O imperialismo alemão foi responsável pelo primeiro genocídio do século XX em sua colônia na Namíbia. O movimento socialista do país manifestou-se veementemente contra as atrocidades, demonstrando uma solidariedade que transcendia as barreiras raciais e geográficas.
Por: Andrew Bonnell | Tradução: Pedro Silva | Crédito Foto: Ullstein Bild via Getty Images. Quando o povo da Namíbia se insurgiu contra o domínio alemão, o líder socialista August Bebel comparou-os aos ancestrais dos alemães modernos que lutaram contra o Império Romano. Seu elogio à revolta enfureceu o lobby colonial alemão
Foi o primeiro genocídio do século XX.
Em janeiro de 1904, o povo Herero do Sudoeste Africano (atual Namíbia), que estava sob domínio da Alemanha havia apenas vinte anos e que perdia o controle de suas terras e gado para colonos, se rebelou contra os colonizadores, matando cerca de cem alemães. O governo alemão respondeu enviando uma força expedicionária sob o comando do General Lothar von Trotha, um veterano das guerras coloniais, para reforçar a guarnição alemã na colônia.
Em agosto, Trotha estava em posição de atacar os hereros, levemente armados, com artilharia e metralhadoras, derrotando-os e expulsando-os para o deserto do Kalahari. Em outubro, Trotha emitiu o que ficou conhecido como sua “ordem de extermínio”, que incluía as seguintes palavras:
O povo Herero terá que deixar o país. Caso contrário, eu os forçarei a isso através da força das armas. Dentro das fronteiras alemãs, todo Herero, armado ou desarmado, com ou sem gado, será fuzilado. Não aceitarei mais mulheres e crianças. Eu as expulsarei de volta para o seu povo — caso contrário, ordenarei que disparem contra elas.
No mesmo mês, o grupo étnico Nama, menor em número, juntou-se à revolta. Trotha emitiu uma ordem de extermínio semelhante dirigida a eles. Somente no início de 1907 as tropas coloniais alemãs conseguiram aniquilar brutalmente a revolta com força militar esmagadora.
Estima-se que, dos cerca de 80.000 hereros, 75 a 80% morreram: alguns foram mortos em combate, enquanto outros morreram de fome e sede após serem expulsos para o deserto. Mais da metade dos 20.000 nama também foram mortos.
Como reagiu o Partido Social-Democrata Alemão (SPD), o partido socialista em rápido crescimento que representava uma parcela cada vez maior da classe trabalhadora alemã, a esses eventos? Foi dominado pelo nacionalismo e por interesses pró-imperialistas, ou defendeu os princípios do internacionalismo, do antirracismo e dos direitos humanos?
Império e revolta
Os social-democratas alemães emergiram de doze anos de ilegalidade em 1890 muito mais fortes do que antes de sua proibição e adotaram um programa partidário explicitamente marxista em 1891. Eles conquistaram uma parcela maior dos votos em eleições sucessivas até 1903, quando obtiveram quase um terço dos votos válidos — três milhões no total.
“Os social-democratas alemães emergiram de doze anos de ilegalidade em 1890 muito mais fortes do que antes de sua proibição.”
Isso fez deles o partido com o maior número de votos no país, embora os limites eleitorais injustos e antiquados dos distritos do Reichstag os deixassem apenas com o segundo maior número de cadeiras no parlamento. Encorajado por esses sucessos, no Congresso do Partido em Dresden, em setembro de 1903, o líder do partido, August Bebel, previu de maneira confiante uma marcha triunfal rumo à conquista de uma sociedade socialista.
Pouco depois do início da rebelião, o governo alemão solicitou financiamento para uma força expedicionária. No debate no Reichstag em 19 de janeiro de 1904, August Bebel culpou os colonizadores alemães e seu modo de governo colonial pela rebelião, argumentando que os hereros tinham tanta razão em se insurgir contra os invasores alemães quanto as antigas tribos germânicas tiveram na resistência ao Império Romano — um argumento concebido para provocar os nacionalistas alemães chauvinistas da direita.
Os membros social-democratas do Reichstag abstiveram-se da votação sobre os créditos para a expedição, argumentando que ainda não possuíam informações confiáveis suficientes sobre as causas da guerra apenas uma semana após o seu início, e em um primeiro momento não estavam dispostos a votar contra a ajuda aos colonos alemães. (O governo insistia veementemente que os fundos eram necessários para a defesa de civis alemães, incluindo mulheres e crianças — quatro mulheres estavam entre as cem pessoas mortas na revolta inicial.) Mesmo assim, dada a sua oposição ao colonialismo em princípio, os social-democratas recusaram-se a votar a favor da expedição.
Oposição ao colonialismo
Ahistoriografia mais antiga sobre a atitude dos socialistas alemães em relação ao colonialismo focava-se principalmente na ala revisionista e de direita do partido e em suas simpatias pela expansão imperial. Em reação a isso, Jens-Uwe Guettel escreveu sobre “o mito do SPD pró-colonialista”. Na verdade, tanto o programa do SPD quanto a maioria de seus membros se opunham firmemente ao colonialismo.
