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Para os trabalhadores romanos, a vida era desagradável, brutal e curta

Nosso imaginário sobre o Império Romano é dominado pelos monumentos e estilos de vida das ricas elites urbanas. Um novo e importante livro chama nossa atenção para os 90% restantes da população de Roma, cujo trabalho brutalmente explorado tornou tudo isso possível.

Por: Paolo Tedesco | Tradução: Pedro Silva| Crédito Foto: DeAgostini / Getty Images. Em seu livro Surviving Rome, Kim Bowes nos oferece um retrato magnífico e revelador da classe trabalhadora do Império Romano, de como viviam e o que passavam para gerar a riqueza que se acumulava para uma elite social privilegiada.

Aimagem que temos de Roma, com suas infraestruturas eficientes e obras arquitetônicas esplêndidas, está inextricavelmente ligada aos nomes dos imperadores, generais e senadores ricos que ordenaram (e pagaram por) sua construção e administração. Nesse contexto, a complexidade econômica do Império Romano parece ser o resultado da ação de alguns homens poderosos e ricos que comandavam uma multidão de trabalhadores anônimos.

Não é coincidência que a representação mais eficaz do dinamismo econômico romano seja a propriedade fundiária centralizada. No mundo romano, a maneira mais fácil de maximizar a produção e as trocas era através da exploração, por parte do empregador, das pessoas que realizavam o trabalho, fossem elas trabalhadores livres ou escravizados. Dessa perspectiva, qualquer forma de desigualdade criada pelo sistema romano era a consequência natural de sua economia inerentemente pré-capitalista.

Surviving Rome nos oferece uma visão muito diferente da vida econômica de Roma. O livro muda o foco dos indicadores macroeconômicos de crescimento para as pessoas comuns, mostrando-nos como elas realmente viviam, trabalhavam e morriam durante os quatro séculos que separam o período da República Tardia (século I a.C.) do Império Médio (século III d.C.). Não narra a macro-história da ascensão e queda econômica do império, mas nos apresenta muitas micro-histórias de camponeses e escravos — homens, mulheres e seus filhos — que precisavam lutar para sobreviver em um mundo difícil e complexo como agricultores, pastores, fiandeiros, oleiros ou comerciantes ocasionais.

O livro de Kim Bowes não é uma história sobre pessoas prósperas e felizes. Pelo contrário, descreve a vida de romanos trabalhadores que produziam e consumiam uma enorme variedade de bens, contribuindo para um sistema econômico opressivo que forçava a maioria da população a aumentar a produção para lidar com as pressões do consumo compulsivo e o consequente endividamento. Suas condições sociais refletem muitos aspectos da experiência das classes trabalhadoras sob o capitalismo contemporâneo.

História vista de baixo

Kim Bowes é uma arqueóloga estadunidense e atualmente professora de estudos clássicos na Universidade da Pensilvânia. Ela é uma renomada especialista nas áreas de cultura material e economia do mundo romano. Possui um extensivo registro de publicações sobre habitação, o significado social do dinheiro, dívida e poupança, bem como sobre inúmeros aspectos da vida cotidiana no mundo antigo. Bowes tem um grande interesse acadêmico pelos pobres, especialmente os pobres rurais.

Entre 2009 e 2014, ela dirigiu o primeiro estudo arqueológico sistemático já realizado sobre camponeses romanos. The roman peasant project, 2009–2014: Excavating the roman rural poor [O projeto camponês romano, 2009–2014: Desenterrando os pobres rurais romanos], examina dados arqueológicos de sítios rurais de pequenos agricultores no sul da Toscana para revelar como os camponeses locais organizavam suas moradias, dieta, fazendas e estratégias agrícolas, incluindo a mobilidade da mão de obra e as transações de mercado.

“Os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam a zona rural romana através de sítios especializados dispersos por toda a paisagem rural.”

Os resultados sugerem que os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam o campo por meio de sítios especializados dispersos pela paisagem rural. Esse padrão de “habitações distribuídas” permitiu que os camponeses se estabelecessem no território e maximizassem o uso de diversas parcelas de terra. A agricultura não se limitava à colheita de cereais para subsistência: na verdade, os camponeses intensificaram sua produção agrícola integrando a rotação de culturas de cereais e leguminosas com investimentos relevantes na pecuária. Os animais eram usados ​​para arar a terra, mas também se tornaram um componente essencial da dieta camponesa em seus últimos anos de vida.

