Registro da menor constelação moderna por povos do Hemisfério Sul é anterior à incursão europeia e hoje ainda é parte da identidade nacional brasileira.
Por: Cândida Schaedler | Crédito Foto: Westend61/IMAGO. Muito brilhante, a constelação do Cruzeiro do Sul é composta por cinco estrelas e é considerada a menor das 88 definidas pela União Astronômica Internacional em 1922
Estampado na bandeira, no brasão e no hino nacional, o Cruzeiro do Sul brilha na formação histórica de uma identidade nacional e política brasileira que remonta a tradições milenares dos povos originários do Hemisfério Sul.
É conhecido por ter guiado os navegadores europeus durante suas expedições em direção ao Hemisfério Sul a partir do século 15 – mas, ao contrário do que pensavam os colonizadores, já era registrado por diversas cosmologias indígenas do Sul Global antes da chegada dos europeus.
O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) André Miloni explica que o Cruzeiro do Sul desempenha um papel essencial na localização geográfica. “Para a gente, que mora no Hemisfério Sul, ele nos ajuda a encontrar um ponto imaginário na esfera celeste e localizar o polo celeste sul”, informa.
Historicamente, as aglomerações de estrelas representam histórias e lendas dos povos, sobretudo para fins de marcação do tempo e divisão do ano em estações, já que cada uma é observada em determinado período. O Cruzeiro do Sul, por exemplo, é observável no outono e no inverno do Brasil. “É uma constelação muito brilhante e fácil de ser identificada no céu”, destaca.
Menor constelação moderna é símbolo político no Sul Global
O Cruzeiro do Sul é composto por cinco estrelas: quatro que formam o eixo de uma cruz – de onde deriva seu nome –, e uma quinta que foi apelidada de “intrometida”. É considerado, ainda, a menor das 88 constelações catalogadas em 1922 pela União Astronômica Internacional.
Outros países também refletem a significação histórica do Cruzeiro do Sul em seus símbolos políticos. Ele estampa as bandeiras da Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Samoa. A bandeira do Mercosul também o ostenta, celebrando a integração do bloco econômico. Nesse símbolo, ele é mostrado apenas com quatro estrelas – sem a “intrometida” –, representando os quatro países fundadores: Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina.
A primeira constelação “cristã”
No céu formoso e límpido, a imagem do Cruzeiro, como diz o hino nacional, “resplandeceu” – e foi interpretada pelos portugueses e espanhóis a caminho do Hemisfério Sul como confirmação celeste do sucesso da empreitada, segundo o pesquisador do Observatório Nacional Vladimir Jearim Peña Suárez.
“O achado da constelação, para os portugueses, foi como uma bênção divina, e eles imediatamente associaram com a cosmovisão cristã que traziam”, pontua. “Para outros povos, o Cruzeiro também representava aspectos relevantes, até porque sempre se desenvolveu um vínculo místico e filosófico com o céu”, complementa Suárez.

O primeiro registro da observação europeia do Cruzeiro do Sul data de 1500, em carta enviada ao rei de Portugal, D. Manuel 1º, por João Faras, que integrava a expedição de Pedro Álvares Cabral. Na missiva, o médico, físico e astrônomo espanhol conhecido como Mestre João descreve a constelação que, mais tarde, foi batizada de Crux (cruz, em latim).
Em Os Lusíadas, obra de Luís de Camões, a descoberta das novas estrelas também é registrada: “Já descoberto tínhamos diante / Lá no novo Hemisfério, nova estrela, / Não vista de outra gente, que, ignorante, / Alguns tempos esteve incerta dela.”
Âncora, ponte celeste, gambá sentado e ema
Para os europeus, os povos que viviam no Brasil não tinham notado as estrelas que formam o Cruzeiro do Sul – interpretação equivocada, segundo pesquisadores, uma vez que a cosmovisão indígena já a registrava.
“Povos na Austrália e na Nova Zelândia também observaram o Cruzeiro do Sul e os definiram como imagens associadas a seu cotidiano”, define Suárez. Os aborígenes australianos viam um gambá sentado, representando o deus celeste Mirrabooka. Para os Incas, a constelação se chamava Chakana, ou ponte celeste. Os maoris da Nova Zelândia a denominavam de Te Punga e a interpretavam como uma âncora que mantinha a Via Láctea na sua posição.
Na cosmologia indígena brasileira, há interpretações em que o Cruzeiro do Sul integra outra constelação e revela a imagem de uma ema.
Para os europeus cristãos, a associação com o cristianismo acabou sendo oportuna, pois as demais constelações faziam referência a mitologias mais antigas. “Então ela foi, por assim dizer, a primeira constelação cristã”, pontua Suárez.
Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/cruzeiro-do-sul-passou-de-guia-ind%C3%ADgena-a-s%C3%ADmbolo-nacional/a-73896833

