Por: Julia Braun | Crédito Foto: Ricardo Stuckert / PR. Lula fez sua primeira reunião bilateral às margens do G7 com Emmanuel Macron, presidente da França e anfitrião do evento
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) inicia nesta terça-feira (16/06) sua participação oficial no G7 – o fórum que reúne sete das maiores economias industrializadas do planeta.
Lula foi convidado para o evento, que acontece em Évian-les-Bains, na França, pelo presidente francês, Emmanuel Macron. É costume que o anfitrião do fórum escolha alguns países não membros do G7 para acompanhar as discussões ampliadas, a partir do segundo dia de reuniões.
Quem também está na pequena cidade francesa na fronteira com a Suíça para o encontro é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A presença dos dois líderes no mesmo local ampliou as expectativas para possíveis interações, em um momento de novo tensionamento da relação diante da possibilidade da aplicação de uma taxação extra de 25% sobre parte das importações brasileiras.
Até o momento, não houve confirmação sobre uma possível reunião bilateral entre Lula e Trump — e interlocutores afirmam que o governo brasileiro não pediu um encontro privado à Casa Branca.
Os dois líderes, porém, podem se cruzar durante as reuniões ampliadas da cúpula ou nos corredores do evento.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, conquistar a atenção do presidente americano deve ser um grande desafio para o governo brasileiro, que concorre com outras diversas lideranças mundiais em meio a grandes crises globais, tal como as guerras no Irã e na Ucrânia e a instabilidade nas relações transatlânticas causada pela política isolacionista trumpista.
Este também vai ser o primeiro contato entre Lula e Trump após o governo americano passar a designar formalmente as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
A participação do Brasil no fórum do G7 abre ainda as portas para um diálogo mais próximo com a União Europeia (UE). Há uma semana, o bloco oficializou sua decisão de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no país, em um veto que deve entrar em vigor a partir do próximo dia 3 de setembro.

Um encontro com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, está previsto para esta terça-feira.
Segundo interlocutores, a reunião bilateral foi um pedido dos próprios europeus.
O presidente brasileiro já se encontrou com Macron, na tarde de segunda-feira. Os dois trataram de cooperação em defesa, tecnologia e sobre as expectativas para a cúpula.
Após a reunião, Lula compartilhou imagens dos dois nas redes sociais e afirmou que o fórum é uma oportunidade para o Brasil representar o Sul Global e reafirmar “seu compromisso com a paz, a defesa do multilateralismo, o desenvolvimento sustentável e a construção de um mundo mais justo”.
As prioridades do G7
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, Lula pode encontrar dificuldades para navegar entre as lideranças do G7 em um momento em que as atenções do mundo estão voltadas para outros temas além daqueles priorizados pelo governo brasileiro.
Por um lado, o foco da comunidade internacional são os dois grandes conflitos atuais: no Irã e na Ucrânia.
Os EUA e a República Islâmica anunciaram na noite de domingo (14/06) a conclusão de um acordo de paz para encerrar o conflito entre os dois países, que começou em 28 de fevereiro.
A assinatura do pacto está prevista para a próxima sexta-feira (19/06), quando também se espera a reabertura do estreito de Ormuz, bloqueado desde meados de abril.
Até agora, porém, há poucos detalhes sobre o acordo – e muitas dúvidas sobre a possibilidade dele se manter de pé, diante da volatilidade da região e dos muitos anos de negociações fracassadas entre EUA e Irã.
Por se tratar de um acordo preliminar, que possivelmente terá mais desdobramentos nos próximos dias, o tema ainda deve ganhar grande destaque na agenda dos líderes das sete maiores economias industrializadas do mundo em Évian, diz Clarissa Forner, professora de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
A expectativa é que Trump use o fórum para promover suas conquistas com o acordo, aponta a especialista.
Além disso, diz, o presidente americano deve cobrar a Europa por mais apoio aos EUA diante dos embates no Oriente Médio.
“As prioridades norte-americanas serão ainda muito balizadas pelas questões relacionadas à guerra com o Irã, principalmente no sentido de pressionar, como tem sido praxe, por maior envolvimento europeu nos esforços militares”, destaca Forner.