Em parte, isso se devia a razões fiscais: a maior parte do orçamento da Alemanha Imperial era gasta com o exército e a marinha, e as colônias representavam um custo adicional. O governo imperial dependia fortemente de impostos indiretos sobre alimentos e bens de consumo, pagos em grande parte pelos trabalhadores alemães, para cobrir essas despesas.
“Tanto o programa do partido SPD quanto a maioria dos membros do partido se opunham firmemente ao colonialismo.”
No entanto, além dos argumentos financeiros, os social-democratas alemães também se opuseram ao colonialismo com base no internacionalismo e no respeito ao direito à autodeterminação dos povos, e porque o colonialismo estava associado a práticas capitalistas exploradoras e à corrupção.
As visões anticolonialistas do Partido Social-Democrata são demonstradas não apenas pelos discursos de líderes partidários como Bebel e pelas resoluções oficiais dos congressos do partido. Relatórios de vigilância policial sobre trabalhadores em bares de Hamburgo registram sua hostilidade ao colonialismo. Em reuniões de seções do partido em Berlim, membros de base condenaram veementemente as visões pró-colonialistas de figuras da ala direita do partido.
“Métodos bárbaros de guerra”
Bebel baseou em parte a decisão do partido de se abster na votação sobre o financiamento da expedição militar ao Sudoeste Africano, em janeiro de 1904, na falta de informações. Dois meses depois, ele já dispunha de mais informações e as considerou alarmantes. No Reichstag, Bebel questionou a condução da guerra, especialmente no que diz respeito ao tratamento dado aos prisioneiros herero pelas tropas alemãs e ao fato de que havia sido reportado que nenhum deles havia sido capturado vivo.
Um ano após o início da guerra, Bebel foi ainda mais enfático em sua condenação da condução do conflito. Ele falou longamente sobre a responsabilidade da Alemanha pela revolta, expôs casos de maus-tratos à população africana pelo regime colonial e defendeu o direito dos hereros de lutarem por sua independência. Ele também denunciou os “métodos bárbaros de guerra” das forças alemãs sob o comando do General Trotha.
“August Bebel denunciou os ‘métodos bárbaros de guerra’ das forças alemãs sob o comando do General Trotha.”
Em dezembro de 1906, pouco antes de o governo dissolver o Reichstag antecipadamente para iniciar uma campanha eleitoral nacionalista que tinha como alvo os social-democratas por sua oposição antipatriótica à guerra colonial, Bebel continuou a criticar duramente a condução da guerra no parlamento e a argumentar que os hereros estavam justificados em se rebelar contra a perda de suas terras e gado.
Ele também denunciou explicitamente a campanha de extermínio e aniquilação do Exército Alemão — a palavra genocídio ainda não existia na época —, lendo a “ordem de aniquilação” do General Trotha no plenário do parlamento e condenando a forma como os hereros foram forçados a fugir para o deserto para morrer de sede e fome.
Ridicularizando o exército
Os social-democratas não limitaram sua oposição à guerra no Sudoeste Africano a discursos no parlamento. O partido possuía uma ampla gama de jornais e periódicos, que podiam alcançar milhões de leitores.
Por exemplo, a revista satírica ilustrada Der Wahre Jacob (“O Verdadeiro Jacob”) teve uma tiragem de cerca de 200.000 exemplares durante esse período, o que pode ter elevado seu número de leitores para um milhão, considerando as grandes famílias da classe trabalhadora e os exemplares disponíveis em bares e salas de leitura frequentados por membros do partido. O partido também contava com dezenas de jornais diários, incluindo o Vorwärts, com sede em Berlim, que ultrapassou a marca de 100.000 exemplares por dia nesses anos.
“A imprensa partidária fez uma forte campanha contra a guerra, apesar da ameaça sempre presente de processos judiciais com motivação política.”
A imprensa partidária fez uma forte campanha contra a guerra, apesar da ameaça constante de processos judiciais com motivação política por ofensas como insultar o exército. O antimilitarismo foi um tema recorrente na imprensa socialista alemã até a véspera da Primeira Guerra Mundial. O jornal Der Wahre Jacob publicava frequentemente charges satirizando o corpo de oficiais e criticando a conduta dos militares na colônia.
Havia caricaturas mostrando um oficial aristocrata prussiano em plena retirada diante de uma multidão de combatentes herero e o General Trotha sendo enganado pelos herero, que conseguem escapar da captura. Em resposta a uma reportagem que afirmava que Trotha teria oferecido 5.000 marcos pela cabeça do líder rebelde Samuel Maharero, a revista publicou uma suposta resposta de Maharero: “Eu não lhe daria cinco marcos pela cabeça de um general prussiano.”
