Impacto da escassez de combustível de aviação devido ao fechamento do Estreito de Ormuz já se faz sentir. Lufthansa cancela 20 mil voos, e especialistas alertam para mais cancelamentos e altas de preços.
Por: Arthur Sullivan | Crédito Foto: Hannes P Albert/dpa/picture alliance. Crise atual evidenciou a vulnerabilidade das companhias aéreas a choques de oferta, particularmente na Europa e na Ásia
A guerra no Irã está tendo um profundo impacto no setor da aviação global, com a escassez de combustível e o aumento dos preços causando estragos nas rotas de voo.
Nesta terça-feira (21/04), a Lufthansa, a maior companhia aérea da Alemanha, anunciou o cancelamento de 20 mil voos entre maio e outubro, numa tentativa de economizar combustível.
A companhia aérea afirmou que o corte nos voos de curta distância representaria uma redução de “aproximadamente 40 mil toneladas métricas de combustível de aviação, cujo preço dobrou desde o início do conflito com o Irã”.
A companhia aérea holandesa KLM cancelou 160 voos para o próximo mês na semana passada, enquanto outras companhias aéreas na Europa e em toda a região da Ásia-Pacífico estão aumentando os preços e lidando com a possibilidade de cancelamentos em massa, à medida em que se aproxima o período de férias de verão no Hemisfério Norte.
O diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, afirmou recentemente que a Europa tem reservas de combustível de aviação para apenas seis semanas. Nesta quinta-feira, em entrevista à emissora CNBC, ele disse que o mundo enfrenta a “maior ameaça à segurança energética da história”.
O comissário europeu de Energia, Dan Jorgensen, disse que a situação atual está passando de uma crise de preços altos para uma crise de abastecimento. Ele afirmou que os Estados-membros da UE já estão explorando a possibilidade de compartilhar entre si os estoques de combustível de aviação para manter o tráfego aéreo.
O fechamento contínuo do Estreito de Ormuz interrompeu gravemente os fluxos globais de gás e petróleo. O setor de aviação europeu está particularmente afetado, já que grande parte do querosene que a região importa para combustível de aviação vem do Oriente Médio.
Baixos estoques
No entanto, existe alguma discordância sobre a rapidez com que os estoques podem realmente se esgotar. Na segunda-feira, o governo holandês afirmou estimar que a UE tenha querosene suficiente para combustível de aviação e outros fins, como aquecimento e iluminação, por pelo menos cinco meses.
A Holanda abriga algumas das maiores refinarias de petróleo bruto da Europa, muitas das quais importam querosene e produzem combustível de aviação. A UE produz entre 60% e 70% do seu combustível de aviação, enquanto importa entre 30% e 40%, sendo que cerca de metade dessa importação passa pelo Estreito de Ormuz.
“É um alerta sério e um claro apelo à ação”, diz o economista do banco holandês ING Rico Luman, que é especializado em transportes. Ele acredita que a estimativa de seis semanas pode muito bem se confirmar e que os planos da UE para o compartilhamento de combustível talvez precisem ser postos em prática.
No entanto, John Grant, analista-chefe da empresa de dados de aviação OAG, diz não acreditar que a situação seja tão “grave” quanto algumas estimativas e afirma que muitos dos voos que foram cancelados até agora são em rotas com alta frequência de alternativas.
Quais são os planos da UE?
Os ministros dos Transportes da UE reuniram-se nesta terça-feira para discutir planos para lidar com a escassez de combustível de aviação e fornecer orientações às companhias aéreas. O comissário europeu dos Transportes, Apostolos Tzitzikostas, afirmou que um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz seria catastrófico para a Europa e para a economia global.
A Comissão Europeia pretende apresentar um pacote de medidas relativas à energia e aos transportes, incluindo planos para a gestão coletiva das reservas de combustível de aviação e a possível distribuição das reservas existentes entre os Estados-membros.
Outra medida em análise é permitir que os Estados-membros comprem mais combustível de aviação dos EUA. “Caso esta crise continue, estamos prontos para intervir e flexibilizar as coisas para as companhias aéreas”, disse Tzitzikostas.
Faltam alternativas
A crise evidenciou a vulnerabilidade das companhias aéreas a choques de abastecimento, particularmente na Europa e na Ásia, onde a dependência do querosene proveniente do Oriente Médio é elevada.
Num relatório divulgado em novembro passado pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), a entidade que representa o setor aéreo, foi alertado que “a resiliência do fornecimento de combustível de aviação na Europa diminuiu à medida que a dependência das importações aumenta”.

O relatório afirmou que o setor é especialmente dependente do querosene de aviação convencional e instou os participantes da indústria a intensificarem o uso do combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês), que são combustíveis derivados de biomassa provenientes de plantas, animais ou resíduos.
O regulamento ReFuelEU da UE para o setor da aviação, que entrou em vigor em 2024, exige aumentos graduais no uso de combustível sustentável de aviação nos aeroportos da UE, atingindo 6% em 2030 e 70% em 2050. A taxa a partir de janeiro de 2026 é de 2%. No entanto, a baixa oferta e os altos custos são dois problemas relacionados ao SAF.
“Não existem muitas alternativas para a indústria da aviação”, diz Luman. “Mudar mais para o SAF como substituto não é realista, dada a oferta disponível. Além disso, os preços do SAF dispararam juntamente com o combustível de aviação.”
Preços altos e instabilidade
Mesmo que o fornecimento de combustível de aviação não se esgote completamente, é provável que os altos preços permaneçam, elevando o valor das passagens aéreas para os consumidores.
Embora muitas das principais companhias aéreas pratiquem o “hedge” do combustível de aviação, uma estratégia na qual fixam os preços futuros para se protegerem da volatilidade, algumas abandonaram essa prática nos últimos anos.
Em relação a uma possível saída para a crise, Luman afirma que a única solução realista a curto prazo, supondo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado, é a redução do consumo de combustível. Ele prevê mais cancelamentos como parte de um plano de emergência e diz que o aumento dos preços é inevitável.
Luman cita o exemplo da Ásia, onde os preços do combustível de aviação já são muito mais altos e os comerciantes vendem para quem paga mais. A Cathay Pacific, de Hong Kong, a Air New Zealand e a Air Asia X, da Malásia, já cortaram rotas para economizar combustível, enquanto outras companhias aéreas, tanto na região quanto em todo o mundo, também estão aumentando os preços e introduzindo taxas sobre o combustível.
A crise demonstrou mais uma vez a vulnerabilidade do setor a eventos geopolíticos e pode afetar a confiança do consumidor, um conceito vital na aviação civil. “Isso só demonstra o quão frágil esse setor realmente é”, observa Yi Gao, professor associado da Escola de Aviação e Tecnologia de Transporte da Universidade Purdue, nos EUA. “Sua operação se baseia em muitas premissas, como estabilidade, disponibilidade de espaço aéreo e o preço relativamente acessível do combustível.”
Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/guerra-do-ir%C3%A3-come%C3%A7a-a-gerar-crise-na-avia%C3%A7%C3%A3o-civil/a-76907880

