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Taxar ricos é ‘ato populista’ de governo que gasta muito, diz Caiado à BBC

Por: Marina Rossi | Crédito Foto: Matheus Leite/BBC. ‘É um ato populista no momento em que ele está gastando desenfreadamente’, diz Caiado, sobre plano do governo de taxar os mais ricos

Em 1989, quando foi candidato à Presidência pela primeira vez, o jovem Ronaldo Caiado (União Brasil) já havia fundado a União Democrática Ruralista (UDR). Com forte sotaque goiano, ele se defendia na TV, dizendo ser “confundido”, nas grandes cidades, como “o candidato do interior”.

“Se existe São Paulo, se existem as grandes cidades, é porque existe o interior do Brasil”, afirmou, nas considerações finais de um debate entre os presidenciáveis na TV Bandeirantes, a poucos dias do primeiro turno daquela primeira eleição após a democratização do país.

Naquelas eleições, Caiado ficou em 10º lugar, com menos de 1% dos votos.

Passados quase 40 anos, o sotaque continua o mesmo. O orgulho de ser o candidato do agro, também.

Mas desta vez o governador de Goiás quer desfilar com mais de um chapéu. O de boiadeiro, claro, mas também o do político experiente e com décadas de “confronto com Lula e o PT” para tentar preencher o vácuo que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pode deixar na disputa presidencial de 2026.

Em entrevista concedida à BBC News Brasil em Salvador, na véspera do lançamento da sua pré-candidatura à Presidência, Caiado criticou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e evitou falar de Bolsonaro.

Classificou como “populista” a iniciativa do governo petista de aumentar o imposto dos mais ricos para compensar a perda de arrecadação pela isenção de Imposto de Renda de quem ganha até R$ 5 mil.

Nos cálculos do governo, a nova taxa dos super-ricos atingiria 141 mil pessoas. Caiado estaria entre elas – sua fortuna declarada ao Superior Tribunal Eleitoral em 2022 foi de quase R$ 25 milhões, ancorada em negócios variados, incluindo rebanhos e fazendas.

“Acho que é um ato populista no momento em que ele está gastando desenfreadamente”, afirmou.

Fincando os dois pés no eleitorado da direita, o governador disse que a alta letalidade policial do seu Estado está ligada à melhora nos índices de segurança pública.

Goiás é o terceiro Estado com a maior taxa de mortes violentas cometidas por policiais em 2023, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública mais recente.

“Quando o crime é confrontado com a polícia, quem é que morreu nesse enfrentamento?”, diz. “A tropa do Estado é preparada para o confronto.”

Caiado mexendo em fitinhas do Senhor do Bonfim, com esposa atrás, sorrindo
Divulgação. Ronaldo Caiado e a esposa, Gracinha Caiado, em visita à Basílica do Senhor do Bonfim, em Salvador

Ele rejeitou a ideia de que a agropecuária deixa passivos ambientais. Segundo o MapBiomas, projeto formado por diversas iniciativas que se dedica a monitorar a cobertura e o uso da terra no Brasil, a pastagem foi a principal finalidade do desmatamento ilegal na Amazônia entre 1985 e 2023.

Para ele, a lei “está sendo cumprida” a atende as exigências de áreas de preservação previstas no Código Florestal Brasileiro.

Para virar candidato no ano que vem, no entanto, seus obstáculos são outros. Existe a possibilidade de que o União Brasil forme uma federação partidária com o Progressistas (PP).

Se isso acontecer, a pré-candidatura do governador, que já enfrenta pressões internas para desistir do projeto, estará ainda mais em xeque.

Além disso, está previsto para a próxima terça-feira (8/4) o julgamento de um recurso que ele moveu contra a decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) que o tornou inelegível.

Segundo o tribunal, Caiado cometeu abuso de poder ao usar o Palácio das Esmeraldas, residência oficial do governador, para realizar eventos em apoio a Sandro Mabel, candidato do União Brasil que venceu a disputa pela Prefeitura de Goiânia no ano passado.

“Essa matéria não tem nenhum fundamento”, diz, sobre o processo.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Na campanha de 1989, o senhor falava “eu sei que quando eu chego nos lugares, as pessoas falam, ah, lá vem o candidato do agro”. O senhor acha que o agro ainda hoje é incompreendido?

Ronaldo Caiado – Naquela época, era impressionante a campanha que existia contra a figura do produtor rural. Tentavam estigmatizar o produtor rural como uma pessoa que fosse insensível, que não tivesse solidariedade, que não tivesse compromisso com o social.

Hoje você vê que no Brasil, todos já são defensores do agro. Naquela época, apenas o Ronaldo Caiado tinha coragem de defender o agro.

