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O que está em jogo na visita de Xi Jinping à Coreia do Norte

Presidente chinês faz primeira visita ao país vizinho em sete anos. Enquanto Kim Jong-un visa maior reconhecimento internacional com apoio de Pequim, Xi quer reafirmar influência na região do Indo-Pacífico.

Por: Julian Ryall | Crédito Foto: KCNA/REUTERS. Xi e Kim em Pequim, em setembro de 2025

O presidente chinês, Xi Jinping,  chegou nesta segunda-feira (08/06) para uma rara visita de dois dias à Coreia do Norte. Observadores afirmam que essa viagem representa uma boa oportunidade para o líder norte-coreano, Kim Jong-un, demonstrar ao seu povo que uma das superpotências mundiais reconhece a Coreia do Norte como aliada e parceira. Trata-se de um gesto significativo para um regime que busca legitimidade interna e prestígio internacional.

Xi e Kim se encontraram pela última vez em setembro de 2025, quando Pequim celebrou com um desfile militar o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Ásia. O presidente russo, Vladimir Putin, também esteve presente. No entanto, a última visita de Xi à Coreia do Norte foi há sete anos, em 2019.

China e Coreia do Norte são aliadas importantes, tanto econômica quanto militarmente, desde a Segunda Guerra Mundial. Durante a Guerra da Coreia (1950-1953), Mao Tsé-Tung descreveu a relação entre os dois países como “tão próxima quanto lábios e dentes”.

Naquela época, a China enviou 1,3 milhão de soldados para a Guerra da Coreia para lutar contra a “agressão americana”. Entre os 115 mil mortos estava o filho mais velho de Mao. “O principal objetivo de Xi é consolidar e fortalecer a relação da China com a Coreia do Norte”, afirma Choo Jae-woo, professor de política externa do Instituto de Estudos Chineses da Universidade Kyung Hee, na Coreia do Sul.

Rússia ofusca a China

Kim tem se empenhado muito nos últimos anos em tentar melhorar suas relações com a Rússia, que precisa urgentemente do fornecimento de armas e do destacamento de soldados para sua guerra contra a Ucrânia. E ambos os países estão em listas de sanções internacionais. “A China claramente se sente ignorada pela Coreia do Norte”, acrescentou Choo.

Este mês de julho marca o 65º aniversário da assinatura do tratado de amizade entre a China e a Coreia do Norte. Trata-se do único tratado de aliança militar da China. O artigo segundo estipula assistência militar “por todos os meios” caso uma das partes do tratado seja submetida a “um ataque armado” ou “agressão”. Oficialmente, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte ainda estão em guerra, e o que vigora é um cessar-fogo.

Preocupação chinesa com a Rússia

“Seria mais apropriado que Xi viajasse à Coreia do Norte para o aniversário [do tratado], em 11 de julho”, diz Choo. “A viagem atual, um mês antes, mostra que Xi está preocupado com a possibilidade de a Coreia do Norte estar se aproximando demais da Rússia.”

A China tem permitido grandes volumes de exportações para a Coreia do Norte nos últimos meses, continua Choo. E Kim espera receber mais turistas chineses na chamada “Riviera Norte-Coreana”, em Wonsan-Kalma. Numerosos turistas russos já viajam para a costa do Pacífico para lazer.

Putin, Xi, Kim e o premiê paquistanês Shehbaz Sharif andam em tapete vermelho
Putin, Xi, Kim e o premiê paquistanês Shehbaz Sharif no desfile pelo 80º aniversário do fim da Segunda Guerra na Ásia. Foto: cnsphoto/REUTERS

Kim já anunciou seu apoio contínuo ao princípio de “uma só China” e sua visão de Taiwan como parte da China. Ele também buscará laços mais estreitos com o enorme poder econômico da China para impulsionar a economia debilitada da Coreia do Norte. Estatísticas do banco central sul-coreano mostram que, após anos de crescimento negativo e nulo, o Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Norte, um país extremamente pobre, cresceu 3% nos últimos dois anos.

Coreia do Norte quer ser “Estado normal”

E Kim almeja mais. “Ele quer que a Coreia do Norte seja vista internacionalmente como um ‘Estado normal’. Ele quer usar a visita de Xi para expandir o escopo e o alcance de seus esforços diplomáticos, por exemplo, através da adesão da Coreia do Norte à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) ou ao Brics”, afirma o especialista Choo. A Coreia do Norte não é membro nem observadora de nenhuma das duas organizações.

“País que os outros devem levar a sério”

A Organização de Cooperação de Xangai (OCX), fundada pela China em 2001, é composta por dez membros plenos da Ásia Central e Oriental, com o objetivo de promover a cooperação em segurança e economia. Já o Brics é formado por 11 das principais economias emergentes e em desenvolvimento do mundo e serve como um fórum para a coordenação política e econômica do chamado Sul Global.

O líder Kim, de 42 anos, quer mostrar “que a Coreia do Norte é um país que outros devem levar a sério”, afirma Kim Sang-woo, ex-político do partido sul-coreano de esquerda Congresso para a Nova Política e atualmente membro do Conselho da Fundação para a Paz Kim Dae-jung, na Coreia do Sul. “O apoio incondicional da China e o reconhecimento renovado da aliança” reforçariam essa afirmação.

Por outro lado, Xi quer demonstrar “que a China é a potência hegemônica na região do Indo-Pacífico e que o compromisso e a confiabilidade dos EUA na região se tornaram cada vez mais incertos”, disse Kim. “Esta é uma mensagem para os países da região, que estão se aproximando cada vez mais, incluindo Coreia do Sul, Japão, Índia, Filipinas, Austrália e outros, enquanto a China tenta exercer influência sobre essas alianças.”

 

 

Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/o-que-est%C3%A1-em-jogo-na-visita-de-xi-jinping-%C3%A0-coreia-do-norte/a-77457399