Brasil, que viu craques nascerem da várzea, das quadras de bairros e campinhos de terra, hoje forma “empresários da bola” lucrativos. Eles despontam nos centros mercadológicos “de formação”. Esporte vive crise existencial – e o país, repetidas derrocadas
Por: Rafael Oliveira | Crédito Foto: Nelson Oliveira
E assim nascia o futebol mais bonito do mundo, feito de requebros de cintura, de ondulações de corpo e de voos de pernas que vinham da capoeira, dança guerreira dos escravos negros.
Eduardo Galeano
No coração de toda favela brasileira existe um espaço sagrado para os jovens periféricos. Pouco importa se é de terra batida, grama ou cimento. Os campos e as quadras de futebol constituem um dos poucos espaços nos quais os meninos podem existir plenamente.
E foi nos campinhos de bairro que se forjaram os maiores jogadores brasileiros que o mundo já viu. Jogadores com muito talento e, acima de tudo, muita personalidade. Mas isso parece ter ficado no passado, pois já não são dos campinhos do Capão Redondo, da Rocinha ou da Restinga que saem nossos craques.
Nossos craques despontam agora dos mercadológicos centros de formação de base, onde aprendem a jogar futebol não de maneira lúdica e divertida, mas sim numa perspectiva profissional e técnica. Por essa razão, é pouco provável que voltemos a ser protagonistas no cenário do futebol internacional, uma vez que a essência do futebol brasileiro foi engolida pelo guloso mercado da bola. Parafraseando Guy Debord, a economia transformou o mundo do futebol, mas transformou-o apenas em mundo da economia.
Voltemos, porém, aos campinhos da favela. Na falta de outras opções de lazer em suas comunidades, são nas peladas do bairro que os meninos encontram forma de brincar e se divertir. Sempre existe aquele que tem a bola e que, por consequência, faz a alegria dos demais. Os rachões, via de regra, são sempre disputados com muita intensidade, talento e, sobretudo, alegria. Na favela não se joga um baba de cara feia.
A cara feia fica em casa, onde muitas vezes não há o que comer. Fica na esquina, numa abordagem violenta e discriminatória da polícia. Fica também na escola, onde se é condenado por não conseguir aprender. O terrão só admite sorrisos, gritos e zueiras. A seriedade só entra em campo quando está em disputa um refrigerante ou qualquer coisa que o valha.
O campo de futebol na favela é o espaço no qual o ser dos jovens pretos e pardos se revela, dado o fato de que a pelada é intrinsecamente ação e liberdade. Ação porque o jogo exige pensamento, movimento e decisão. Liberdade porque não existem limites para a criação e a improvisação. Nesse contexto, sobram as canetas, os chapeuzinhos e os elásticos. Os gols são sempre o limite da espontaneidade. Nada é mecânico, artificial ou burocrático.
No campo ninguém tem vergonha de ser o que é ou o que tem. Pouco importa se ele é um dos poucos brancos da favela. Nada muda pelo fato de ele estar no sexto ano e ainda não saber ler e fazer contas. Pouco importa se alguém é ou não é do movimento. É indiferente o fato de você ter ou não ter roupas e tênis de marca – até porque no terrão joga-se descalço. O que realmente importa é o ser criativo, a capacidade de produzir o novo e de improvisar quando necessário. Também importa a capacidade de resiliência e solidariedade. E não se pode deixar de considerar o respeito, que, à maneira da dinâmica local, está sempre presente dentro das quatro linhas.
Em síntese, são nas peladas da favela que os meninos desfrutam da sensação de ser e existir com força e plenitude. Eles existem no futebol, e não para o futebol.
Contudo, as chances de um menino sair destes campos para jogar profissionalmente nos maiores clubes brasileiros – o que antes não era incomum – hoje em dia são mínimas. Isso porque o processo de formação dos jogadores brasileiros passou por uma profunda transformação nas últimas décadas. Cada vez mais cedo os jovens são admitidos nos clubes formadores de base e passam a ser integrados num sistema formativo em que não vivem no futebol, mas sim para o futebol.
Um dos episódios mais sintomáticos dessa lógica formadora resultou na morte de 10 adolescentes no centro de treinamento do Ninho do Urubu, em 08/02/20191. Mantidos em um contêiner irregular que servia de alojamento e que não dispunha das condições de segurança e conforto necessárias para o abrigo noturno de pessoas, os meninos perderam a vida num incêndio – iniciado num ar-condicionado instalado com imperícia – enquanto passavam a noite no local2. O fato, por envolver crianças, causou grande comoção nacional. No entanto, nenhum dos denunciados pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro foi condenado pela tragédia.
As vítimas, que tinham entre 14 e 16 anos, eram, na sua grande maioria, oriundos de outros estados brasileiros. Estavam no Rio de Janeiro em busca do objetivo de se tornarem jogadores profissionais. Longe de casa, viviam uma rotina de trabalhadores da bola, isto é, jogavam e treinavam futebol dentro de uma lógica estrutural em queestavam sendo preparados para viver para o futebol, e não no futebol.
Nessas circunstâncias em que se encontravam, aquela forma de jogar futebol baseada no lúdico – manifestadamente encontrada no futebol periférico e que sempre fora a base do nosso futebol – já não tem seu lugar na formação dos jogadores brasileiros. Atualmente, desde muito cedo os jovens considerados como potenciais jogadores profissionais são tratados como “joias”. E como toda a “joia”, passam a ser tratados como uma mercadoria capaz de valer muito dinheiro.
Portanto, na base da derrocada do futebol brasileiro está, sobretudo, uma questão existencial, e não necessariamente questões de ordem técnica ou tática.
Deixamos de ser protagonistas porque já não produzimos os maiores craques, dado que sucumbimos diante da lógica econômica do futebol contemporâneo que vê na formação de atletas apenas a oportunidade de lucrar. E o tipo de formação oferecida nos clubes formadores do país é completamente diferente daquela forma de jogar futebol que se verifica nos campos periféricos brasileiros, e onde estão as raízes e a essência do nosso jogo. O futebol profissional brasileiro, infelizmente, deu as costas ao futebol e aos jovens da favela.
Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/quando-o-futebol-brasileiro-perdeu-sua-essencia/