O Brasil hoje é a maior potência de produção de alimentação, não só de brasileiros, mas também de mais de quase um bilhão de pessoas fora do país que recebem hoje alimentos produzidos no Brasil. Então é o segmento que deu certo.

BBC News Brasil – Então o senhor vai continuar sendo o candidato do agro?

Caiado – Diria que eu sou um candidato que vem de dois mandatos como governador. E se você buscar todas as áreas de atuação do governo, que são comparadas com os demais colegas meus governadores, você vê que eu sou o primeiro lugar em tudo. Então não é um discurso único do setor.

Como governante, você vê que Goiás é o primeiro lugar na educação, em transparência das contas públicas, em liquidez, em segurança pública, é o primeiro lugar em Estado que mais retirou pessoas da extrema pobreza.

Não tem apenas uma linha de ação, eu tenho uma amplitude em todas as áreas de atuação do governo.

BBC News Brasil – O Brasil tem sido cobrado mundialmente a produzir carne, soja, e milho livres de desmatamento. A União Europeia tem cobrado iniciativas do Brasil nesse sentido, por exemplo. Goiás é o terceiro Estado com o maior rebanho bovino do país. É possível falar em sustentabilidade na agropecuária? Até o momento, as metas que foram traçadas de desmatamento não foram atingidas.

Caiado – Sim, eu posso discutir isso, mas com base em dados, não em achismo. Qualquer parlamentar ou qualquer governante na Europa que tenha conteúdo capaz de poder apresentar dados, eu estou inteiramente à disposição.

Porque fui eu, como parlamentar, um dos que participou na elaboração do Código Florestal Brasileiro. Então eu sei exatamente o que nós produzimos e sei exatamente como é que é a realidade da agropecuária brasileira.

Na Amazônia, por exemplo, você precisa ter 80% de preservação ambiental e apenas 20% de ocupação [dos imóveis rurais]. Essa é a lei. E ela está sendo cumprida.

Nós somos o único país no mundo que temos todos os nossos biomas preservados.

Como os europeus produzem carne? O animal é alimentado com resíduos de outros animais, os europeus produziram uma carne onde lá eles desenvolveram o prion [proteína infecciosa] da vaca louca.

A partir daí, você colocou em risco todo um consumo de carne produzida por um gesto totalmente irresponsável da alimentação de animal com resíduo animal.

Então, se tem algo nocivo, é exatamente isso.

BBC News Brasil – O senhor está falando das questões fitossanitárias.

Caiado – Sim, mas isso é importante, porque você há de convir que isso aqui provocou um problema de saúde.

Agora vamos à parte ambiental. Nós já temos uma lei que define como deve ser o exercício e a prática da agropecuária no Brasil.

Aí vem uma lei europeia que diz o seguinte, olha, mesmo que o produtor não tenha atingido os seus 80% [de desmatamento que o Código Florestal permite no bioma do Cerrado] da sua área, ele está impedido de continuar amanhã a ocupação do restante da sua área. Isso é inaceitável.

Quando nós produzíamos 60 milhões de toneladas de grãos, os europeus não falavam nada.

No momento que nós estamos produzindo 320 milhões de toneladas de grãos, aí eles se assustaram. É [mais] um viés econômico do que uma preocupação ambiental.

Ronaldo Caiado.
Rômullo Carvalho/Governo de Goiás. ‘A tropa do Estado é preparada para o confronto’, diz o governador, ao ser questionado sobre a alta letalidade da polícia de Goiás

BBC News Brasil – Mas então o senhor não acha que é preciso avançar em boas práticas ambientais na nossa produção por conta da crise climática?

Caiado – Nós não podemos partir desta tese. É cumprir a lei.

Fica difícil para o europeu e o americano, eles chegarem para nós e dizerem, “é porque a preservação…”

Vem cá, vocês não precisam dizer isso a nós. Nós fazemos isso. Nós cumprimos nossa tarefa. Quem não cumpre a tarefa são vocês. Vocês não têm florestas nativas.

Do ponto de vista ambiental para o europeu e para o americano, nós estamos quilômetros à frente deles.

O problema todo é mais do ponto de vista econômico. Se o Brasil começasse a produzir carro, se o Brasil começasse a produzir máquinas agrícolas, eles iam criar algum problema para bloquear a entrada dos produtos nossos lá na Europa.

Agora, o aquecimento global… As dificuldades todas, nós não usamos aqui. Nenhuma… nós não utilizamos aqui o consumo de carvão, como se usa tanto ainda na Europa. Nós não temos aqui nada que possa contaminar o meio ambiente.

