A morte do francês de extrema direita Quentin Deranque, há um mês, influenciou muito as eleições municipais do país, que normalmente se concentram em questões locais.
Por: Phineas Rueckert | Tradução: Pedro Silva| Crédito Foto: Matthieu Delaty/Hans Lucas/AFP via Getty Images. Um adesivo parcialmente rasgado com o retrato do ativista de extrema-direita Quentin Deranque colado em um mapa da região metropolitana de Lyon
Normalmente, as eleições municipais tendem a se concentrar em assuntos locais. Segurança, conservação de espaços públicos, orçamentos municipais e acesso a serviços como saúde e educação estão no topo da lista de preocupações cívicas na escolha de prefeitos. Este ano, na França, dias antes de suas trinta e cinco mil cidades votarem nas primeiras eleições municipais desde 2020, um novo fator prioritário foi adicionado, alterando sutilmente a dinâmica eleitoral nas disputas locais em todo o país: a sombra da violência política.
Em 14 de fevereiro, o ativista neofascista Quentin Deranque morreu, sucumbindo aos ferimentos sofridos dois dias antes durante confrontos de rua entre grupos de extrema-direita e antifascistas em Lyon. Imagens de vídeo mostram Deranque, membro de vários grupos neofascistas, sendo espancado por membros do movimento antifascista La Jeune Garde, alguns dos quais foram posteriormente identificados como ligados ao movimento de Jean-Luc Mélenchon, La France Insoumise (LFI).
Ocorrendo quase exatamente um mês antes das eleições, a morte de Deranque e suas repercussões políticas tiveram o efeito de uma bomba de fragmentação, espalhando minúsculos estilhaços por todo o país. Nas semanas seguintes à sua morte, a Assembleia Nacional da França dedicou um minuto de silêncio em homenagem ao jovem ativista identitário; a LFI, já demonizada por grande parte da classe política francesa, foi legalmente classificada como um partido de “extrema-esquerda” e teve que evacuar sua sede em Paris devido a uma ameaça de bomba; surtos de violência retaliatória contra organizações de esquerda ocorreram em cidades por todo o país, de Lille, no norte, a Toulouse, no sul; e saudações nazistas foram feitas enquanto grupos de extrema-direita marchavam em memória de Deranque em Lyon e por todo o país.
Essa atmosfera alterou os termos do debate nas eleições municipais, que normalmente se concentram em questões básicas do cotidiano, rumo ao tema complexo da violência política.
Vindo de Marselha, Baptiste Colin, um assistente de produção teatral de 31 anos, me conta que “os debates locais ficaram em segundo plano, o que é uma pena”. “Parece-me que dificilmente conseguimos realizar [as eleições municipais de 2026] como eleições verdadeiramente locais”, explica. “Na verdade, só temos discussões em nível nacional — a favor ou contra Emmanuel Macron, a favor ou contra Mélenchon, a favor ou contra [o ex-ministro do Interior Bruno] Retailleau.”
Na cidade portuária fenícia, um debate televisionado entre os principais candidatos degenerou em uma discussão não planejada sobre Deranque, levando o prefeito de esquerda em exercício, Benoît Payan, a lamentar no jornal francês Le Monde que “a meia hora dedicada a Quentin não estava entre os tópicos planejados… Queríamos falar sobre Marselha”.
“Em vez de debater políticas locais, alguns candidatos podem ser pressionados ou decidir voluntariamente posicionar-se dentro de uma luta ideológica mais ampla”, disse-me Rim-Sarah Alouane, jurista e pesquisadora em direito público da Universidade Toulouse Capitole.
Em Lyon, essa batalha ocorreu nos muros da cidade. Dias após o assassinato, o empresário Jean-Michel Aulas, candidato por uma coligação de partidos de direita e atualmente à frente nas pesquisas, publicou um artigo em um jornal local pedindo ao seu concorrente, o prefeito do Partido Verde, Grégory Doucet, que exibisse a foto de Deranque na prefeitura. Embora o retrato de Deranque não tenha sido colocado lá, foi exibido em um prédio próximo pertencente à região de Auvergne-Rhône-Alpes, da qual Lyon faz parte — e que é governada pela direita.