Esses diversos níveis de consumo, com cereais, vegetais, frutas e carne fazendo parte da dieta, reforçam a ideia de que o campo não produzia apenas para a cidade consumidora parasitária, onde as elites geralmente residiam e investiam sua riqueza acumulada. Ele também constituía, por si só, um importante reservatório de demanda agregada rural.

Os dados obtidos nas escavações mostram que a cidade e o campo não mantinham uma relação de dependência rígida. Ao contrário, estavam unificados em complexas redes de produção e consumo de diversos tipos de bens, incluindo cerâmica, vidro, couro e têxteis. A mão de obra circulava livremente entre diferentes locais, com os camponeses deslocando-se diariamente de suas moradias rurais para seus campos dispersos. Ocasionalmente, também se deslocavam para mercados rurais e urbanos próximos, onde vendiam suas colheitas em troca de dinheiro, que podia ser usado para comprar alimentos que não produziam diretamente, bem como cerâmica e produtos artesanais.

O projeto liderado por Bowes propõe uma visão flexível e economicamente orientada dos camponeses que povoavam o campo romano. Esses camponeses apresentavam um alto grau de diferenciação social e consumiam uma dieta potencialmente diversificada, que incluía proteínas. Sua organização agrícola baseava-se em vários tipos de posse de terra e um regime de trabalho misto que envolvia todos os membros da família. As trocas ocorriam em uma economia monetizada, com livre acesso e intervenção nos mercados externos.

Do campo à teoria econômica

Após a publicação de The roman peasant project, Bowes publicou um importante ensaio teórico que critica duramente as abordagens cliométricas ao estudo da economia romana. Em When Kuznets went to Rome [Quando Kuznets foi a Roma], ela argumenta que os estudos macroeconômicos que buscam reconstruir o PIB agregado ou per capita, os índices de desigualdade ou os níveis salariais não revelam o real bem-estar econômico da população romana (ou dos trabalhadores em geral antes da Revolução Industrial).

Como esses estudos partem do pressuposto de níveis de consumo de subsistência inalteráveis, eles demonstram teleologicamente a natureza relativamente estacionária de todas as economias pré-modernas (incluindo a romana) quando comparadas ao crescimento impulsionado pela industrialização. Em essência, reiteram ideologicamente o paradigma histórico dominante do crescimento progressivo como principal motor econômico de qualquer sociedade histórica, aplicando, assim, retrospectivamente uma dinâmica política contemporânea ao passado.

Como Bowes insiste, os números do crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos, assim como não revelam as condições reais da classe trabalhadora da época. Essas formas de macrodados simplesmente reiteram a teleologia metahistórica de “ascensão e declínio” na linguagem aparentemente mais neutra e aceitável da economia.

“Os números de crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos.”

Para corrigir essa narrativa simplista, Bowes propõe examinar o consumo real em nível domiciliar. Essa mudança permite aos estudiosos demonstrar que, no mundo pré-moderno, a maioria da população trabalhadora possuía múltiplas fontes potenciais de renda e produzia excedentes significativos para acessar o mercado. Isso não apenas revela que a suposta “armadilha da subsistência” era, na verdade, uma invenção historiográfica, como também desvenda um panorama de estratégias complexas e experiências de vida que merecem ser compreendidas.

Lutando para sobreviver

Surviving Rome vai além de seus estudos anteriores. Nesse novo livro, Bowes combina a rigorosa abordagem teórica desenvolvida em When Kuznets went to Rome com a enorme coleta de dados realizada durante The roman peasant project. O resultado é um relato magnífico de como 90% da população do Império Romano — algo entre cinquenta e sessenta milhões de pessoas, dependendo da estimativa — viviam, trabalhavam e morriam durante o período abordado.

A mensagem do livro é direta: o Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades. As trocas ocorriam em níveis local, regional e inter-regional, impulsionadas pelas infraestruturas imperiais e com um alto grau de monetização, chegando até mesmo às áreas rurais mais remotas.

“O Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades.”

Na reconstrução de Bowes, a força motriz da economia romana não era o Estado romano e seus aparatos — como o exército ou a administração financeira — nem os latifundiários senatoriais super-ricos que administravam suas propriedades. Eram os trabalhadores comuns, com sua produção especializada, altos níveis de demanda e padrões de consumo variados. O imperativo social dos 90% da população de ter acesso a bens de consumo para melhorar seu bem-estar e status — o que Bowes chama de custos da inclusão social — foi fundamental para a gênese e expansão de uma revolução do consumo.