“Ah, mas nós temos as queimadas.”

A Amazônia já não é mais governada pelo Estado brasileiro, é governada pelas facções criminosas. As facções do narcotráfico é que comandam a Amazônia, tanto no garimpo ilegal, como no contrabando de árvores como na ocupação territorial.

Por uma total omissão do governo federal, a Amazônia hoje, se ela está sendo destruída e se estão ali comercializando árvores e estão ali ampliando garimpos, são exatamente as facções que estão no comando dela.

É uma região tão ocupada quanto… o Morro do Borel, a Rocinha…

O governo federal é complacente com o narcotráfico.

BBC News Brasil – Este governo?

Caiado – Sim, este governo. A linha do atual governo sempre foi complacente com o crime.

BBC News Brasil – O governo anterior tomou alguma medida em relação a isso?

Caiado – Houve uma reestruturação das polícias nos Estados, teve apoio nos Estados. Agora você não tem contrapartida para os Estados.

Lula e Tarcísio de Freitas conversando em sala
Ricardo Stuckert/Palácio do Planalto. Além de Caiado, Lula e Tarcísio de Freitas são possíveis nomes a concorrer à Presidência em 2026

BBC News Brasil – Segundo o Observatório Brasileiro de Segurança Pública, os índices da violência em Goiás vêm se reduzindo nos últimos anos, mas, ao mesmo tempo, letalidade policial tem aumentado. Em 2023, um terço das mortes violentas foram provocadas por policiais no Estado.

É o terceiro Estado com o maior número de mortes causadas pela polícia. O que está acontecendo? A polícia está matando demais? O senhor considera colocar a câmera nas polícias?

Caiado – Não, não considero de maneira alguma [colocar câmeras].

A Corregedoria é capaz de saber como é que se faz o tratamento ali e as ordens e as diretrizes gerais são definidas pela polícia e pelo governo.

BBC News Brasil – E o que está acontecendo então?

Caiado – Está acontecendo que você tem uma segurança plena.

BBC News Brasil – Plena?

Caiado – Plena. É plena, é plena.

Por exemplo, é uma realidade que você tem hoje de 87% de aprovação da segurança pública [pesquisa Quaest apontou, em fevereiro, que a segurança pública em Goiás é aprovada por 74% da população]. Ora, o confronto não foi a polícia que foi lá confrontar com ele.

Eles é que foram confrontar com a polícia.

BBC News Brasil – O senhor acredita que para ter uma segurança plena é necessário uma polícia que atue de maneira efetiva, chegando às últimas consequências, como é nesse caso?

Caiado – Não, você está invertendo a ordem da pergunta. A pergunta é a seguinte, para se ter segurança plena é preciso que você tenha a força de segurança capaz de proteger a sua população? A polícia de Goiás protege a sua população.

BBC News Brasil – Mas protege e mata.

Caiado – Mas como que é mau, se a população de Goiás aprova a segurança pública em 87%?

Você está fazendo um pré-julgamento da polícia, quer dizer, Estado bom é quando o crime mata muito, é isto? Essa é a sua visão.

BBC News Brasil – Não. Eu não disse isso.

Caiado – É exatamente isso que você coloca. Quando o crime mata muito, aí não tem problema.

Quando o crime é confrontado com a polícia, quem é que morreu nesse enfrentamento?

A tropa do Estado é preparada para o confronto.

A indignação que tem que ser da população, é diante da privação da pessoa dela poder ter o direito de ir e vir.

Hoje a droga no Brasil já passou a ser souvenir das facções. O setor imobiliário hoje está todo tomado pelas facções no Brasil, ninguém enfrenta eles mais.

[Há uma] Ocupação nas campanhas eleitorais, elegendo prefeitos, deputados, governadores, ações [das facções] dentro dos poderes, do Tribunal de Justiça, Defensoria Pública, Ministério Público em todas as áreas dos poderes constituídos hoje. Os postos de gasolina, supermercados, onde circula dinheiro, o comando nas penitenciárias, eles dão a ordem lá de dentro, são verdadeiros escritórios do crime. Veja se isso acontece na Europa?

Então, esta realidade, distorcer o fato, são exatamente de ONGs que são sustentadas por eles.

Caiado e Bolsonaro sorrindo para foto e fazendo joinha; eles estão embaixo de tenda de evento, com outras pessoas à volta
Isac Nóbrega/Palácio do Planalto. Caiado e Bolsonaro em 2019; em entrevista, governador evitou falar do ex-presidente

BBC News Brasil – O senhor discordou de Bolsonaro, quando ele falou sobre uma “ditadura do Judiciário”, se referindo ao julgamento dele no âmbito da suposta tentativa de golpe. Ao mesmo tempo, o senhor tem uma condenação no Tribunal Regional Eleitoral pela mesma razão que deixou o ex-presidente inelegível: abuso de poder. O senhor acredita que isso pode mudar até o ano que vem?

