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“Se a esquerda não tiver uma plataforma democrática, popular e socialista, ela vai ser confundida com a direita”

O ex-guerrilheiro, deputado constituinte e um dos principais dirigentes do PT, José Genoino, era um dos poucos quadros da esquerda que dialogava com os militares. Nesta entrevista, ele conta como as Forças Armadas se aliaram ao bolsonarismo, avalia sua própria trajetória política e levanta, com otimismo militante, a bandeira do socialismo.

Uma entrevista com José Genoino

José Genoino Neto, nascido em 1946 em Quixeramobim, no Ceará, é um militante histórico da esquerda brasileira. Foi guerrilheiro, preso e torturado pela ditadura, fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual foi eleito deputado federal por vários mandatos, participando da Assembleia Nacional Constituinte de 1987, e dirigente partidário de destaque. Nas suas próprias palavras, mudou muito de posição, mas nunca de lado. Hoje, defende a refundação radical das instituições brasileiras e “um programa democrático popular e socialista”, se opondo a uma frente ampla com setores neoliberais, como explica ao longo desta conversa com James Hermínio Porto da Silva e Hugo Albuquerque para a Jacobin Brasil

Vindo de uma família trabalhadora pobre do sertão nordestino, chegou a trabalhar para a Igreja Católica e, pela via da esquerda católica, veio a se interessar por temas sociais, se radicalizando na faculdade, quando cursava Filosofia e Direito.

Filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de orientação maoísta na época, Genoíno se viu emparedado como toda sua geração após o Ato Institucional (AI-05) de 1968, quando os generais e seus cúmplices civis aprofundaram a Ditadura Militar (1964-1985). Avaliando que a via democrático havia sido completamente fechada, decidiu ir para a clandestinidade e participar da luta armada contra a ditadura, juntando-se à guerrilha do Araguaia.

Preso com a derrota da guerrilha em 1972, fez parte de uma cisão do PCdoB — junto de figuras como os irmãos Adelmo e Tarso Genro, Eduardo Jorge e, inclusive, Chico Mendes — nascida da discordância sobre o balanço político a guerrilha, mais tarde conhecida como Partido Revolucionário Comunista (PRC), que ingressa no PT.

Com o início do processo de redemocratização, Genoino é eleito deputado federal ainda em 1983, ano do centenário da morte de Karl Marx, motivo pelo qual seu discurso de posse teve o audacioso título de Marx Vive, em plena Ditadura Militar.  Reeleito por mais quatro vezes consecutivas, tornou-se um dos maiores articuladores do PT e foi considerado um dos deputados mais influentes do país. Foi nesse período que chegou a flertar com a Terceira Via e o Liberalismo Social.

Entre a fase como deputado, na sua inflexão moderada, e o seu presente radical, Genoino encontrou uma condenação — mais tarde extinta pelos tribunais superiores — no processo mensalão, quando ocupava a presidência do PT durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Após esse ataque contra o primeiro escalão do PT veio o cenário de perseguição política, seguido do golpe contra Dilma Rousseff em 2016, a prisão de Lula e a naturalização de Bolsonaro em 2018, o desfazimento da Nova República, “uma democracia inconclusa” que ficou obsoleta antes de ficar pronta.

É sobre esse quadro de crise permanente, em meio aos fragmentos da Constituição de 1988, no qual militares, juízes e promotores exercem uma tutela sobre a política que Genoino conversou com Jacobin Brasil sobre por que a esquerda deve buscar uma alternativa socialista.

HA/JHP

Quando começa sua militância na esquerda e como você chegou até o marxismo? 

JG

Minha militância começou, de forma mais engajada, quando ingressei na Universidade, na então Faculdade de Filosofia do Estado do Ceará, que antecedeu a Universidade Estadual do Ceará, em 1967. Eu vinha de uma família muito pobre, tanto que trabalhei na Igreja como sacristão para poder sobreviver, o que me fez ter contato com a ala progressista da Igreja. Quando entrei na faculdade, trabalhava na IBM. Nessa experiência, militei no movimento estudantil, o que me permitiu participar dos congressos da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Valinhos e Ibiúna, em São Paulo. Nessa época, ingressei no PCdoB e na diretoria da UNE. Com o AI-5, eu fui pra clandestinidade, mas isso me levou a São Paulo, onde eu fui designado para a preparação da guerrilha do Araguaia.

HA/JHP

Quando se deu seu primeiro contato com a luta armada? 

JG

O movimento de 1968 discutia abertamente a questão de enfrentar o regime pela via armada. Eu era de uma geração que foi emparedada pelo AI-5 e que só tinha três caminhos: o exílio, a prisão ou a clandestinidade. E escolhi a clandestinidade. Em julho de 1970, quando já estava na clandestinidade, me pus à disposição de ir para a luta armada. Foi uma opção política muito clara. Minha geração sentia, ao mesmo tempo, as consequências do golpe de 1964, que foi uma desmoralização da esquerda brasileira, e os reflexos das revoluções populares e socialistas pelo mundo, principalmente Cuba, Vietnã e China, assim como a revolução dos costumes que se seguia desde os anos 1950 — os Beatles, a Jovem Guarda no Brasil, etc. Era uma geração que não tinha medo, que convivia com o risco, uma geração muito ousada e desprendida. Era também uma geração muito abnegada pelos ideais da revolução e do socialismo. Havia de tudo, golpes, crises e vivemos tudo isso intensamente. Era uma geração muito influenciada por essa utopia, por esse sonho. 

Saiba mais em: https://jacobin.com.br/2021/02/se-a-esquerda-nao-tiver-uma-plataforma-democratica-popular-e-socialista-ela-vai-ser-confundida-com-a-direita/

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