Apesar das tentativas corporativas e da elite de arrancar o futebol das mãos do povo, ele continua sendo um espaço de luta por comunidade e pertencimento em meio à alienação capitalista. A próxima Copa do Mundo será um campo de batalha sob suas contradições.
Por: Bartolomeo Sala| Entrevista com: David Goldblatt | Tradução: Pedro Silva | Crédito Foto: John Powell/Liverpool FC via Getty Images. O futebol é também, de longe, o espetáculo mais popular do planeta. Isso fez do jogo um catalisador para lutas políticas de todos os tipos
Poucas coisas conseguiram ser tão consistentemente políticas quanto o futebol. Isso se aplica às origens populares do esporte, quando as peladas entre vilarejos serviam de pretexto para destruir cercas que ameaçavam isolar terras agrícolas comuns. E se aplica também a meados do século XIX, quando — expurgado de seus elementos plebeus e codificado segundo um conjunto claro de regras universais — o futebol se transformou em uma ferramenta para recrutar futuros membros da classe dominante britânica para o projeto imperial e iniciá-los no culto atlético amador do cavalheiro vitoriano.
Contudo, o futebol é ainda mais político hoje em dia. O esporte mais popular do mundo não é apenas uma indústria multibilionária e palco para todo tipo de interesse econômico e político, desde fundos soberanos dos Estados do Golfo até empresas de private equity estadunidenses, mas também é o espetáculo mais popular do planeta. Isso fez do futebol um catalisador para lutas políticas de todos os tipos.
O historiador do futebol David Goldblatt ministrará uma série de seminários sobre a história do esporte para a revista Equator. Antes dessas palestras, ele conversou com Bartolomeo Sala para a revista Jacobin sobre como, apesar dos esforços dos interesses financeiros por trás do esporte, as elites simplesmente não conseguem separar a política do futebol.
BARTOLOMEO SALA
Podemos afirmar que você é o maior escritor de futebol do mundo, mas sua formação é, na verdade, em sociologia. Seu primeiro livro, The ball is round [A bola é redonda] (2006), uma obra monumental com mais de 900 páginas sobre a história global do futebol, começa com uma citação de Émile Durkheim. O que despertou seu interesse pelo futebol?
DAVID GOLDBLATT
Boa pergunta. Bem, houve vários momentos, mas se eu tivesse que mencionar um, seria quando, em 1990, fui convidado pelo meu bom amigo Dan Levy para a quarta rodada da Copa da Inglaterra, entre Charlton e Arsenal.
Eu não ia a um jogo de futebol desde criança. Na época, porém, eu estava no meio de um doutorado em sociologia em Cambridge, com foco em teoria social contemporânea e política ambiental, então eu estava bem “sociologicamente envolvido”. Lembro-me de sair da estação de trem para esperar por Dan em frente ao Valley, o estádio do Charlton, e havia uma multidão se formando. De repente, todos os neurônios sociológicos do meu cérebro explodiram simultaneamente em uma profusão de questionamentos intelectuais e admiração pelas regras, tradições, expressões idiomáticas, símbolos e comportamentos ocultos que estavam acontecendo diante dos meus olhos em tempo real.
Uma das coisas mais incríveis foi estar no setor visitante do Arsenal e presenciar, pela primeira vez, na terceira decisão absurda da arbitragem, a torcida do Arsenal, instantaneamente e em uníssono, cantando em coro: “Vocês não sabem o que estão fazendo”. Ou, ainda, quando Perry Groves, o substituto cultuado pelo time, estava se aquecendo, eles cantando “Todos nós vivemos em um mundo de Perry Groves” na melodia de “Yellow submarine”. Foi simplesmente hilário.
Imagino que eu já tivesse lido e refletido bastante sobre subcultura. Stuart Hall e o Centro de Estudos Culturais Contemporâneos de Birmingham são a base da minha vida intelectual. E então, de repente, eu pensei: aqui estamos.
BS
Na introdução de um seminário que ministra por ocasião da Copa do Mundo, você começa citando o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que diz: “A história oficial ignora o futebol”. E, no entanto, se há algo que seus livros demonstram, é como os dois estão irremediavelmente entrelaçados. Em The ball is round, por exemplo, você escreve: “Nenhuma história do mundo moderno está completa sem um relato sobre o futebol”.