A noção de revolução do consumo não é nova no estudo da economia romana. Em sua magnífica obra Peasant and empire in Christian North Africa [Camponês e império no Norte da África Cristã], Lesley Dossey utilizou esse conceito para explicar o enorme desenvolvimento socioeconômico do mundo rural africano no final da Antiguidade. Na interpretação de Dossey, o século IV d.C. testemunhou um crescimento exponencial da demanda camponesa. Os camponeses africanos não produziam apenas para os habitantes urbanos — eles também utilizavam o mercado para aumentar sua própria renda e, consequentemente, seus níveis de consumo.

Bowes aplica a ideia de uma revolução do consumo aos séculos I e II d.C. Ela estende seu efeito transformador ao início e ao meio do Império Romano, quando a economia atingiu seu ponto de máxima expansão em termos de produção e troca de mercadorias em grande escala.

No entanto, Bowes não gosta de comparações diacrônicas entre os indicadores macroeconômicos das economias romana e moderna, assim como de analogias simplistas entre passado e presente. Em vez disso, ela examina uma série de diferenças e uma semelhança fundamental nas estruturas inerentes às duas economias.

Produção doméstica

Aeconomia romana difere significativamente da economia capitalista moderna em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família, servindo, em vez disso, como uma fonte de renda adicional, porém ocasional.

Em contraste com o mundo industrial, onde houve uma luta contínua entre capital e trabalho, a economia agrária dos antigos grupos subalternos não funcionava segundo o que E. P. Thompson chamou de nexo monetário. Trata-se de um mecanismo econômico que envolve uma relação entre os níveis salariais e os padrões de vida, bem como conflitos entre empregador e empregado sobre o que é considerado salário justo.

“Embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família.”

Como os romanos que trabalhavam não podiam contar com salários como a base de sua economia doméstica, eles continuaram a depender da agricultura e da produção artesanal e têxtil caseira. Isso não significa que eles não operavam em uma economia de mercado; na verdade, estavam totalmente integrados às suas estruturas. Mas participavam dos ciclos de oferta e demanda expandindo sua produção doméstica mais do que vendendo sua força de trabalho para terceiros.

A segunda diferença relevante é que os romanos comuns raramente conseguiam acumular poupanças. Ao contrário dos camponeses e artesãos durante a “revolução industriosa” do século XVIII, que acumulavam poupanças através do adiamento do casamento e do aumento da produtividade, os 90% romanos tinham menos oportunidades de aumentar os seus rendimentos e reservar algum dinheiro para compensar os riscos inerentes a uma economia agrária com as suas colheitas variáveis.

Bowes argumenta que tanto a economia romana quanto a do capitalismo tardio compartilhavam uma característica comum: a precariedade. Em ambos os contextos, a precariedade significava que as pessoas podiam, ou podem, facilmente passar de uma situação de mera sobrevivência (ou, às vezes, até de prosperidade) para uma situação de extrema pobreza. A revolução do consumo impôs à população romana uma tendência compulsiva ao consumo.

Não devemos interpretar isso como um indicador de uma “sociedade abastada” no sentido em que J.K. Galbraith a descreveu em seu livro de 1958 com esse título. Em vez disso, evidenciava uma sociedade onde era extremamente caro e difícil viver e (às vezes) até mesmo sobreviver. Como observa Bowes, assim como os estadunidenses modernos, os 90% romanos viviam perpetuamente endividados, com a precariedade como sua companheira constante.

A economia da maioria

Os estudos sobre a economia romana têm se concentrado principalmente em desvendar os mecanismos de arrecadação de recursos da população, buscando compreender como instituições como o Estado ou os mercados utilizavam o dinheiro e distribuíam ou comercializavam mercadorias. O debate girou em torno de diferentes formas de cobrança de impostos, baseadas em dinheiro ou pagamento em espécie, na coleta e transferência de rendas agrícolas e no papel do sistema monetário unificado na facilitação das transações entre parceiros institucionais, bem como na forma como as instituições possibilitavam o acesso ao mercado.

O interesse pela população trabalhadora tem se limitado a estabelecer qual tipo de sistema de posse de terras e regime de trabalho associado — arrendamento, trabalho assalariado ou escravidão — era mais propenso a aumentar a produção e melhorar a eficiência da economia imperial. Em essência, os estudos têm se concentrado mais em como os proprietários de terras organizavam a produção e como as instituições os ajudavam a transferir ou trocar mercadorias do que em como os trabalhadores gerenciavam suas vidas.