Caiado – Quando você está no Palácio que é a sua residência, as ações suas são as ações de dentro da sua casa, você recebe as pessoas, como a Dilma [Rousseff] recebia no Palácio da Alvorada, como o Bolsonaro recebia no Palácio da Alvorada e como o Lula recebe no Palácio da Alvorada.

Da mesma maneira que eu recebi vereadores dentro do Palácio das Esmeraldas. Residência do governador, não é o palácio de despacho do governador.

O palácio de despacho, aí sim, você está no exercício do seu mandato.

Na sua residência, você recebe as pessoas, você convive com as pessoas, você fala, você grava, você opina, você discute.

Tanto é que essas matérias todas que foram levadas ao Tribunal Superior Eleitoral, todas foram ditas, olha, estavam na residência.

Como tal, essa matéria não tem nenhum fundamento.

Este assunto será julgado agora dia 8 de abril. Então vamos aguardar a decisão. Eu falo porque aquilo já é matéria transitada e julgada e eu não estou inibido de poder receber dentro do Palácio das Esmeraldas. Uma coisa seria se eu estivesse no palácio de despacho, chamando pessoas no horário de trabalho. Agora, eu estou em um jantar, tá certo?

BBC News Brasil – Ainda falando sobre o Bolsonaro, o senhor se afastou um pouco dele em alguns momentos, depois retomou. Ao mesmo tempo, é muito possível que exista aí um vácuo grande deixado por ele no campo da direita porque, até o momento, ele não poderá concorrer em 2026. O que o senhor diria para o eleitorado bolsonarista? Quais os princípios do Bolsonaro o senhor segue?

Caiado – Não existe nenhum político no Brasil que tenha essa antecedência de confronto com o Lula e com o PT do que Ronaldo Caiado. Então, eu não preciso me explicar.

Eu sou um político, eu não sou encabrestado de ninguém. Eu tenho a minha independência intelectual.

Eu acho que a vida do político se sustenta na coerência, na credibilidade moral e não no oportunismo temporário.

Ou você governa na autenticidade sua, ou você passa a ser preposto de alguém. Eu não sou preposto de ninguém.

BBC News Brasil – O senhor acha que tem algum preposto nesse momento?

Caiado – Eu não estou fazendo juízo de valor de quem pode ser, mas dizendo a você que a eleição de 2026 é uma eleição onde você vê o Brasil num momento de altíssimo risco do ponto de vista de os poderes estarem totalmente conflagrados.

Você, por ausência de um presidente capaz de assumir o presidencialismo e de ser um líder do processo, você nota hoje uma desordem institucional.

Você vê hoje que o Congresso extrapola das suas prerrogativas, o Supremo extrapola as suas prerrogativas. O governo principal, que é a Presidência da República, não sabe o que deseja, não tem plano de governo, se perde no populismo, não tem uma meta para atingir, tenta recuperar programas anteriores, não tem vocação para trabalhar.

O próximo presidente da República tem que ser alguém que tenha capacidade de ter independência moral.

Então, ou nós vamos nos preocupar com as metas principais do país, que são educação, saúde, segurança, desenvolvimento social, tecnologia, avanço em pesquisa, ou senão fica o Brasil perdido numa discussão.

Ronaldo Caiado.
Rômullo Carvalho/Governo de Goiás. O governador afirma que não é “preposto de ninguém”, e que governaria, em um eventual mandato, por si

BBC News Brasil – O governo está propondo aumentar o imposto dos mais ricos. No caso, o senhor seria uma pessoa cujo imposto seria aumentado para pagar a conta da isenção de Imposto de Renda de 10 milhões. O senhor é a favor desse aumento de imposto para os mais ricos?

Caiado – Essa posição de ir ao favor ou ser contra, você tem que saber no seu país como é que o imposto está sendo aplicado. O Brasil tem recorde de arrecadação todo ano.

Se você buscar o que é a dívida do país, quando Lula assumiu o governo, era de 72% do PIB, que ele já jogou no mercado, sem o menor plano de governo, quase um trilhão de reais.

A dívida do país em relação ao PIB já está em 78%. Ou seja, em dois anos de governo, ele [Lula] passou de 72 para 78.

É algo inédito.

Se eu chego ao governo, eu vou me ocupar com a dívida do país.

Porque se eu continuar gastando desse jeito, eu vou aumentar a carga tributária para todo mundo.