Pode nos explicar o que quer dizer com isso? E, em segundo lugar, como é que, num mundo como o nosso, onde tudo gira em torno do dinheiro, o futebol continua a ser uma ferramenta política tão poderosa?
DG
São duas questões muito importantes, então vamos analisá-las uma de cada vez. Afirmar que nenhuma história do mundo moderno está completa sem o futebol, certamente na perspectiva de 2026, parece uma verdade incontestável — na verdade, óbvia — visto que o maior encontro coletivo da humanidade que existe atualmente é a Copa do Mundo de futebol masculino. É o maior espetáculo da Terra.
Quando o Marrocos venceu seus jogos na Copa do Mundo do Catar de 2022, não houve apenas comemorações exuberantes no campo e no estádio, mas em todas as cidades do mundo árabe, de Casablanca, no oeste, a Bagdá, no leste, e em toda a diáspora marroquina na Bélgica, Holanda e França, com dezenas, até mesmo centenas de milhares de pessoas nas ruas. E não se tratava apenas de celebrar o Marrocos, mas um triunfo pan-africano e pan-árabe, com a bandeira palestina e slogans pró-Palestina como elementos centrais dessa celebração.
Então, por que não incluir isso como parte da trama e da estrutura da vida cotidiana que se tenta capturar? Além disso, o futebol sempre foi popular e simbolicamente importante desde o final do século XIX. Ele adquiriu significados e propósitos políticos muito cedo — desde a criação inicial do futebol como uma espécie de culto atlético amador do cavalheiro vitoriano, como uma subseção do programa educacional e político para treinar as elites do Império Britânico. Se isso não é um programa político, eu não sei o que é, e o futebol está no centro disso.
Na década de 1930, o comunismo e o fascismo já haviam chegado. O ultranacionalismo também. Todos encontraram seu espaço no futebol, seja Mussolini na Copa do Mundo de 1934 ou os uruguaios celebrando seus cem anos de democracia na Copa do Mundo de 1930. Há toda uma história paralela, mesmo que, é claro, não seja um reflexo preciso.
Quanto à sua segunda pergunta, sobre se agora tudo se resume a dinheiro… É preciso refletir sobre o que queremos dizer quando afirmamos que o futebol é o espetáculo esportivo profissional, de elite, masculino, no mais alto nível da Europa Ocidental, e talvez em alguns outros lugares do mundo — e essa não é uma posição descabida. No entanto, acho muito importante lembrar que o futebol é muito mais do que isso. É um jogo que as pessoas praticam mais do que qualquer outro na história. O número de mulheres — e de mulheres muito jovens — jogando futebol é altíssimo. O espetáculo profissional ainda não está totalmente dissociado desses mundos da vida cotidiana. Afinal, são esses espaços que criam a cultura e o gosto pelo espetáculo.
Acho também que outro ponto importante a lembrar sobre a comercialização é que, embora haja muito dinheiro circulando, e obviamente os jogadores de elite do esporte ganhem muito dinheiro, os agentes ganhem muito dinheiro, e Gianni Infantino tenha um salário muito bom, os clubes de futebol perdem dinheiro. Existe uma tendência a pensar que o futebol se tornou um grande negócio. Mas as regras da economia neoclássica não se aplicam aqui.
A Premier League britânica é a liga de futebol mais bem-sucedida e popular da história. Seu faturamento anual é quase o dobro do da La Liga. Creio que seja maior do que o da La Liga espanhola e da Bundesliga alemã juntas. Mesmo assim, possui uma dívida de US$ 11 bilhões com um faturamento anual de US$ 7 bilhões. No total, obteve lucro em apenas quatro das trinta e quatro temporadas. O OnlyFans pagou mais impostos corporativos no Reino Unido do que a Premier League em trinta e três anos.
Portanto, a moeda de troca não é o lucro, mas algo mais complexo. Para Vangelis Marinakis, dono do Nottingham Forest, e para os tailandeses, há um capital político em seus países de origem. Além disso, existem projetos estatais explícitos, como o Newcastle United e o Manchester City.
Quero dizer, o clube dominante da era, o Manchester City, é um ativo central do Estado dos Emirados Árabes Unidos. Khaldoon [al-Mubarak], o presidente do Manchester City, possui oito ou nove escritórios no coração do Estado emiradense. Todas essas pessoas reconhecem o futebol como a ferramenta mais eficaz e poderosa disponível para a comunicação popular global.
