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Trump vai à China em busca de trunfo eleitoral e acordo

Sob pressão eleitoral para pleito de meio de mandato, republicano faz visita decisiva a Pequim por avanços em temas como tarifas, Taiwan e Irã. Acordos, mesmo que modestos, podem ter impacto global.

Por: Dang Yuan com AFP | Crédito Foto: picture-alliance/AP/TopPhoto. Trump foi recebido com grande cerimonial em visita de 2017

O presidente dos EUA, Donald Trump, viaja à China nesta quarta-feira (13/05) para a primeira visita de um chefe de Estado americano ao país asiático em quase dez anos — antecedida apenas por sua própria estadia anterior, em 2017. O encontro, remarcado após cancelamento em abril, é tratado como decisivo por ambos os governos. O republicano disse esperar um “grande abraço apertado” de seu homólogo chinês, Xi Jinping, quando se encontrarem em Pequim.

Dado o peso das duas economias, qualquer sinal de acordo entre os líderes tende a ter impacto global. Ambos querem apresentar resultados à própria população sem perder capital político. Para Trump, o desfecho também tem relevância eleitoral: seu partido disputa eleições legislativas em novembro, que podem ampliar ou reverter a estreita maioria que possui nas duas Casas. No mesmo dia, haverá ainda eleições para governador em 36 estados e três territórios.

Contudo, poucos esperam avanços significativos nas fricções históricas entre China e EUA, que vão da competição tecnológica e tarifária à delicada questão de Taiwan, cujo principal aliado é Washington. Terras raras e a guerra no Irã também estão entre os temas contenciosos que devem ser discutidos pelos dois líderes, cujos estilos de comunicação dificilmente poderiam ser mais distintos.

Acordos modestos com impacto global

A postura frequentemente bombástica e imprevisível de Trump no cenário internacional contrasta com a abordagem cautelosa e reservada de Xi.

Trump aposta na capacidade chinesa de anunciar avanços. Pequim, por sua vez, não quer expor seu presidente, no poder há 13 anos, a um fracasso diplomático. O resultado deve ser modesto. No último breve encontro entre os dois, à margem de uma cúpula regional na Coreia do Sul, em outubro, houve uma trégua de um ano na guerra comercial.

Apesar das diferenças, o Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou, na segunda-feira, que considera a diplomacia entre os líderes como tendo um papel estratégico “insubstituível” nas relações entre China e Estados Unidos.

Neste ano, porém, o republicano deve ser recebido com menos pompa do que em sua primeira visita, em 2017, quando os chineses lhe ofereceram tratamento de “visita de Estado-plus”.

A viagem de 2026 deve incluir uma visita ao Templo do Céu e um banquete de Estado, mas analistas avaliam que o cerimonial não será muito diferente daquele oferecido a outros convidados estrangeiros, como o presidente russo, Vladimir Putin, e o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

Ainda assim, Trump precisa levar propostas claras, mesmo que impopulares, que consiga justificar à opinião pública americana. “Trump precisa urgentemente de notícias positivas na frente da política externa”, afirma Chu Yin, cientista político do think tank Pangoal, em Pequim.

“Os índices de aprovação de Trump estão no fundo do poço antes das eleições de meio de mandato, em novembro. O plano de derrotar rapidamente o aliado da China, o Irã, com ataques militares iniciais, celebrar uma vitória em Pequim e usá-la como moeda de negociação aparentemente não deu certo”, diz Chu.

Segundo ele, Trump agora precisa apostar ao menos em uma solução parcial para a guerra comercial em torno das tarifas punitivas. Antes do encontro, negociadores dos dois países já negociavam um acordo em Seul.

Taiwan como linha vermelha

Para Pequim, o status jurídico de Taiwan é a principal linha vermelha nas relações com os EUA. A China considera Taiwan uma província rebelde da República Popular da China, proclamada por Mao Tsé-tung em 1949.

Na interpretação chinesa, essa república não pode existir como Estado soberano, assim como a designação de Taiwan como país independente. Existe apenas uma China, da qual Taiwan faz parte, e a República Popular é o único governo legítimo. Esse tripé forma o “princípio de Uma Só China”, base de qualquer relação diplomática com Pequim.

No Comunicado de Xangai de 1972, um dos documentos que fundamentam a retomada das relações diplomáticas entre EUA e China, Washington apenas “tomou conhecimento” desse princípio. Ainda assim, a Lei de Relações com Taiwan, de 1979, autoriza os EUA a fornecer armas defensivas à ilha e a se opor a qualquer uso da força que ameace sua segurança ou sistema social e econômico.

