Em novo abuso das big techs, ChatGPT oferece “espelhinhos” — desenhos estilosos — a quem fornecer suas imagens e dados sensíveis. O que parece inofensivo é parte de uma engrenagem profunda, que envolve disputa tecnológica e geopolítica
Por: Veronika Gimenes da campanha Internet Legal(*) | Crédito Foto: Outras Palavras
Desde a semana passada uma febre toma as redes sociais: selfies e momentos pessoais transformados em cenas de anime com aparência semelhante à dos Estúdios Ghibli, gerados por inteligência artificial. Uma multidão está usando os novos recursos do ChatGPT de geração de imagem, que automatizam o processo, entrando na trend que viralizou. O ritmo de novas pessoas usuárias dessa IA chegou a mais de 1 milhão por hora (só como comparação, no lançamento, com o fenômeno desse app, ele conseguiu o mesmo número de pessoas em 5 dias).
O que parece inofensivo à primeira vista, uma brincadeira, é, na verdade, parte de uma engrenagem bem mais profunda. Estamos diante de um episódio importante da disputa tecnopolítica global em curso.
Por um lado, a infraestrutura tecnológica proprietária, monopolista, ambientalmente insustentável, e centralizada nas mãos de poucas corporações e fundos do Norte Global. De outro, a ascensão de uma possível nova hegemonia vinda do setor privado da China. E no meio, pessoas usuárias comuns e movimentos de resistência por tecnologias livres, abertas e justas.
ChatGPT, IA generativa, extração e concentração de poder
As ferramentas de IA generativa como ChatGPT foram treinadas com bases de dados imensas. São alimentadas por conteúdos criados por artistas e trabalhadoras, sem qualquer consentimento destas. Cada imagem “personalizada” é produto de um processo de extração massiva de valor — tanto material quanto simbólico — que se dá sem remuneração justa, nem transparência.
Além disso, o custo energético e hídrico para treinar e operar esses sistemas é altíssimo. Os controladores do ChatGPT reconheceram que a febre dos desenhos fez os servidores literalmente “derreterem”, o que chegou a forçar a desativação temporária da funcionalidade de gerar desenhos.
A febresignifica, na prática, consumo intensivo de água e energia elétrica para manter data centers em funcionamento e refrigerados — em plena crise climática. Usar IA para gerar imagens “bonitinhas” nesse contexto não é neutro: é compactuar com essa lógica extrativista que afeta diretamente o planeta e especialmente o Sul Global.
O momento de crise do Vale do Silício
Estamos em um momento delicado de realinhamento tecnopolítico global. A OpenAI (que de open, aberta, não tem nada), responsável pelo ChatGPT, já anunciou seu envolvimento com o setor militar dos EUA. A Meta desmantelou equipes de moderação e verificação de fatos, o que coloca em risco grupos e populações vulneráveis. A Alphabet (Google) fez lobby agressivo no Brasil para barrar legislações como o PL das Fake News, que busca reduzir a desinformação. Os grandes bilionários do Vale do Silício saíram do armário e agora estão publicamente alinhados à extrema-direita, como ficou exposto na presença dos principais na posse de Trump.
A ilusão de que as big techs operam como ferramentas “neutras” já não se sustenta faz tempo. Usar essas tecnologias de forma acrítica hoje, especialmente pagando por seus anúncios e serviços, é fortalecer estruturas que operam diretamente contra os valores progressistas, antirracistas, feministas e ambientalistas.
Colonialismo digital: um novo nome para um velho problema
Chamamos de colonialismo digital a continuidade das formas históricas de dominação e extração (de classe, raça, gênero, espécie etc), que agora são feitas por meios tecnológicos. Plataformas e sistemas como os de IA extraem dados e riqueza das populações do Sul Global, e concentram suas aquisições nas sedes corporativas do Norte.
Qual é a saída? Não se trata de abandonar a internet ou sair das redes sociais. Elas continuam sendo uma ferramenta importante para movimentos sociais, campanhas políticas e disputas culturais. Mas é momento de fazer escolhas táticas importantes.
Uso crítico de redes sociais, assistentes de IA e demais tecnologias da Big Tech, e apoio a alternativas
Não é razoável pagar por serviços dessas empresas (anúncios são até 95% da receita das redes sociais por exemplo) e é preciso ficar atento quando são “gratuitos”. Há sempre algo sendo trocado, nesse caso sua atenção e dados. É preciso usar com consciência e moderação e entender como essas tecnologias nos viciam e como nosso uso vira lucro para corporações que não têm qualquer compromisso com nossos territórios, nossas lutas ou nossas vidas, reconhecendo o colonialismo digital e suas implicações.
Além disso, é importante exigir novas políticas públicas que acompanhem as inovações, que protejam nossa soberania informacional, gerem justiça algorítmica, protejam o trabalho e conhecimento local.
Precisamos de mais braços para contribuir com projetos de software livre e código aberto, de mais apoio às iniciativas comunitárias, e mais investimento em infraestrutura digital descentralizada e pública. Há caminhos sendo trilhados — e precisamos fortalecê-los coletivamente. O Brasil já foi potência em software livre, público e aberto e pode voltar a ser. A China, um de nossos principais parceiros econômicos e políticos, vem mostrando alternativas acessíveis e potentes com IA generativa de código aberto, como por exemplo com o DeepSeek.
Escolher táticas com visão de longo prazo
Nem toda viralização é vitória. Precisamos avaliar o impacto de nossas ações em termos de sustentabilidade política, não apenas de alcance momentâneo. A cultura de rede pode e deve ser usada para fortalecer nossos projetos — não os deles. Ao contrário do que tem se falado nessa crise, pegando a metáfora da duração do banho não ter impacto real contra a crise climática, em uma onda de atenção nas redes sociais, ações individuais têm impacto real sim. Fazem diferença!
A IA está entre nós e chegou para ficar. O que está em disputa é para quem ela serve — e a que futuro ela nos leva.
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(*) A campanha Internet Legal é uma frente de luta com mais de 200 organizações em defesa da construção de uma rede soberana, justa e democrática, através da regulação pública democrática das plataformas digitais, seu modelo de negócios e seus serviços; através de medidas que promovem a soberania digital dos povos e através da criação de instrumentos tecnológicos públicos e sociais que colocam as pessoas e os direitos humanos acima dos interesses econômicos no ambiente digital.
Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/os-animes-japoneses-e-o-colonialismo-digital/
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