BS
Parece improvável que o mundo esteja torcendo pelos EUA durante este torneio.
DG
O engraçado sobre a seleção masculina dos EUA é que eles são tão ruins que é difícil odiá-los. Além disso, boa parte da base eleitoral do MAGA realmente não gosta de futebol. No passado, durante as Copas do Mundo, alguns dos radialistas mais polêmicos e artistas performáticos, como Glenn Beck e Ann Coulter, chegaram a dizer que futebol é um jogo de camponeses marxistas do Terceiro Mundo, homens afeminados e mulheres. Ninguém com um único bisavô nascido nos Estados Unidos gosta desse jogo. Essa é a tática. Além disso, recentemente, apoiadores do MAGA e [Donald] Trump criticaram duramente a seleção feminina por ser “progressista demais”.
Então é difícil para eles fazerem como Mussolini e apoiarem a grande seleção dos EUA como essa grande expressão da masculinidade estadunidense. De qualquer forma, é um grupo superdiverso e seu eleitorado é composto principalmente por democratas: mulheres, latinos e profissionais urbanos cosmopolitas.
É possível que, na verdade, a seleção masculina de futebol dos EUA e seus torcedores se apresentem nos estádios como opositores de Trump. Tem havido muito sentimento anti-ICE em faixas nos estádios. Veremos se os Estados Unidos vão lidar com isso com a mesma tenacidade com que os catarianos perseguiram pessoas com bandeiras do arco-íris ou faixas de protesto iranianas em 2022. Não sei o que eles farão com isso.
BS
Nunca pensei no futebol como um cavalo de Troia do marxismo cultural, mas aceito isso de bom grado.
Falando em tensões, a tensão central que você descreve em seus livros é a contradição interminável entre o futebol como ritual coletivo — a última “religião laica”, como foi chamada por [Eric] Hobsbawm, [Pier Paolo] Pasolini e [Jean-Paul] Sartre — e a realidade de ser, se não uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, pelo menos uma expressão externa das formas mais desenfreadas e corruptas do capitalismo.
Um ótimo exemplo disso, como você mencionou, é a Premier League: uma marca global bilionária e um campo de atuação para fundos soberanos do Golfo, empresários gregos obscuros e financistas estadunidenses e fundos de private equity, cujo apelo e romantismo se baseiam, pelo menos em parte, em um apego nostálgico a expressões culturais de origem operária e, muitas vezes, a um tipo muito específico de tribalismo.
Dado o nível de mercantilização e apropriação pelas elites, que sentido faz continuar a considerar o futebol como uma forma de espetáculo público? Não seria melhor pensar nele como uma forma de escapismo? Quase uma dose diária de comunitarismo descomplicado num mundo que se torna cada vez mais individualizado, atomizado e desencantado a cada minuto?
DG
Eu diria, por que não pensar nisso como ambas as coisas? Na maioria das formas de arte e na cultura popular, isso é meio que a norma. Não acho que o futebol seja uma religião, mas definitivamente é um ritual coletivo e uma novela. Só não o chamamos de novela porque, até recentemente, era assistido principalmente por homens. É também uma forma de espetáculo público e um espaço de êxtase coletivo, um pouco como os festivais de música às vezes são.
É tudo isso simultaneamente, então quando olhamos para a captura da Premier League pela elite, por exemplo, suponho que a questão passa a ser: resta algo no futebol que se relacione com seus elementos comunitários, progressistas e lúdicos?
Acho que, em certo nível, há uma batalha acontecendo dentro dos estádios da Inglaterra entre aqueles que desejam comercializar e moldar o espetáculo em cada detalhe, drenando dele todo e qualquer vestígio de humanidade coletiva, inteligência, incerteza ou risco, e aqueles que insistem, com sua própria presença e comportamento, que existe ali um conjunto de relações sociais que não se reduz a uma transação comercial. E isso é algo muito poderoso no capitalismo tardio. Futebol é apenas um jogo. Mas isso não justifica sua irrelevância. Pelo contrário, a razão de sua genialidade e importância é que ele oferece um espaço para valores e vida que resiste à lógica do dinheiro e do poder.
Penso também que, mesmo na sua forma romantizada, a presença e a veneração do que é, em grande parte, uma cultura industrial da classe trabalhadora perdida são incrivelmente importantes.