Durante o segundo mandato de Trump, Taiwan já encomendou, desde 2025, sistemas de armas no valor recorde de 11,1 bilhões de dólares a empresas americanas. Na última sexta-feira, o Parlamento taiwanês aprovou uma lei para novas aquisições. Até 2033, a ilha pretende comprar até 25 bilhões de dólares adicionais em armamentos dos EUA.

Pequim avalia que Trump tem ampla margem de manobra dentro do arcabouço legal americano e deve usar todos os meios para pressioná-lo a fazer uma declaração favorável à China sobre Taiwan.

Guerra do Irã e guerra da Ucrânia

Nesse esforço, a China pode usar seu peso no cenário internacional para afastar Trump de eventuais encomendas bilionárias de Taiwan. “Os EUA precisam do apoio chinês na guerra contra o Irã”, afirma Peter Qiu, fundador do Center for Globalization Hong Kong. Pequim também tem papel-chave em uma possível saída para a guerra da Rússia contra a Ucrânia. O presidente russo, Vladimir Putin, deve visitar Pequim até junho.

Em ambos os conflitos, a China não é parte beligerante e afirma cumprir rigorosamente as sanções da ONU. Ainda assim, atua nos bastidores, com negociações intensas com Teerã e Moscou. Na semana passada, o chanceler iraniano, Abbas Aragchi, esteve em Pequim. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, alertou que a guerra no Irã pode afetar gravemente a paz regional e global, ao mesmo tempo em que reiterou o apoio ao uso pacífico da energia nuclear para fins civis.

Wang também defendeu que “todas as partes envolvidas respondam à expectativa da comunidade internacional de garantir a navegação segura pelo Estreito de Ormuz”. Pequim vê os EUA como corresponsáveis, já que Washington bloqueou temporariamente o acesso ao Golfo Pérsico. Há três semanas, vigora um cessar-fogo frágil entre Irã e EUA, além de Israel.

Donald Trump e Xi Jinping
Com estilos diferentes, os dois líderes almejam resultados decisivos. Foto: Andrew Harnik/Getty Images

“Espero que os chineses transmitam essa mensagem ao Irã”, disse o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, referindo-se ao risco de bloqueio do estreito. “Seja a portas fechadas ou de forma direta.”

Segundo Rubio, é do interesse da China, “como economia voltada à exportação”, que o Irã não volte a fechar a rota. “O Irã não pode lançar minas. Não pode fazer a economia mundial refém”, afirmou na semana passada, em coletiva na Casa Branca.

Ainda não está claro se Rubio acompanhará Trump a Pequim. Por declarações críticas sobre direitos humanos em Hong Kong e na região uigur de Xinjiang, feitas quando era senador pela Flórida, ele segue na lista de sanções chinesas, com proibição de entrada no país.

Solução parcial na guerra comercial?

A mensagem de Trump à liderança chinesa é direta: o mundo não pode comprar apenas produtos chineses, e a China deve ampliar a compra de produtos americanos para reduzir o superávit comercial. Há um ano, Trump impôs tarifas punitivas a produtos chineses. Algumas foram suspensas na última trégua, mas até agora não houve acordo relevante com mudanças estruturais.

Apesar das tarifas, a China registrou em 2025 um superávit de quase 202 bilhões de dólares com os EUA, segundo o US Census Bureau. “A China está disposta a comprar produtos americanos”, diz Qiu. “Mas quer contrapartidas, como a flexibilização da proibição à exportação de chips avançados de inteligência artificial.”

Os EUA mantêm controles rigorosos sobre a venda desses semicondutores de alto desempenho, essenciais para aprendizado de máquina. A China tenta desenvolver a tecnologia, mas enfrenta avanços lentos após as restrições americanas. Ao mesmo tempo, tem um novo requisito de licença de exportação para terras raras, que pode ser apertado a qualquer momento. “No fim, espero algo como um grande acordo, envolvendo interesses estratégicos das duas potências”, afirma Qiu.

Segundo ele, durante a visita de Putin a Pequim, a China também discutirá condições para o fim da guerra na Ucrânia — outro ponto de interesse para Trump. No fim de semana, Moscou sinalizou distensão: após o desfile que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial, Putin afirmou que o conflito estaria se aproximando do fim, sem dar detalhes.

 

 

 

Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/trump-vai-%C3%A0-china-em-busca-de-trunfo-eleitoral-e-acordo-comercial/a-77130834