Advogado rico de ultradireita, sem experiência na política e de língua solta vira fenômeno eleitoral. Abelardo de la Espriella, ou “El Tigre”, capitaliza descontentamento com a esquerda para vencer eleição presidencial.
Por: DW Notícias | Crédito Foto: Juan Barreto/AFP. Milionário De la Espriella costuma vestir ternos impecáveis, mas na campanha adotou camisa da seleção colombiana
Atrás de uma proteção de vidro à prova de balas, um advogado rico e de opiniões contundentes transformou-se num fenômeno político. Abelardo de la Espriella – apelidado de “El Tigre” – capitalizou o descontentamento com a esquerda governante para se tornar o presidente eleito da Colômbia.
O outsider de 47 anos, apoiado por Donald Trump, foi eleito neste domingo (21/06) após anos defendendo paramilitares, traficantes de drogas, políticos corruptos e estrelas do futebol.
Num segundo turno acirrado, derrotou o esquerdista Iván Cepeda – aliado do presidente Gustavo Petro – com uma campanha marcada pelo patriotismo e por uma retórica antissistema.
Até bem pouco tempo atrás, De la Espriella era conhecido por sua bem-sucedida carreira profissional e por suas excentricidades, longe de qualquer aspiração política.
A mudança veio em julho de 2025, com a criação do movimento de ultradireita Defensores da Pátria – resposta ao “momento sombrio” que o país, a seu ver, vivia sob Petro.
Deu certo: 11 meses depois, ele largou na frente no primeiro turno, desbancando o uribismo na preferência do eleitorado colombiano de direita. E sem jamais ter ocupado um cargo público.
Advogado de clientes controversos
De la Espriella fez fortuna como advogado defendendo clientes controversos, como o empresário Alex Saab, que está detido nos Estados Unidos sob acusação de lavagem de dinheiro, ou David Murcia Guzmán, protagonista do maior esquema de pirâmide da Colômbia.
Com o sucesso nos tribunais, que o tornou milionário, abriu uma loja, a De la Espriella Style. Nela comercializa marcas próprias, como o rum Defensor, o vinho Fratellone e itens de vestuário e acessórios, como camisas, gravatas e lenços de seda para “defensores da pátria”.

Natural da região caribenha e ultradireitista, se define como judaico-cristão. Diz que deixou para trás a dolce vita na cidade italiana de Florença e que a campanha foi um “sacrifício” em prol da “pátria”, para governar a Colômbia com uma mensagem radical que desperta fervor entre seus apoiadores e medo entre seus críticos.
Em seu estilo de se vestir e em seus gostos culinários, ele se esforça para ser o mais italiano possível. Cantor de ópera amador, chegou até a gravar dois álbuns como tenor, intitulados De mi alma italiana e Navegante.
Por mais armas e mais prisões
Defende o direito ao porte de armas e uma redução de 40% no tamanho do Estado e quer construir megaprisões onde os detentos seriam mantidos “dez andares abaixo da terra” e alimentados com “pão e água”.
Embora manifeste desprezo pelos políticos, ele mantém “uma amizade próxima” com o influente ex-presidente de direita Álvaro Uribe (2002–2010).
Em comícios que incluíam fogos de artifício e sons de rugidos de tigre, ele jurou “reconstruir a República”, defender a democracia “pela razão ou pela força” e tornar-se um “inimigo declarado” da esquerda.
Prometeu derrotar a classe política, gerar riqueza e melhorar a segurança em meio a uma escalada de conflitos armados, no momento em que chegava ao fim o primeiro governo de esquerda da história do país.
Após eliminar a direita tradicional da disputa no primeiro turno, ele adotou uma postura antissistema: “A toda essa máfia que desgoverna a Colômbia, eu digo: aqui está uma manada, um povo que não se ajoelhará e que veio para enfrentá-los” e “para puni-los”.
Determinado a transformar o Estado num empreendimento próspero, ele se inspira em políticos como Javier Milei, Nayib Bukele e Trump.
Espriella costuma usar ternos impecáveis – sem gravata – e mocassins. Também costuma vestir a camisa amarela da seleção nacional de futebol, assim como o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Questionamentos
Detentor de cidadania americana e colombiana, De la Espriella enfrenta uma série de questionamentos sobre sua atuação anterior como advogado e a origem de sua fortuna.
Antes de concorrer à presidência, utilizava as redes sociais para exibir viagens em jatos particulares, ternos sob medida, chapéus e óculos de sol de luxo.
Durante a corrida presidencial, foi alvo de críticas por declarações consideradas sexistas e homofóbicas – comentários que, no entanto, não prejudicaram sua popularidade.
De la Espriella é casado desde 2008 com a administradora de empresas Ana Lucía Pineda, com quem tem quatro filhos.
Ele afirma ter a coragem para governar com “mão de ferro” a maior nação produtora de cocaína do mundo, um país mergulhado num conflito armado que já dura mais de seis décadas.
Também defende o fim do tribunal estabelecido pelo acordo de paz de 2016 com as guerrilhas das Farc – um órgão que julga os piores crimes do conflito armado.
Semelhança física e ideológica com Bukele
De la Espriella tem semelhanças física e ideológica com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, conhecido por sua linha-dura na segurança, e é frequentemente criticado por comentários sexistas e homofóbicos.
Aos que o criticam por nunca ter ocupado cargos públicos, responde que isso é uma vantagem, pois o libera de compromissos com políticos e grupos econômicos, e ressalta sua experiência de empresário bem-sucedido.
Seu companheiro de chapa para a vice-presidência é o economista José Manuel Restrepo, que, com seu prestígio acadêmico, conferiu um tom de maior sobriedade à campanha. Restrepo é defensor da austeridade na economia.
Publicado originalmente em: https://www.dw.com/pt-br/quem-%C3%A9-abelardo-de-la-espriella-eleito-presidente-da-col%C3%B4mbia/a-77657312

