Em evento da OMS na Colômbia, presidente defendeu a agenda comum global desafiada pelos EUA, que quer um mercado sem controles. Mas há muito a avançar: hoje, nenhum objetivo para 2030 trata da redução de mortes causadas por poluentes
Por: Elaine Ruth Fletcher, no Health Policy Watch | Tradução: Gabriela Leite | Crédito Foto: Barbara Gibson/The New Statesman
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, lançou um ataque contundente contra o novo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no último dia de uma conferência da OMS sobre poluição do ar que aconteceu em seu país, na cidade de Cartagena.
Ele alertou que o progresso em temas cruciais de saúde ambiental e do clima dependem da “agenda comum” promovida pelo sistema de cooperação multilateral – “e se o sistema multilateral deixar de existir, tudo isso será em vão”.
Petro advertiu que a administração Trump, com sua agenda ultranacionalista, está “repetindo erros históricos” que levaram ao surgimento do fascismo e da Segunda Guerra Mundial. “Precisamos agir contra uma visão que busca se impor sobre toda a humanidade”, disse.
Ele alertou que, na nova ordem internacional que os EUA tentam moldar, a ideologia ameaça superar os fatos científicos. Acrescentou: “Como George Orwell disse em 1984, quando cada indivíduo passar a imaginar sua própria realidade, uma das vítimas será a saúde”.
Além disso, a “ganância” dos mercados descontrolados, dominados por interesses ligados aos combustíveis fósseis, impede a transição para energias limpas – que melhorariam a qualidade do ar e estabilizariam o clima, afirmou.
Transformando pedidos por mudança em medidas concretas
O presidente falou durante o encerramento do evento, após 17 países e cerca de 40 municípios, organizações da sociedade civil e instituições filantrópicas assumirem compromissos para reduzir a poluição do ar – alinhados ao chamado da OMS para reduzir pela metade as mortes relacionadas à poluição até 2040.
Cerca de 47 milhões de profissionais de saúde também assinaram um apelo por ações urgentes, publicado na abertura da conferência.
“Agora, nossa tarefa coletiva é transformar esse chamado em ação. No mês passado, o Conselho Executivo da OMS concordou com uma nova meta global para reduzir os impactos da poluição do ar na saúde em 50%”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, em uma mensagem em vídeo aos participantes. “Estimamos que cumprir essa meta salvará cerca de 3 milhões de vidas por ano.”
No entanto, como poucos ministros de alto nível estavam presentes no evento em Cartagena, mobilizar mais Estados-membros para a nova meta da OMS será um esforço de longo prazo. Deverá ser discutido em outros fóruns sobre clima e saúde, com mecanismos e financiamento para monitorar o progresso ao longo do tempo – algo que ainda não existe.
A próxima oportunidade será a Assembleia Mundial da Saúde em maio, quando os países devem revisar e adotar um novo Roteiro da OMS para reduzir os impactos da poluição do ar na saúde, que tem a meta de cortar em 50%, em seu texto. Em fevereiro, o Conselho Executivo, composto por 34 membros, endossou o Roteiro. A aprovação final em maio abriria caminho, pelo menos politicamente, para um esforço sustentado entre os países para atingir a meta.
Até agora não há nenhum Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU ou uma meta da OMS clara e quantificável para reduzir a poluição do ar, contra a qual o progresso pudesse ser monitorado. O ODS 3.9.1, que pede uma redução “substancial” nas mortes e doenças causadas pela poluição, não é exatamente mensurável.
Além disso, os benefícios econômicos e para a saúde da redução da poluição – especialmente do carbono preto, da fuligem, um poluente que afeta tanto o ar quanto o clima – precisam ser melhor reconhecidos em tratados climáticos e mecanismos de financiamento. Os participantes reiteraram a necessidade de redirecionar trilhões em subsídios a combustíveis fósseis para incentivos a energias limpas.
Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/outrasaude/poluicao-o-recado-de-petro-ao-governo-trump/
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