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Povos Guarani e Kaiowá aguardam audiência em frente ao Senado Federal, em Brasília. Foto: Marina Oliveira/Cimi

Como lidar com áreas “degradadas” das metrópoles? Pesquisador propõe mapas coletivos para entender os “fluxos”, combater estigmas e construir saídas. Cuidado e moradia, diz ele, são centrais e permitem resistir à especulação e à barbárie

Por: Lucas Scatolini | Entrevista com: Aluísio Marino

Uma névoa de guerra particular paira sobre o Centro de São Paulo. Maltrapilhos e famélicos, agarrados a cobertores puídos ou cachimbos metálicos, os “inimigos” são confinados a céu aberto em gradis, controlados por forças policiais, uma espécie de campo de concentração light – se é que isso é possível. São “zumbis da pedra”, “crackudos”, “marginais”, segundo a velha mídia – e, portanto, menos humanos. Vivem na cracolândia paulistana. São quase duas mil pessoas nessa situação e território fluido, segundo estimativas. A cena já não choca mais – e divide a população, entre aqueles que a veem como um problema de saúde pública e os que acreditam ser caso de polícia, mostra pesquisa Datafolha. Porém, a visão autoritária e repressiva sobre a questão parece dominar a administração pública.

O “cercadinho” para conter o “fluxo” da cracolândia, em 2014, uma medida constantemente reeditada. Imagem: Joel Silva

Desde a década de 1990, quando a pedra angular do crack chegou ao Brasil, a substância dos negros, pobres e loucos, inúmeras megaoperações tentaram “limpar” a região, alegando combater o tráfico e a feira aberta de entorpecentes. A última, realizada em 1º/9, mobilizou um verdadeiro exército: mais de mil policiais. Os gastos públicos atacar um “grupo de esfarrapados”, provavelmente estratosféricos e que poderiam muito bem ser aplicados em programas sociais para esta população, nunca foi questionado. O modus operandi é invariável: bomba de gás lacrimogêneo; cassetete e pontapés no lombo dos “drogados”; spray de pimenta; bala (nem sempre de borracha); armas, carros, caminhões e helicópteros mobilizados; prisão de meia dúzia de pequenos traficantes; apreensões de drogas e armas; documentos pessoais ilegalmente confiscados; internação compulsória de menores de idade; “entulho” (os poucos pertences do “inimigo”) incinerados e uma morte ou outra como “efeito colateral”. Os conflitos com moradores e comércio local se agravam. Os usuários se dispersam, e logo voltam a se aglomerar nas cercanias, até a próxima ação repressiva. Uma operação que parece estar sempre fadada a “falhar” e a repetir este ciclo vicioso, como aponta este artigo do Outras Palavras.

Mas ali, mesmo que passem desapercebidas pela correria cotidiana da metrópole, há profundas questões sociais, sofridas trajetórias de vida, traumas transbordantes e articulações instigantes contra a barbárie, envolvendo usuários, coletivos, movimentos populares, moradores e comércio locais, instituições, ONGs, e grupos de pesquisa – e o ativismo cartográfico é uma ferramenta importantíssima. É o que aponta o educador Aluísio Marino, que se debruçou sobre esse território para tentar compreendê-lo na teoria, na prática e na luta. Comprometido com a formação de jovens pesquisadores no observatório De Olho na Quadrada, projeto do UNAS Heliópolis, ele é um dos coordenadores do LabCidade/FAUUSP. Em seu doutorado, realizado na Universidade Federal do ABC, ele propôs a cartografia social – desenvolvida coletivamente, ombro a ombro com a população local, ativistas e pesquisadores de diversos campos do conhecimento – como forma de refletir sobre as resistências na região da cracolândia, denunciar violações e propor novas políticas públicas, baseadas no cuidado, na atenção social e no direito à moradia.