Lauren Sukin, professora de Política Externa dos EUA da Universidade de Oxford, aponta ainda que com o encaminhamento das negociações, a reversão dos efeitos econômicos da guerra ganha mais destaque.
“Existem preocupações não apenas em relação à cadeia de suprimentos de combustíveis e segurança energética, mas também com a produção de fertilizantes e a segurança alimentar, além de uma vasta gama de outras questões relacionadas à cadeia de suprimentos que foram afetadas pela guerra”, diz a analista.
Já os europeus querem aproveitar as conversas no G7 para pressionar os Estados Unidos por mais protagonismo na ajuda prestada à Ucrânia diante da invasão russa, dizem os especialistas.
Esse tem sido um tema constante na relação da UE com Trump desde que o presidente americano suspendeu a ajuda militar ao governo do presidente Volodymyr Zelensky no ano passado.
Além de tudo isso, o G7 passa por um momento de crise interna, aponta Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e do Carnegie Endowment for International Peace e professor da FGV.
“O G7 vive uma profunda crise, com muitas dúvidas sobre sua relevância devido à crise na relação transatlântica”, disse.
Segundo Stuenkel, os Estados Unidos possuem hoje uma postura hostil em relação à maioria dos outros governos dos G7, especialmente quando se trata do Canadá e do Reino Unido.
Isso significa que há pouco espaço “para criar consensos”, afirma. “E a presença do Brasil não mudará esse quadro de fragmentação geral”, diz.
Esta é a décima vez que Lula participa do fórum anual do G7, ao longo de seus três mandatos. São membros plenos do grupo: Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Japão. A UE participa como membro institucional.
Além do Brasil, estão entre os convidados extras deste ano Ucrânia, Índia, Quênia, Coreia do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos e Catar.
Brasil ‘escanteado’?
Nesse contexto, as pautas de interesse imediato do Brasil com os EUA podem ficar em segundo plano, segundo fontes ouvidas pela BBC News Brasil.
Para Lauren Sukin, da Universidade de Oxford, um encontro com Lula provavelmente não está na lista de prioridades de Trump no fórum.
“Mas a administração Trump nem sempre planeja essas cúpulas com a mesma precisão que administrações anteriores, então ainda pode ter algum espaço sobrando na agenda, a depender de como a cúpula se desenrola”, afirma.
Por outro lado, afirma a especialista americana, a administração americana tem atuado para reduzir a dependência de outros países da China e o tema pode ser uma forma de atrair a atenção de Trump.
“Assim, é possível que o Brasil, ao destacar, por exemplo, suas vantagens em minerais críticos ou novas oportunidades de investimento, se torne atraente para o governo Trump, principalmente se os temas forem apresentados como uma forma de se desvincular da China”, diz.
Uma fonte no Ministério de Relações Exteriores afirma ainda que não há espaço em uma cúpula do G7 para discutir temas específicos da relação Brasília e Washington, como as ameaças de taxação e a designação de organizações criminosas como terroristas.
Ainda segundo esse interlocutor, que pediu para não ser identificado, essa nunca foi a expectativa do governo brasileiro em Évian.

Já uma discussão sobre o veto à carne brasileira pela UE poderia ser abordada na reunião com os representantes de Bruxelas.
Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam, porém, que um avanço ainda é improvável neste momento.
“Acho pouco provável que possa haver uma reversão rápida” da medida, avalia Oliver Stuenkel.
A decisão europeia de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no Brasil foi oficializada na semana passada. Segundo a Comissão Europeia, o país não conseguiu comprovar que seus produtores atendem a algumas das exigências sanitárias europeias, especialmente que não utilizam, ao longo de toda a cadeia produtiva, medicamentos antimicrobianos para tratar e prevenir infecções em animais.
