Depois de derrubar Maduro, EUA apresentaram plano de três fases para consolidar a mudança de regime. Novo governo de Delcy Rodríguez já avançou em duas delas.
Pobreza, o problema mais urgente na Venezuela
Por mais chocante que o ataque dos EUA à soberania da Venezuela possa ter sido para muitos no país, não houve grandes protestos. Muitos até ficaram satisfeitos com a saída de Maduro, relatou Juan Forero, chefe da sucursal sul-americana do The Wall Street Journal (WSJ), à revista Americas Quarterly, após visitar o país em fevereiro: “Eles estavam confiantes de que as coisas melhorariam e que a economia voltaria a funcionar.”
E é justamente isso que importa para a maioria. A Venezuela vem sofrendo com a hiperinflação desde 2017. No ano passado, a taxa ficou em cerca de 500% – o que significa que 100 bolívares dos salários de janeiro de 2025 valiam apenas 20 bolívares quando Maduro foi deposto. Dependendo do método de medição utilizado, entre 50% e 80% dos domicílios viviam na pobreza no ano passado.

Uma pesquisa do instituto Gallup realizada em meados de 2025 mostrou que 64% dos entrevistados afirmaram que os problemas econômicos do país eram sua maior preocupação. Já 14% consideraram a situação política em si o seu principal problema. Apenas 1% priorizou a segurança – isso, em um país com uma das mais altas taxas de homicídios do mundo.
Fase 3: Transição democrática
O governo, por sua vez, está bem ciente disso. “O mais importante agora é a economia”, enfatizou Jorge Rodríguez no início de abril na entrevista ao El País. Eleições democráticas deverão ocorrer em um dado momento, mas não se sabe ainda quando e em que formato.
A repressão também continua. Segundo dados da organização Foro Penal, cerca de 500 presos políticos foram libertados desde janeiro. No entanto, um número semelhante de pessoas ainda permanece encarcerado.
“As reformas implementadas até agora não visam necessariamente a abertura e a democratização, mas sim a manter o governo interino no poder indefinidamente”, afirma Victor M. Mijares, cientista político da Universidade dos Andes, na Colômbia.

Atualmente, o PSUV provavelmente teria poucas chances de vencer novas eleições, na avaliação de Mijares, acrescentando que sua última vitória eleitoral, em meados de 2024, foi altamente controversa. A oposição, segundo sua própria contagem de votos, sustenta que seu candidato teria vencido o pleito por ampla maioria. “No entanto, uma recuperação econômica perceptível poderia mudar esse cenário.”
O governo de Delcy Rodríguez, portanto, estaria ganhando tempo, avalia Forero. Isso também ocorre na esperança de que, com o tempo, os Estados Unidos – no mais tardar, sob um novo presidente – acabem perdendo o interesse na democratização da Venezuela. Afinal, os EUA já deram um sinal de boa vontade ao aliviar as sanções.
Os EUA vão exigir a fase 3?
O cientista político Mijares não acredita que essa estratégia possa dar certo. Por um lado, alguns atores do governo americano levam muito a sério a luta contra o socialismo na América Latina – sobretudo o secretário de Estado Rubio, filho de cubanos exilados.
De acordo com o analista, a pressão adicional vem da economia americana, particularmente da indústria petrolífera, que insiste no Estado de Direito na Venezuela. Para Trump, a democratização da Venezuela é uma espécie de plano para uma “mudança de regime lenta, porém menos custosa”.
Por outro lado, o governo venezuelano enfrenta um dilema. “Rodríguez precisa criar o arcabouço legal necessário para a entrada de capital, algo que, na prática, ela não poderia oferecer como líder de um governo de transição”, pontua.
Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/venezuela-segue-cartilha-dos-eua-nos-100-dias-ap%C3%B3s-queda-de-maduro/a-76789860