Surviving Rome adota uma perspectiva diferente. Assim como em outras sociedades pré-industriais, a grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo. Se quisermos entender como essa sociedade funcionava e se seu povo estava bem, precisamos observar os camponeses em vez das elites, muito mais documentadas e visíveis.

“A grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo.”

Os camponeses representavam a maior parte dos 90%, mas essas pessoas nunca foram agricultores em tempo integral. A visão atemporal do camponês que ganhava a vida cultivando (com a ajuda da família) uma pequena parcela de terra é um mito criado pelos escritores romanos para celebrar o valor moral do cidadão romano ideal.

Em todo o vasto território que se estendia dos atuais Países Baixos ao Egito, os camponeses romanos estavam longe de ser românticos ou conservadores ao elaborarem suas estratégias econômicas. Eles dispunham de múltiplas fontes potenciais de renda, derivadas de um campo totalmente imerso em um complexo sistema de trocas.

Por vezes, os camponeses possuíam várias parcelas de terra. Contudo, como a oferta de terra nunca era suficiente, arrendavam com mais frequência as suas parcelas a grandes ou médios proprietários de terras. A dupla condição de pequenos proprietários e arrendatários exigia da família camponesa um planejamento complexo do emprego dos recursos humanos, que tinha de ter em conta as necessidades sazonais da agricultura, como a rotação de culturas e a colheita. Os camponeses também tinham de considerar as exigências simultâneas das fábricas de cerâmica, das indústrias artesanais ou do comércio de produtos agrícolas e têxteis no mercado local.

Escassez e excedentes

Acombinação de diversas atividades poderia resultar em escassez de mão de obra. Por sua vez, isso oferecia oportunidades de emprego para trabalhadores assalariados externos, geralmente recrutados entre pastores de meio período ou camponeses sem terra. Às vezes, porém, a composição variável da família também podia gerar excedente de mão de obra, tornando necessário que alguns membros trabalhassem por salário na propriedade de outra pessoa.

Esse dinamismo econômico leva Bowes a argumentar que a relação entre terra, trabalho e produção não era predeterminada por alguma lei econômica abrangente, mas sim influenciada pela atividade camponesa e pelas contingências históricas. Em essência, dependendo da situação, um camponês, sua esposa e seus filhos podiam atuar como pequenos proprietários, arrendatários, assalariados, pastores ocasionais, comerciantes ou trabalhadores têxteis e de cerâmica — às vezes, todos os anteriores.

“Apesar do analfabetismo generalizado na população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam lidar com cálculos complexos.”

A capacidade dos camponeses de lidar com todas essas atividades desmente duas outras crenças equivocadas. Em primeiro lugar, apesar do analfabetismo generalizado entre a população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam realizar cálculos complexos e manter registros detalhados de seus impostos, aluguéis, obrigações públicas e privadas, e assim por diante. Assim como os pobres na sociedade contemporânea, os romanos trabalhadores podiam ser altamente habilidosos com números sem precisar saber ler ou escrever.

Em segundo lugar, eles administravam suas transações diárias de forma muito racional, pensando em termos de valor monetário. É verdade que o campo sofria com a escassez estrutural de moedas, já que os camponeses estavam constantemente precisando de dinheiro. Mas, como Rory Naismith afirmou em seu fascinante livro Making money in the early Middle Ages [Fazendo dinheiro no início da Idade Média], a falta de moedas nas transações cotidianas não impedia as pessoas comuns de mensurar o valor da terra, do gado e das mercadorias (ou mesmo de bens mais intangíveis, como honra e devoção espiritual) em unidades monetárias. A contabilidade monetária era um hábito econômico significativo para aqueles que viviam no campo.

Bowes oferece como exemplo dessa racionalidade econômica duas histórias de camponeses no Egito do primeiro século. Epímaco possuía vários pequenos lotes perto de Hermópolis, no Vale do Nilo, e administrava ativamente sua fazenda com a ajuda de quatro ou cinco escravizados e trabalhadores diaristas. A natureza dispersa de suas propriedades e a dependência do trabalho assalariado provavelmente exigiam uma contabilidade complexa. Ele empregava um escravizado chamado Dídimo para manter registros detalhados, começando cada mês com os ganhos organizados cronologicamente e registrando as despesas diárias. Os ganhos e as despesas eram então contabilizados, transferindo qualquer lucro ou déficit para o mês seguinte.