Quem você acha que construiu a Grã-Bretanha? Foram os trabalhadores que, desde a virada neoliberal, foram excluídos da equação, tanto política quanto historicamente. Acho importante que esse mundo seja preservado. Uma das coisas que mais gosto no futebol inglês é ouvir o noticiário esportivo das cinco da tarde na BBC 5 Live.
Para mim, ouvir falar de Preston, Macclesfield, Chesterfield, Bolton e Hartlepool é como ouvir uma ladainha da geografia da Inglaterra industrial. Não se ouve mais falar desses lugares. É em parte por isso que todos amam a Premier League no mundo todo. Ela conserva, apesar de tudo, culturas de torcedores, comportamentos e atmosferas incrivelmente extraordinários que se baseiam — embora reinventados — na solidariedade, no humor e nos arquétipos daquele mundo perdido.
Finalmente, sobre toda essa questão do espetáculo público, para quem duvida que o futebol não seja um espaço absolutamente vital para a atuação da política progressista, darei apenas dois exemplos: primeiro, Marcus Rashford, um atacante de 23 anos do Manchester United que forçou o governo britânico a mudar as políticas de bem-estar social e alimentação duas vezes; segundo, Gary Lineker, cuja demissão após seu tweet sobre a linguagem da imigração levou a uma greve no programa de futebol Match of the Day, a primeira vez que o programa não foi transmitido corretamente em 64 anos. Ele basicamente venceu a discussão. Tipo, vamos lá, gente, temos que entrar lá! É onde a política com “p” minúsculo acontece! Há um certo elitismo em mim que gostaria que estivéssemos lidando com isso de maneiras menos metafóricas. Mas este é o mundo em que vivemos.
BS
Que mudanças no jogo você gostaria de ver em um mundo ideal? Quais são as coisas pelas quais nós, como esquerdistas e fãs de futebol, deveríamos nos organizar? Estou pensando, em particular, em novos, ou talvez antigos, modelos de propriedade.
DG
Acho que o primeiro ponto a destacar é que os motivos para otimismo são excelentes e a maior mudança que ocorrerá nos próximos trinta anos é o crescimento do futebol feminino. Já vimos uma transformação enorme e acredito que isso continuará.
Em segundo lugar, é preciso fazer algo em relação à governança global e regional. A FIFA, a UEFA e as demais instituições operam numa espécie de zona cinzenta do direito internacional, onde basicamente não prestam contas a ninguém além de seus próprios membros internos. No mínimo — e acredito que o instrumento para isso seja a União Europeia — é preciso haver uma mudança na natureza de sua governança. Penso que todas deveriam ser desmembradas também. Acho que são grandes demais e tentam fazer muitas coisas diferentes. A representação de jogadores, torcedores e mulheres, que atualmente estão ausentes ou são minorias marginalizadas em todas essas organizações, também precisa ser ampliada.
Quanto aos modelos de propriedade, é muito simples. Os alemães já resolveram isso. Nós já chegamos lá — a regra 50+1. Funciona. Você ainda ganha a Copa do Mundo e a Liga dos Campeões. Você tem estádios mais cheios do que em qualquer outro lugar do mundo. Tipo, o que você quer? É muito, muito simples.
Nós, da esquerda — e Trump e a direita populista nos lembram disso —, esquecemos que, com vontade política, audácia e apoio popular suficiente, é possível realizar todo tipo de coisa que foi considerada impossível por muito tempo. Uma dessas coisas seria simplesmente aprovar uma lei que determine que esse deve ser o modelo de propriedade dos clubes de futebol. Isso representa um salto enorme, politicamente, não apenas para o futebol, mas para a política do Norte Global, mas não é nenhum bicho de sete cabeças.
Finalmente, vimos que os torcedores de futebol podem se organizar sem se basearem em questões tribais. Todos nós gostamos do espírito tribal, mas também precisamos ser cidadãos. E na Alemanha e na Inglaterra, em particular, já existem associações de torcedores com atuação nacional que se tornaram grupos de pressão política. Precisamos disso em todos os lugares, e precisamos de mais associações. Você sabe quem costumam ser as figuras-chave, certamente na Inglaterra? Sindicalistas, torcedores de futebol que também entendem de organização. Eis o ponto principal: é preciso se organizar.
Publicado originalmente em: https://jacobin.com.br/2026/05/a-alma-do-futebol-pertence-a-classe-trabalhadora/