Escudo e espada
Nem todas as representações da guerra na revista tinham um tom humorístico. Havia também imagens que retratavam drasticamente as atrocidades alemãs no Sudoeste Africano. Uma caricatura de janeiro de 1905 mostrava um africano sendo segurado por um soldado alemão enquanto outro o golpeava com uma baioneta. Um missionário observa a cena, abençoando-a e perdoando os perpetradores. Outras imagens retratavam fuzilamentos em massa de africanos.
Embora Der Wahre Jacob satirizasse o corpo de oficiais alemães, ainda assim demonstrava compaixão pela situação do soldado comum em um exército notório por sua disciplina brutal com os recrutas. Os soldados alemães eram retratados como bucha de canhão, seus corpos jazendo no deserto entre os corpos de africanos mortos.
“Der Wahre Jacob retratou os Herero e os Nama como povos que travavam uma luta justa por seus próprios direitos contra um sistema colonial inerentemente injusto e opressor.”
A revista Der Wahre Jacob retratou os Herero e os Nama como povos que travavam uma luta justa por seus próprios direitos contra um sistema colonial inerentemente injusto e opressor. Ecoando August Bebel, a revista comparou Hendrik Witbooi, o chefe Nama que liderou uma campanha de guerrilha contra o domínio alemão, com o herói nacional alemão Armínio, ou Hermann, dos Queruscos, que derrotou os romanos na batalha da Floresta de Teutoburgo em 9 d.C.
Uma expressão gráfica de solidariedade aos Herero e Nama em sua resistência ao domínio alemão podia ser vista na capa do jornal Der Wahre Jacob, em janeiro de 1907. Isso ocorreu algumas semanas antes das eleições nacionais, que o governo optou por realizar como uma campanha pró-imperialista contra os social-democratas.
Uma figura feminina alegórica representando o socialismo, usando o revolucionário barrete frígio vermelho e empunhando um escudo e uma espada, é mostrada defendendo um grupo de africanos contra o colonialismo alemão, personificado pelo Secretário Colonial Bernhard Dernburg e pelo Chanceler Bernhard von Bülow. A imagem é uma paródia direta de uma notória gravura racista criada pessoalmente pelo Kaiser Guilherme II, que convocava os europeus a se defenderem contra o “Perigo Amarelo”, em referência à ascensão do poder asiático.
Expondo o genocídio
Acobertura da guerra pela imprensa social-democrata não se limitou ao Der Wahre Jacob ou ao seu equivalente em Munique, o ilustrado Süddeutscher Postillon (“Postão do Sul da Alemanha”). O principal jornal do partido, o Vorwärts, condenou os abusos sofridos pelos povos Herero e Nama nas mãos dos colonizadores alemães. No final de 1904, o jornal já se manifestava abertamente sobre “o extermínio dos Herero” levado a cabo pelo General Trotha.
O jornal de esquerda radical Leipziger Volkszeitung (“Jornal do Povo de Leipzig”) também era militante da causa anticolonialista e se manifestava veementemente contra a condução da guerra. Na cidade provincial prussiana de Posen (atual Poznań), Rosa Luxemburgo publicava comentários críticos sobre a guerra para os trabalhadores poloneses da província no jornal em língua polonesa Gazeta Ludowa (“Jornal do Povo”).
“A dificuldade de comunicação e as exigências da guerra impediram qualquer contato direto entre o partido e os povos Herero ou Nama.”
A posição dos social-democratas alemães em relação ao Sudoeste Africano apresentava limitações. Permanecia em um nível bastante teórico e indireto: como salientou um delegado no Congresso do Partido em Bremen, em 1904, o partido não tinha representantes locais na colônia. A dificuldade de comunicação e as exigências da guerra impediam qualquer contato direto entre o partido e os povos Herero ou Nama. Contudo, notícias sobre os discursos de Bebel no Reichstag chegavam aos alemães no Sudoeste Africano.
Algumas das caricaturas humorísticas de africanos na imprensa socialista refletem as convenções gráficas estereotipadas da época, embora estas sejam superadas por representações que contrariam as imagens cada vez mais racistas que surgiram na Alemanha durante a guerra. As publicações do partido enfatizavam a humanidade dos Herero e Nama e defendiam seu direito à revolta.
Havia também uma minoria à direita do Partido Social-Democrata que se inclinava a justificar o colonialismo com o argumento de que ele disseminava o desenvolvimento econômico e, portanto, contribuía para elevar o “nível civilizatório” dos povos colonizados. Mas a maioria dos socialistas alemães rejeitava veementemente esse raciocínio.
Diante de uma campanha concertada de histeria nacionalista e racista contra insurgentes africanos, os social-democratas alemães se manifestaram contra o genocídio, um crime que ainda não tinha um nome no direito internacional, e condenaram o regime colonial opressor que o governo imperial alemão impunha a um povo distante. Poucos socialistas alemães chegariam a conhecer um membro dos povos Herero ou Nama, mas eles se manifestaram em defesa de seus direitos humanos e à rebelião.
Publicado originalmente em: https://jacobin.com.br/2026/04/quando-os-socialistas-alemaes-se-mobilizaram-contra-o-genocidio-na-namibia/