Quem são esses temidos usuários? Como eles se deslocam pelo Centro, principalmente após a truculência policial? Por que ela não acaba com a cracolândia, mas a “pulveriza” em diversas outras áreas da região? Onde se concentram, ao logo dos últimos anos, as violações de direitos humanos? Quais os interesses econômicos em disputa? Como populações inteiras estão sendo removidas em nome da especulação? Para onde essas famílias despejadas vão? Quais as alternativas ao planejamento urbano fracassado conduzido pelo poder público em parceria com o setor privado?

São essas as perguntas que Mariano, através de mapas e reflexões, tenta responder, principalmente com sua atuação no Fórum Aberto Mundaréu da Luz, constituído em 2017 por diversos grupos e instituições que atuam na área, realizando um processo amplo e coletivo de escuta das necessidades e dos desejos da população local. Afinal, os “fluxos” da cracolândia ousaram ocupar uma região abandonada pelo Estado e pelas elites nas últimas décadas, mas que agora a exigem de volta para “revitalizá-la” – num primeiro momento, segundo o pesquisador, através da implantação de equipamentos culturais; hoje, com a proliferação de conjuntos habitacionais, corporificado na atual gestão municipal pelo Projeto de Intervenção Urbana (PIU), aprovado mês passado, que promete trazer mais 220 mil moradores para o Centro nos próximos anos. Eles estão, portanto, numa região disputadíssima, com ampla oferta de infraestrutura urbana e onde múltiplos interesses confluem: casarões antigos, cortiços, pensões, pequenos imóveis e espólios não-regularizados na mira de incorporadoras; o tradicional comércio local e os novos e gourmetizados negócios (bares, restaurantes, bistrôs, lojas etc.) que veem a cracolândia como entrave para os lucros; o tráfico de drogas capitaneado por poderosos que nunca pisaram por lá; o gigantesco mercado de segurança privada que se beneficia do clima de medo; empreiteiras e imobiliárias que a veem como nova fronteira para a construção e a especulação; governos e corporações policiais ávidas por ações midiáticas e pelo marketing eleitoral.

Imagem: Projeto de Intervenção Urbana (PIU)/ Prefeitura da Cidade de São Paulo

Aluísio Marino não tem soluções prontas. Mas está comprometido em desenvolvê-las no chão da cidade, de forma coletiva e interdisciplinar. Sabe que alguns importantes passos foram dados: a cracolândia já não é invisibilizada na opinião pública e começa a se articular e resistir de forma mais robusta contra o discurso de “guerra às drogas” e de “revitalização”. Mas os estigmas sociais e as erráticas políticas públicas persistem. De uma coisa ele tem certeza: sem um espaço para essas pessoas se organizarem e constituírem sua autonomia, será muito difícil romper este círculo vicioso.

Vamos começar pela questão do conceito. O que é a “cracolândia”? É um território geográfico? Um grupo específico de pessoas em vulnerabilidade social? Um discurso político usado para atacá-las?…

É tudo ao mesmo tempo. A palavra cracolândia surge no contexto de “guerra às drogas” para justificar uma ação extremamente violenta e autoritária contra pessoas, sejam elas pequenos vendedores de drogas, traficantes ou usuários. Está inserida dentro de uma narrativa: haveria uma “epidemia do crack” e a proliferação de cracolândias, lugares onde pessoas usam essa droga de forma livre e descontrolada – e, portanto, elas deveriam ser controladas através da força.

Sabemos que esse discurso não funciona para restringir o uso de determinada substância, mas como uma guerra a pessoas, pois, desde a década de 1990, que foi quando o crack chegou ao Brasil, tanto o tráfico quanto os usuários continuaram – e, obviamente, quem mais lucra com isso não está lá na cracolândia. É, portanto, uma guerra contra certos sujeitos: marcadamente homens pobres e negros. E muitíssimos deles são encarcerados ou egressos de prisões sem a reinserção devida na sociedade.