Para Alix, um estudante de políticas públicas de 28 anos que mora em Lyon, o apelo de Aulas por uma homenagem a Deranque foi um “erro político”. “Ele não era nenhum santo”, diz Alix, que insiste estar mais interessado em ouvir sobre planejamento urbano do que sobre a violência política nas eleições municipais.
No entanto — como demonstrou o debate em Marselha — parece que tomar posição sobre o assassinato, e muitas vezes atribuir culpa, tornou-se um pré-requisito para as eleições municipais deste ano. “Agora não é hora para controvérsia. É um momento de reflexão solene, respeito e solidariedade”, escreveu Thierry Tsagalos, candidato de extrema-direita do Reagrupamento Nacional em Montpellier, no X, após a morte de Deranque. “Permaneçamos unidos. Permaneçamos dignos. E não nos esqueçamos de Quentin.” A publicação, contudo, foi acompanhada de diversas hashtags, incluindo os nomes dos políticos do LFI Raphaël Arnault (cofundador do grupo antifascista Jeune Garde) e Rima Hassan (que discursou em uma conferência no dia em que a violência eclodiu em Lyon) e, em letras maiúsculas, a palavra “ASSASSINOS”.
A extrema-direita francesa procurou capitalizar o assassinato para ganhar terreno em cidades onde antes tinha dificuldades para se manter, sugerindo — apesar das estatísticas históricas provarem o contrário — que é a esquerda, e não a direita, a responsável pela violência política na França. Em Tours, cidade do Vale do Loire, uma reunião da Frente Nacional, de extrema-direita, realizada após a morte de Deranque estava “lotada”, com alguns participantes sendo obrigados a sentar no chão, conta-me Pascal Montagne, fotojornalista local. “Foi um grande sucesso, enquanto que antes isso não teria acontecido.” Um “efeito Quentin”? Não necessariamente, alerta Montagne — a extrema-direita já estava em ascensão na região antes do assassinato.
Como escreveu Philippe Marlière no Guardian, as consequências da morte de Deranque também se refletiram na formação de alianças locais de esquerda antes das eleições municipais — algo importante, aliás, porque as câmaras municipais ajudam a definir a composição do Senado francês. Apesar de fazer parte de uma ampla coligação de esquerda nas eleições antecipadas marcadas para o verão de 2024, a LFI se viu isolada — e fisicamente ameaçada, com múltiplos relatos de agressões contra membros da equipe de campanha em todo o país. Em Paris, uma porta-voz da LFI, Sophia Chikirou, me disse que, ao contrário do que foi noticiado pela mídia e de algumas pesquisas, os ataques contra o partido de esquerda, na verdade, “mobilizaram amplamente” apoio ao partido. “Muitos novos militantes se inscreveram. Na prática, temos a impressão de que muitas pessoas vão votar.”
No diversificado décimo arrondissement de Paris, Marion Beauvalet, diretora da lista da LFI, afirma que, apesar da preocupação inicial com o impacto que a morte de Deranque poderia ter em sua campanha, ela “não é um assunto que surge de forma alguma”. “Para muitas pessoas, as questões importantes são as locais”, incluindo habitação, cuidados infantis e o custo de vida.
Colin, produtor teatral em Marselha, que se posiciona à esquerda, insiste que essas questões locais são importantes. “Uma prefeitura que se incline à direita impactará associações como a minha”, muitas das quais são subsidiadas por governos municipais. “Uma prefeitura que se incline à extrema direita impactará ainda mais.”
Ele menciona uma recente partida de futebol entre Marselha, onde mora, e Lyon, onde cresceu, como um exemplo da divisão na França. No jogo, os torcedores do Lyon carregavam cartazes com o rosto de Deranque. Os torcedores de Marselha responderam com uma mensagem diferente: “Marselha contra o racismo”.
Publicado originalmente em: https://jacobin.com.br/2026/03/como-um-assassinato-politico-dominou-as-eleicoes-municipais-francesas/