Agora, esta consequência, ela vai resolver o problema do país? Ou vai ser mais um ato que ele vai tomar, um ato populista no momento?

BBC News Brasil – O que o senhor acha?

Caiado – Eu acho que é um ato populista no momento em que ele está gastando desenfreadamente e todas as estatais hoje estão dando prejuízo. Eu acho que você não precisa mais cobrar carga tributária.

Existe algum país do mundo que cobre 32% de imposto no bolso? 32% é transferido diretamente para o bolso do presidente.

Então, se eu não tiver controle sobre o gasto público, ele vai taxar todo mundo.

E cada vez em proporções maiores. Ninguém suporta isso.

BBC News Brasil – O governo Lula e o Congresso discutem uma maneira de reagir ao tarifaço de Donald Trump. Qual é sua posição sobre isso?

Caiado – Quem está acompanhando as pesquisas nos Estados Unidos [vê que], pelo visto, está afetando mais os americanos [o tarifaço de Trump não é apoiado pela maioria dos eleitores americanos, segundo as pesquisas].

Então, você tem que saber se aquilo que está tomando como alternativa ali vai ter prejuízo para o Brasil, entre aspas.

Nós temos a Ásia toda de mercado. Qual vai ser o problema para nós? Em que que vai afetar o Brasil?

BBC News Brasil – A exportação de aço, por exemplo.

Caiado – Isso aí é um segmento, um setor ou outro. Você compensa isso em outras áreas. Você tem a Ásia toda aberta hoje. São os maiores consumidores, os maiores importadores que tem do Brasil. Isso aí eu acho que vai ter reflexo na economia interna deles [dos EUA].

Trump segurando cartaz com tarifas para diferentes países ao discursar
Getty Images. ‘Eu acho que vai ter reflexo na economia interna deles’, diz Caiado sobre tarifas impostas por Trump, minimizando o impacto para o Brasil

BBC News Brasil – Então adotar uma política de reciprocidade neste momento não seria necessário?

Caiado – Eu acho que neste momento, por que você não vai procurar outro mercado? Por que essa briga? Hoje nós estamos expandindo tanto, nós temos tantos países que importam do Brasil. Todo produto nosso tem demanda e tem mercado.

BBC News Brasil – O Trump é um grande ídolo da direita. O Tarcísio já usou o boné MAGA [Make America Great Again, um slogan da campanha do republicano]. O senhor acha que algumas políticas que ele está adotando lá, por exemplo, enxugar o funcionalismo público, seria algo que o senhor adotaria aqui?

Caiado – Se você analisar o gasto do Brasil hoje, você vê que gasta em primeiro lugar com Previdência, depois vem o gasto pessoal.

Então, é lógico que isso aí é uma demanda que está dentro do debate. Mas não é por causa do assunto do Trump.

É por isso que eu falo que a eleição próxima é uma eleição que vai exigir muito se o cidadão terá independência moral para poder implantar as medidas que precisa.

Do contrário, o Brasil vai consumindo cada vez mais, tirando dinheiro do bolso do cidadão.

Se você comparar com o BRICS hoje, nós estamos perdendo em quase todos os parâmetros. Então, é o contrário, nós temos que ser um país competitivo.

BBC News Brasil – Uma nova reforma da Previdência, redução do funcionalismo público são medidas impopulares. Estariam em um eventual governo do senhor? O que mais?

Caiado – Primeiro, criaria o Ministério da Segurança Pública. Alavancaria um apoio direto com inteligência e com material e com a cobertura real de fronteiras em nosso país.

A partir daí, daria um outro estímulo aos jovens na área do empreendedorismo. Essa é a vocação do brasileiro. O brasileiro não quer mais ter simplesmente o CLT dele, a carteira assinada, ele quer ter a perspectiva e abrir um novo universo para o mundo todo.

A situação toda da saúde com médicos, as mortes evitáveis que nós precisamos atacar, ou seja, quantos Estados só tem recursos de UTI nas capitais e não tem a regionalização dos hospitais.

Reforma da Previdência, reforma administrativa, cancelamento de excessos de incentivos fiscais direcionados a algumas empresas sem eficiência. Essa tarefa de casa, todo mundo sabe que tem que fazer.

Agora, se ele [um presidente] não tiver coragem para fazer, não vai fazer. Porque ele vai ter que enfrentar debates, discussões.

Às vezes ele [um presidente], como se diz no Brasil, “amarela”. Não consegue levar isso adiante.

Agora, para isso [levar adiante], tem que ter credibilidade. Você não pode nem ser preposto de ninguém e nem pode ser amanhã cumpridor de ordem terceira.

Publicado originalmente em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c9w8r918z81o

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