Soterichos, um arrendatário, e sua família conservaram seus contratos de arrendamento, recibos de aluguel e impostos, documentos de quitação de dívidas, um recibo de compra de um burro e a compensação pela pastagem consumida pelo gado. Embora não fossem alfabetizados em grego, administraram com eficiência os arrendamentos e empréstimos, insistiram em receber os recibos de pagamento e guardaram esses documentos por anos após o vencimento. Essas duas histórias sobre famílias camponesas refletem, em nível micro, a história econômica mais ampla do Império Romano.

Uma classe trabalhadora maltratada

Um dos capítulos mais impressionantes do livro aborda os efeitos destrutivos do trabalho na saúde dos trabalhadores. O período romano testemunhou uma das explorações mais intensas do campo antes da mecanização da agricultura na segunda metade do século XIX. A expansão maciça da produção agrícola excedente e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto sobre a população trabalhadora.

“A expansão maciça da produção excedente agrícola e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto na população trabalhadora.”

Uma enorme quantidade de novos dados provenientes de esqueletos humanos revelou as consequências perigosas de se viver em um mundo onde o corpo humano era a principal máquina produtiva. O trabalho imposto aos operários prejudicava seriamente sua saúde. Seus corpos contêm indicadores reveladores de níveis de estresse e lesões sem precedentes. Os romanos trabalhadores podem ter tido acesso a alimentos melhores, panelas feitas em roda de oleiro e roupas de melhor qualidade, mas pagaram um preço alto em troca de benefícios mínimos.

Embora todos os trabalhadores romanos sofressem com a sobrecarga de trabalho, os 90% restantes não constituíam um grupo homogêneo. Os membros da maioria rural foram afetados mais seriamente do que seus pares urbanos. As pessoas que viviam e trabalhavam em cidades como a antiga Londres, Cartago ou a própria Roma se beneficiavam de uma dieta mais variada, incluindo carne, queijo, leguminosas e peixe. Essa fonte estável de proteína ajudava os trabalhadores urbanos a suportar as muitas horas de trabalho árduo.

Os trabalhadores rurais não dispunham de uma variedade comparável nem de uma fonte estável de proteínas: consumiam carne com menor teor proteico e raramente tinham acesso a peixe. Aqueles empregados em indústrias especializadas, como minas, ou na agricultura, realizavam trabalhos árduos que exigiam o consumo de quase quatro mil calorias por dia. Quando não conseguissem obter essas rações diárias — e eles raramente conseguiam —, seus corpos sofriam sérios danos.

A situação era ainda pior para os adolescentes de ambos os sexos, pois a combinação de um regime de trabalho pesado com a insuficiência de proteínas e vitaminas comprometia severamente seu crescimento. A maioria dos trabalhadores que sobreviviam a essa infância precária carregava as sequelas do trabalho pesado por toda a vida.

Trabalho livre e não livre

Em termos de impacto na saúde popular, a diferença entre cidade e campo era mais relevante do que a distinção legal entre trabalhadores livres e escravizados. Trabalhadores livres pobres e escravizados desempenhavam funções semelhantes, especialmente em indústrias especializadas como as minas de carvão e no campo. Recebiam salários comparáveis ​​e tinham dietas semelhantes.

Os esqueletos de pessoas escravizadas parecem idênticos aos dos pobres que trabalhavam em liberdade. Essas descobertas sugerem que a escravidão em Roma não fornecia uma categoria distinta de trabalhadores para a economia romana. Embora tais semelhanças não diminuam a brutalidade da escravidão, elas mostram que a experiência do trabalho pesado não apenas tornava os trabalhadores livres e escravizados fisicamente indistinguíveis, mas também os integrava a um mesmo grupo social.

Surviving Rome nos mostra como as forças de mercado e um sistema imperial opressor forçaram os trabalhadores a se tornarem protagonistas de um ciclo vicioso e perigoso. Ao examinar esse processo, Bowes destaca como principal motor o esforço tenaz dos pobres para serem socialmente incluídos, embora reconheça que foram as estratégias de acumulação das elites que forçaram os trabalhadores a exercerem múltiplos empregos para sobreviver.

Ao discutir questões de classe, Bowes prefere as categorias de Pierre Bourdieu às de Karl Marx. No entanto, assim como ocorreu com o trabalho empírico de Bourdieu sobre o campesinato argelino, sua reconexão entre produção e consumo a partir da perspectiva de baixo para cima fortalece a mensagem do livro. Na Roma Antiga, assim como no presente capitalista contemporâneo, eram os trabalhadores que pagavam o preço por um mundo repleto de bens materiais.

 

 

Publicado originalmente em: https://jacobin.com.br/2026/05/para-os-trabalhadores-romanos-a-vida-era-desagradavel-brutal-e-curta/