“Obviamente que eu acho que o recado principal que nós queremos passar aos europeus é que ficamos assim um pouco surpresos da maneira como foi. Nós estamos vendo algumas medidas da União Europeia que nos causam alguma preocupação. E o tom da discussão, se houver, ou em outros momentos, não necessariamente no G7, vai ser esse, com uma certa preocupação por esses últimos desdobramentos e ver o que a gente pode fazer para resolver as questões”, apontou antes do evento o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores (MRE), que acompanha diretamente as tratativas.
Para Oliver Stuenkel, é comum que decisões como a da UE sejam tomadas após um grande acordo comercial — como o que entrou em vigor de forma provisória entre o bloco e o Mercosul em maio —, como uma forma de defender os produtores locais.
“[O acordo] foi uma grande derrota para a agricultura europeia”, diz o pesquisador da Universidade Harvard. “O veto é uma espécie de reação política para abafar essa mobilização.”
Mas ainda que Lula volte ao Brasil sem um encontro cara a cara com Trump ou representantes da União Europeia durante o G7, isso não significa necessariamente que a viagem para o fórum tenha sido um desperdício de tempo, apontam os analistas ouvidos pela reportagem
“Há outros espaços possíveis de reivindicações e de negociação que extrapolam a relação com os EUA e isto pode ser muito positivo, na verdade”, diz Clarissa Forner, da UERJ. “Explorar essas outras alternativas me parece ser parte importante do cálculo da delegação brasileira.”
“No caso dos EUA, me parece menos provável que haja avanços significativos, neste momento, mas um possível encontro bilateral entre os presidentes ou os contatos entre delegações podem abrir margem para outras negociações futuras, especialmente no campo tarifário.”
Sul Global, IA e minerais críticos
Lula já tem reuniões bilaterais costuradas com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, e com o primeiro-ministro do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi. Ambas devem acontecer ainda na tarde desta terça, no horário local.
Também hoje, o presidente brasileiro discursa durante uma sessão sobre solidariedade internacional aos países em desenvolvimento.
A expectativa é que Lula cobre a ampliação da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD). A chamada AOD, que no inglês é Official Development Assistance (ODA), refere-se a repasses financeiros realizados pelos países mais industrializados do mundo para promover o bem-estar e o desenvolvimento econômico de países em situação de mais vulnerabilidade.
Na quarta-feira (17/06), em outra sessão de líderes, Lula participa de sessão sobre crescimento econômico equilibrado, na qual deve defender a necessidade de reforma da governança global, especialmente em instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a própria Organização das Nações Unidas (ONU).
A pauta é considerada importante para a diplomacia brasileira e é frequentemente discutida por Lula em fóruns internacionais.

Ainda no dia 17, a comitiva brasileira participará de um almoço que terá como tema central a Inteligência Artificial (IA).
Sam Altman, da OpenAI, Dario Amodei, da Anthropic, e Arthur Mensch, da Mistral, participam juntamente com outros oito representantes da indústria tecnológica do fórum.
O Brasil tem interesse em influenciar esse debate para garantir que este não seja um tópico dominado pelos países do Norte Global e pela China, aponta Oliver Stuenkel. O governo Lula também tem demandado maior regulação da atuação de empresas do setor tecnológico.
Segundo fontes do Ministério de Relações Exteriores, há um desejo de apresentar os avanços do Brasil na área, com alterações promovidas no Marco Civil da Internet, como exemplo para o resto do mundo.
A Presidência francesa também espera assinar, ao final do fórum em Évian, um entendimento sobre a diversificação das cadeias de minerais críticos.
Interessa a Lula e sua delegação explorar o tema, segundo o próprio governo brasileiro.
O Brasil já vem discutindo com lideranças estrangeiras a questão da industrialização do setor, como uma forma de garantir mais investimentos para que o país não seja apenas exportador e a matéria prima vendida ganhe mais valor agregado.
Mas uma fonte no Itamaraty afirmou que os rascunhos do documento apresentados até o momento podem não se alinhar totalmente com a visão brasileira sobre o formato de cooperação internacional na área.
Não há ainda, no entanto, uma decisão final do governo Lula sobre a possibilidade de endossamento do texto.
Publicado originalmente em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cr5j2edn904o

