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Como Péter Magyar emergiu para derrotar Orbán na Hungria

Apenas dois anos após romper com o governo, premiê eleito se posicionou como principal rosto da oposição ao mesclar discurso pró-Europa e anticorrupção com pautas tradicionais da direita, como o combate à imigração

Por: DW Brasil | Crédito Foto: Jakub Porzycki/Anadolu Agency/IMAGO. Péter Magyar conseguiu em dois anos sair dos quadros do governo Orbán e virar a principal força da oposição

Até o início de 2024, Péter Magyar era um nome pouco conhecido do grande público húngaro, apesar de ter circulado nas últimas duas décadas pelo núcleo do poder do primeiro-ministro Viktor Orbán, ícone da ultradireita global.

Advogado de 45 anos e ex-integrante do partido governista Fidesz, ele se tornou o principal rosto da oposição de direita e conseguiu no último domingo (12/04) o feito de desbancar seu antigo aliado, que há 16 anos lidera o país.

Magyar filiou-se ao Fidesz em 2002, ocupou cargos em instituições estatais, atuou como diplomata na União Europeia e manteve relações próximas com figuras importantes do governo.

Foi casado com Judit Varga, ex-ministra da Justiça e apontada no passado como possível sucessora de Orbán. Para parte de seus apoiadores, essa trajetória interna foi justamente o que lhe deu credibilidade para desmontar o sistema “por dentro”.

O ponto de virada política de Magyar veio após um escândalo envolvendo a então presidente do país, Katalin Novák, e Varga, que já era sua ex-esposa. Elas renunciaram aos cargos em fevereiro de 2024, após vir à tona que o governo de Orbán, que se dizia defensor das famílias cristãs, ajudou a encobrir um escândalo de abuso sexual num abrigo para crianças.

Magyar agiu rapidamente e rompeu com o Fidesz. Denunciou a corrupção sistêmica no governo e o domínio de uma pequena elite político‑econômica, em entrevista que viralizou e o alçou a líder nacional.

Nas semanas seguintes, ele intensificou suas críticas ao governo e começou a organizar eventos públicos. Lançou um novo movimento político, que mais tarde se tornaria o Partido Tisza, que obteve 30% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu, em junho daquele ano. Magyar tornou-se então eurodeputado.

Com um discurso voltado a problemas cotidianos, como inflação, baixos salários, precarização da saúde e corrupção, o político atraiu eleitores cansados de uma oposição fragmentada.

Evitando posições definidas em temas que ainda enfrentam resistência no país, como garantia de direitos da população LGBTQIA+, Magyar conseguiu unir um espectro amplo de críticos de Orbán. O resultado veio nas urnas, com uma vitória que marcou uma virada histórica na política da Hungria.

Parada gay em Budapeste
Manifestação em Budapeste, em 2021, contra as políticas de repressão à população LGBTQIA+ do governo Orbán. Foto: Anna Szilagyi/AP Photo/picture alliance

O que Magyar prometeu?

Apesar de dois anos de campanha e de um manifesto eleitoral com cerca de 240 páginas, restam muitas dúvidas sobre os planos concretos do futuro primeiro-ministro.

Magyar evitou detalhar muitas de suas propostas, optando por promessas vagas e um discurso de ruptura com o sistema político construído por seu antecessor.

Orbán encarnou o que chamou de “democracia iliberal”, construindo uma barreira na fronteira sul da Hungria para bloquear migrantes da África e da Ásia que se deslocavam para o norte pela Europa. Ele e seu partido restringiram a liberdade de imprensa, a independência do Judiciário e os direitos de grupos como de LGBTQIA+.

O tema da imigração foi um dos poucos em que Magyar foi mais claro em suas propostas, prometendo medidas ainda mais duras. Ele afirmou que irá abolir o programa de trabalhadores convidados, criado por Orbán, e reforçar o controle sobre a entrada de estrangeiros no país.

Em seu discurso da vitória, o primeiro-ministro eleito reiterou a intenção de restabelecer os laços com Bruxelas e a Otan, minados durante o governo de Orbán, e de adotar o euro como moeda nacional. Ele defendeu a condução de reformas para atender às exigências da União Europeia e, assim, destravar recursos para reanimar a economia húngara, hoje praticamente estagnada.

Com isso, ele espera desbloquear bilhões de euros em fundos congelados devido às preocupações de Bruxelas com a erosão democrática no país.

Entre suas principais promessas estão ainda a restauração dos freios e contrapesos institucionais, o fortalecimento do Estado de Direito e o combate sistemático à corrupção.

“Ingressaremos na Procuradoria Europeia e garantiremos o funcionamento democrático do país. Nunca mais deixaremos que a Hungria, como nação livre, seja mantida refém ou abandonada”, declarou, sob gritos de “Europa, Europa” vindos da multidão.

No campo da política externa e energética, o novo líder prometeu reduzir drasticamente a dependência da energia russa até 2035, embora tenha ressaltado que buscará manter “relações pragmáticas” com Moscou.

Orbán era o líder europeu mais próximo do presidente russo Vladimir Putin e havia bloqueado a ajuda da União Europeia à Ucrânia, que tem se defendido da invasão russa. Magyar indicou continuidade em pontos sensíveis: disse que manterá a oposição ao envio de armas para Kiev e se mostrou contrário a uma adesão acelerada da Ucrânia à União Europeia.

 

 

 

Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/como-p%C3%A9ter-magyar-emergiu-para-derrotar-orb%C3%A1n-na-hungria/a-76766397