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Como o partido da esquerda socialista mudou seu rumo na Alemanha

Os co-presidentes do Die Linke Ines Schwerdtner e Jan van Aken detalham quais foram as estratégias para o partido crescer e superar as expectativas nas eleições alemãs.

Por: Ines Schwerdtner e Jan van Aken | Tradução: Fundação Rosa Luxemburgo| Crédito Foto: Reprodução Wikimedia Commons. Ines Schwerdtner e Jan van Aken

Quando anunciamos nossa candidatura à presidência do partido Die Linke no último verão, a situação parecia desafiadora: a Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) havia se separado do partido, e nós caminhávamos mancando para as eleições estaduais no leste da Alemanha. No último domingo, apenas seis meses depois, conquistamos quase 8,8% dos votos nas eleições federais. Isso não foi coincidência.

O congresso do partido em Halle já sinalizava o início de uma transformação. O clima estava ótimo e se vislumbrava um novo começo, ainda que tímido e, inicialmente, apenas em nível local. Com o fim do governo de coalizão e o anúncio de eleições antecipadas, nos vimos repentinamente em plena campanha eleitoral. Encontramos um partido mais unido e disciplinado do que havia sido há muito tempo. A “amizade revolucionária” se espalhou, acompanhada de bom humor e muita energia.

Não há dúvida de que as circunstâncias favoráveis desempenharam um papel na recuperação do partido Die Linke, mas, acima de tudo, esse resultado foi fruto de um processo estratégico bem pensado dentro do partido, um processo que começou muito antes de nossa chegada à presidência e que nos deu a capacidade de responder com flexibilidade à constante mudança do cenário social. Gostaríamos de destacar os fatores que consideramos decisivos nesse contexto.

Em outubro, fomos eleitos líderes do partido Die Linke. Naquele momento, o mesmo mal chegava a 3% nas pesquisas. Duas semanas e meia depois, a “coalizão semáforo” desmoronou, e as eleições gerais, previstas para ocorrer em menos de um ano, foram repentinamente antecipadas para apenas quatro meses.

A princípio, a mudança parecia impossível. Mas enquanto a mídia já nos dava como mortos, em nossas conversas com as seções locais de toda a Alemanha percebemos que o partido havia recuperado a vida. No início, quase ninguém acreditava quando dizíamos que Die Linke estava vivo. No entanto, foram feitos alguns ajustes cruciais e lançadas as bases para um novo começo.

O contexto social dessa campanha eleitoral naturalmente desempenhou um papel: muitas pessoas, especialmente jovens, estavam frustradas e desiludidas após três anos de governo de coalizão. O pacto de Friedrich Merz com a Alternative für Deutschland (AfD) revitalizou o movimento contra a direita, e Die Linke foi a única força que se manteve firme. Como resultado, passamos a representar a esperança de uma alternativa solidária para muitos. No entanto, isso só foi possível porque, como partido, tomamos as decisões corretas nos meses anteriores.

A receita para a revitalização

Afórmula para o bem-sucedido ressurgimento do partido Die Linke nos últimos meses pode ser resumida da seguinte forma: como partido, conseguimos chegar a um consenso sobre um plano estratégico comum e demos passos importantes na reconstrução do partido e no trabalho organizacional em um curto período de tempo. Com um projeto conjunto (a campanha pré-eleitoral), conseguimos, por um lado, estabelecer estruturas eficazes para maximizar nossa atividade nos poucos meses disponíveis. Por outro lado, conseguimos um verdadeiro contato com nossos (potenciais) eleitores. Ao focarmos em reivindicações muito concretas e realistas, como o controle do aluguel, a eliminação do imposto sobre vendas de alimentos básicos e um imposto sobre fortunas, conseguimos reconstruir nosso perfil como oposição social.

Por meio de uma estratégia de comunicação com mensagens claras de “nós contra eles”, colocamos em evidência o que une a classe trabalhadora e deixamos claro o que defendemos e para quem fazemos política como Die Linke. Além disso, demonstramos que não apenas falamos, mas agimos, com ferramentas concretas como a calculadora de alugueis abusivos ou nossa comparação dos custos de aquecimento. E, por fim, mas não menos importante, pela primeira vez em anos, apresentamos uma frente unida ao público e estávamos nos divertindo!

Dez ingredientes para o sucesso

  1. Recrutamento de novos ativistas e fortalecimento das seções locais. Após anos de disputas entre facções, nossas estruturas estavam esgotadas. Uma campanha no outono de 2023 recrutou milhares de novos membros, que reorganizaram suas seções e se tornaram ativistas de base. O fator decisivo foi a colaboração entre veteranos e novos membros.
  2. A maior campanha de organização da história do partido. A “Roteiro25” guiou a pré-campanha eleitoral, incluindo uma massiva pesquisa porta a porta. Visitamos 638.123 casas no dia das eleições, a maior mobilização de Die Linke até hoje.
  3. Gerar impacto concreto. Iniciativas como a calculadora de aluguel abusivo e reuniões de inquilinos trouxeram benefícios reais e ajudaram a conectar o partido com as pessoas.
  4. Foco nos temas centrais. Priorizar questões como controle de aluguel, preços altos e impostos sobre grandes fortunas ajudou a reconstruir um perfil claro para o partido.
  5. “Nós aqui embaixo contra eles lá em cima.” Colocamos a luta de classes no centro da campanha, deixando claro quem são nossos aliados e nossos adversários.
  6. Comunicação clara e acessível. Desenvolvemos uma narrativa comum e eliminamos discursos excessivamente complexos e moralistas.
  7. Presença forte nas redes sociais. Profissionalizamos nossa atuação digital, com mensagens segmentadas que ampliaram nossa visibilidade, especialmente entre os jovens.
  8. Adaptabilidade. Mantivemos objetivos claros, mas testamos abordagens e seguimos com as que davam certo, permitindo flexibilidade na campanha.
  9. Postura firme. Mantivemos nossos princípios mesmo diante do avanço da direita, tornando-nos um ponto de esperança para muitos.
  10. Nova coesão interna. O partido voltou a se comportar como um time, substituindo frustrações e disputas pelo espírito de cooperação e engajamento.

Seguimos em frente

Claro, o partido ainda precisa de muito trabalho. Claro, também cometemos erros e, claro, há grandes tarefas pela frente. Mas nós, como partido, alcançamos muito nos últimos meses — e estamos incrivelmente orgulhosos disso. Estamos orgulhosos dos passos que demos juntos e de cada camarada — e aqueles que poderiam se tornar camaradas — que contribuíram. Este é apenas o começo.

O partido Die Linke não entrou na eleição federal simplesmente para obter um bom resultado — queremos mudar esta sociedade. Muitas pessoas depositaram suas esperanças em nós novamente nas últimas semanas e deram ao Die Linke uma segunda chance. Estamos determinados a não decepcioná-los. Isso significa continuar no caminho que tomamos, reconstruir o Die Linke e transformá-lo em uma força que pode mudar as coisas para melhor. Vemos isso como nossa missão, e é uma que não trocaríamos por nada.

 

Publicado originalmente em: https://jacobin.com.br/2025/02/como-o-partido-da-esquerda-socialista-mudou-seu-rumo-na-alemanha/

 

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