O termo se popularizou na mídia, mas também foi apropriado por grupos ativistas e pelos próprios usuários, possuindo vários sentidos hoje. Um exemplo dessa desconstrução é a Craco Resiste, um coletivo que pensa a superação dessa questão a partir do acolhimento, e não da violência. O termo, portanto, não é mais usado apenas pela polícia ou por aqueles que querem propagar a “guerra às drogas”, pois todo mundo em São Paulo sabe que a cracolândia existe. Mas eu a entendo como um “fluxo” – ou vários “fluxos” – onde pessoas que estão em uma situação muito precária e, muita vezes, nem usam especificamente o crack: pode ser o álcool, cocaína, quetamina, por exemplo. Elas buscam no encontro, a partir do uso de substâncias, uma fuga; são atravessadas por uma série de questões e histórias muito particulares, como traumas ou experiências pregressas na cadeia. E é ali, na cracolândia, onde se encontram todos aqueles que estão realmente à margem, dentro de um sistema que não os acolhe.

Mas é importante ressaltar: ninguém em sã consciência defende a permanência da cracolândia, mas o reconhecimento de que ela existe – e de que é preciso debatê-la para lidar com seus desafios. Não pode ser invisibilizada. E acredito que conseguimos superar essa questão. Hoje ela é intensamente debatida na mídia, tornou-se um tema central. Mas estamos adotando caminhos equivocados, usando as mesmas estratégias lá do começo da década de 1990, apenas reeditadas com nome e alguns detalhes diferentes. É a mesma política de tiro-porrada-e-bomba.

As megaoperações deflagradas pela Prefeitura mostram que a cracolândia se espalha pela cidade em reação à truculência da polícia. É território específico no Centro, ou existem outros “fluxos”como esse, com grande concentração, em São Paulo?

O Centro é, historicamente, o lugar de maior concentração de usuários. O território da Luz, Santa Ifigênia e Campos Elíseos passou por um processo de abandono pelas elites e, entre muitas aspas, de “degradação”. E, agora, vem a necessidade de revitalizá-lo. Mas o vazio da pujança econômica do Centro fez com que esse território virasse, em alguns aspectos, um local de tolerância da ilegalidade e da clandestinidade.

Recorte da planta Cadastral do bairro Santa Ifigênia, V. Huet Bacellar (1892). Com a indicação posterior de cortiços (pontos vermelhos). Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Numa cidade ainda em desenvolvimento, os antigos hotéis do Centro paulistano recebiam “barões” e muitas pessoas ilustres. Havia a Rodoviária de São Paulo, a primeira da capital, ao lado da [estação de trem] Júlio Prestes. Toda aquela movimentação econômica despenca com a saída das elites. A rodoviária fecha. Depois, no final da primeira metade do século XX, muitas empresas migram para outras regiões. Isso fez com que a rede hoteleira que existia ali ficassem totalmente inutilizadas e fosse à falência.

Mas, por outro lado, sempre houve uma movimentação cultural muito forte na região, muitas vezes também ligada a certa ilegalidade, vinculada às vanguardas artísticas e à vida boemia. Ali estavam zonas de prostituição paulistanas, a Boca do Lixo e as pornochanchadas, com o cinema brasileiro ganhando força em circuitos alternativos. O samba também ganhou destaque na região. Tudo isso estava convivendo junto.

A Geografia da Noite da Boca do Lixo. Imagem ilustrativa para o Jornal da República. 1979. (Fonte: CASTRO, 2020)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A chegada do crack ao Brasil, nos anos 1990, encontrou ali um lugar propício para sua comercialização e uso, principalmente dentro dos hotéis “abandonados”. Depois, começa a sair dos hotéis para rua; na rua surgem os “fluxos” de hoje, que também podem ser explicados como resultado da expulsão dos usuários das periferias: nesta época, até inícios dos anos 2000, não se podia usar crack nas quebradas – quem usava era expulso pela força ou pelo medo. E muitos vieram para o Centro.

 

Saiba mais em: https://outraspalavras.net/cidadesemtranse/por-uma-cartografia-social-da-cracolandia/

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