de experimentos humanos mais grotescos da história moderna. Shirō Ishii recebeu do governo dos EUA em 1948 imunidade contra processos por crimes de guerra em troca de dados detalhados dos experimentos humanos da Unidade 731, que os Estados Unidos, na época, consideraram inestimáveis ​​para seu próprio programa de guerra biológica. Ele morreu como um homem livre em 1959, em Tóquio.

Paralelamente a esses atos, existia um sistema organizado de escravidão sexual eufemisticamente chamado de “mulheres de conforto”. Nos territórios ocupados, estima-se que dezenas a centenas de milhares de mulheres, principalmente da Coreia, China e Filipinas, foram coagidas, traficadas e aprisionadas em bordéis militares, onde eram submetidas à violência física e sexual por soldados japoneses. Durante décadas, os testemunhos das sobreviventes foram negados, minimizados ou completamente ignorados pelo Estado japonês. Mesmo hoje, alguns políticos nacionalistas e grupos revisionistas continuam a contestar a própria existência dessas vítimas do tráfico imperial.

As atitudes que permitiram o Massacre de Nanjing, os experimentos humanos da Unidade 731 ou a escravização sexual sistemática em massa de mulheres faziam parte de um projeto imperial mais amplo que tratava populações inteiras como descartáveis. E, no entanto, apesar da enormidade desses crimes, o acerto de contas do Japão com esse passado permaneceu parcial e, por vezes, deliberadamente obscurecido.

Impunidade da Guerra Fria

Após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, a responsabilização nunca foi devidamente conduzida. Embora o Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente tenha processado vários oficiais de alta patente, o processo foi deliberadamente parcial. Com o acirramento das tensões iniciais da Guerra Fria, os Estados Unidos mudaram suas prioridades da justiça para a contenção. Como resultado, o Japão, que até pouco tempo atrás fora um agressor imperial, acabou rapidamente transformado em um aliado estratégico no Leste Asiático — um baluarte contra o comunismo e, cada vez mais, contra a China.

A dinâmica política diluiu ainda mais a possibilidade de um acerto de contas. Nos anos que se seguiram à rendição do Japão, tanto a República Popular da China quanto a República da China estavam envolvidas em uma luta por legitimidade internacional, cada uma buscando reconhecimento como a única representante da China. Nesse contexto, as relações chinesas com o Japão assumiram uma nova importância estratégica, e a busca por reparações substanciais ou por um confronto prolongado corria o risco de comprometer os objetivos diplomáticos. Portanto, mesmo que os horrores da ocupação japonesa nunca tenham desaparecido da consciência nacional, as demandas foram atenuadas, adiadas ou rejeitadas.

O resultado dessa ordem pós-guerra, na qual o Japão não foi totalmente absolvido nem responsabilizado de forma significativa, foi um contexto em que o reconhecimento das atrocidades cometidas durante a guerra se tornou inconsistente. E foi nesse espaço que um tipo diferente de transformação também começou a se consolidar.

Soft powere amnésia histórica

Nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, o Japão teve, em muitos aspectos, a oportunidade de reformular sua história. À medida que a dinâmica da Guerra Fria estabilizava sua posição dentro do bloco ocidental, uma transformação paralela ocorreu no nível de sua imagem e da percepção estrangeira. O Japão que emergiu no imaginário global não era mais uma potência imperial definida pela conquista, mas sim um case de sucesso do pós-guerra.

“Após a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial, a responsabilização nunca foi devidamente conduzida.”

Fundamental para essa mudança foi a ascensão da exportação de produtos culturais como soft power. Através da disseminação global de animes, mangás, videogames e toda uma economia estética, o Japão cultivou uma imagem de acessibilidade e criatividade que se mostrou enormemente eficaz, particularmente no Ocidente. Para a maior parte do mundo, o Japão agora se apresenta menos como um antigo agressor do que como um centro de inovação e produção cultural. Nessa representação pixelizada, a história foi relegada às margens da consciência global por um fluxo constante de imagens mais palatáveis.

Da mesma forma, para muitos, a história do Japão na Segunda Guerra Mundial se limita aos ataques a Pearl Harbor e aos crimes indefensáveis ​​do lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, que eclipsaram completamente os horrores cometidos pelo Japão no Sudeste Asiático e no Pacífico.

Essa flexibilização não se limita ao público internacional. Dentro do próprio Japão, facções de direita há muito pressionam por revisões nos livros didáticos para minimizar ou omitir as atrocidades cometidas pelo país durante a guerra. E, à medida que o passado é contestado ou relativizado internamente, torna-se mais fácil para ele desaparecer no exterior.

Rearmamento sem preocupações

Odesmantelamento gradual do pacifismo japonês ocorre em um clima político cada vez mais moldado pelo nacionalismo, pelo revisionismo histórico e por uma crescente hostilidade em relação à China. Sob o governo de Takaichi e do Partido Liberal Democrático, que dominou o país por muito tempo, essa mudança tem sido tanto ideológica quanto material: uma reafirmação do poder militar aliada a uma narrativa que enquadra a China não apenas como rival, mas como uma ameaça existencial. Essa retórica normaliza a expansão, justifica a reinterpretação de leis e cultiva uma atmosfera pública na qual o confronto parece inevitável.

Nos últimos anos, as correntes etnonacionalistas também se tornaram mais visíveis e confiantes. O partido de extrema-direita Sanseitō, liderado por Sohei Kamiya, ganhou terreno. Nas eleições de 2026, em que a segurança nacional e a imigração foram temas centrais, o partido mais que dobrou sua porcentagem de votos, tornando-se o quinto maior partido político do Japão, defendendo posições abertamente revisionistas e negando atrocidades como o Massacre de Nanjing, enquanto promove um nacionalismo do tipo “O Japão em primeiro lugar” enraizado na exclusão e no apagamento histórico.

Ao mesmo tempo, as fronteiras entre a retórica e a ação também se tornam cada vez mais tênues. Em março deste ano, um homem que alegava ser membro ativo das SDF invadiu a embaixada chinesa em Tóquio, ameaçando matar diplomatas “em nome de Deus”. Esse incidente surgiu em um contexto mais amplo no qual o militarismo é reabilitado e a linguagem da luta existencial contra um inimigo chinês se torna cada vez mais comum.

Tudo isso ocorre menos de um século após o colapso do projeto imperial japonês — um período marcado por alguns dos crimes mais brutais do século XX e que, como a história demonstra, nunca foi totalmente resolvido. Hoje, enquanto o Japão expande sua capacidade militar, flexibiliza restrições de longa data e se alinha cada vez mais às prioridades estratégicas dos EUA, ele o faz não como uma nação que confrontou seu passado, mas como uma que, de muitas maneiras, o contornou.

A distância entre o passado e o presente nunca é tão grande quanto parece. À medida que o Japão se aproxima novamente de um papel militar mais assertivo na região, a questão não é se a história se repetirá de forma idêntica, mas se as condições que outrora tornaram possível tal violência estão gradualmente retornando.

 

 

Publicado originalmente em: https://jacobin.com.br/2026/06/o-japao-esta-se-rearmando-e-abracando-o-nacionalismo/