Por: Vitor Tavares | Crédito Foto Acervo/Pastoral da Criança. Famílias recebem colheres-medida de soro caseiro em campanha da Pastoral da Criança – não há registro de quando a imagem foi tirada
A mulher parecia estar em êxtase. Com as mãos apontadas para o céu, ela agradecia pela vida da filha que um dia antes havia recebido uma sentença de morte.
Era o fim dos anos 1980, e ela tinha ouvido de um médico de Bacabal, no interior do Maranhão, que sua bebê em estágio avançado de desidratação deveria ser “levada para morrer em casa”.
O destino parecia ser o mesmo de tantas outras crianças que morriam na zona rural das regiões mais pobres no Brasil — não fosse a mãe capaz de testar em casa uma receita que começava a se disseminar pelo país: a do soro caseiro.
Um punhado de açúcar, uma pitada de sal, mistura em um copo de água e oferece aos poucos. Pela manhã, a menina começava a voltar à vida.
“Pois é, o médico desenganou, mas eu consegui salvar. Se eu consigo mais que o médico, o que mais eu posso no mundo?”, celebrava a mulher.
Quem ouviu e lembra dessa história ainda com detalhes é o médico Nelson Arns Neumann, epidemiologista que atuou junto à diocese de Bacabal pela Pastoral da Criança, a entidade social com foco na saúde infantil ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Filho da pediatra e sanitarista Zilda Arns, fundadora da Pastoral que morreu em missão durante um terremoto no Haiti, Nelson Neumann viu de perto as discussões acaloradas nos anos 1980 sobre a possibilidade de introduzir o tratamento de reidratação oral para crianças com quadros graves de diarreia no Brasil.
No início daquela década, o Brasil tinha uma taxa de mortalidade infantil média de 76,36 para cada 1 mil nascidos vivos, segundo o banco de dados das Nações Unidas (ONU). Em 2024, segundo o Ministério da Saúde, o índice foi de 12,6, uma redução drástica em quatro décadas.
E uma das principais causas de morte de crianças era a diarreia, especialmente as mais pobres. Uma pesquisa do Ministério da Saúde mostrou que, em 1980, 32.704 crianças morreram pelo quadro, contra 3 mil em 2000. Nos dados mais atuais disponibilizados pelo governo, foram 176 mortos em 2024.
Até os anos 1980, quando o quadro diarreico levava à desidratação, o tratamento era exclusivamente por via intravenosa e feito nas unidades de saúde.
Para crianças muito pequenas, o soro de reidratação era aplicado na moleira, região da cabeça que não tem cobertura óssea nos primeiros meses de vida.
“Você chegava nos hospitais e via aqueles corredores lotados só com crianças recebendo soro por desidratação na cabeça”, lembra o médico Nelson Neumann.
Era um tratamento caro, recorrente e, muitas vezes, inalcançável para os que mais precisavam dele, nas áreas distantes dos grandes centros.
Com início da campanha do soro caseiro após a fundação da Pastoral da Criança, em 1983, brasileiros de todas as regiões passaram a aderir a uma nova forma de tratar o problema em casa.

A campanha era inspirada em resultados vistos em outras partes do mundo, como Bangladesh e Egito, que experimentavam as descobertas do médico Nobert Hirschhorn sobre os sais de reidratação oral.
Foi essa mistura, disponibilizada em pacotes para ser diluída em um litro de água, que passou a ser distribuída primeiro no Brasil por meio das equipes católicas.
Mas foi só nos anos 1990 que o país passou a aderir ao objeto que viria se tornar símbolo da campanha: a colher-medida, que permitiu fazer a receita apenas com sal e açúcar, em casa.
Responsável por pesquisas em 1989 que avaliaram o preparo do soro por famílias no Nordeste antes da colher-medida chegar, o médico epidemiologista em saúde infantil Cesar Victora lembra que havia um debate no Brasil sobre os dois métodos disponíveis.
Um era com os tais pacotes de sais distribuídos; outro, a partir de uma receita ensinada às famílias: “Um punhado de açúcar e uma pitada de três dedos de sal”.
Os pesquisadores que visitaram as famílias chegaram à conclusão que havia muitos problemas no preparo em casa, fosse com os sais ou com medidas subjetivas com a mão, o que levava à diluição em quantidade de água insuficiente, podendo agravar ainda mais o problema da criança.
Mas, entre os dois métodos, o soro caseiro tinha a vantagem de poder ser imediatamente preparado com sal e açúcar, que estão disponíveis em qualquer lugar.
“A criança não precisa esperar que a família obtenha o pacote em farmácia ou serviço de saúde”, explica à BBC News Brasil o epidemiologista Cesar Victora, presença constante nos rankings de pesquisadores mais influentes no mundo.
A partir dessa e outras pesquisas, milhões de colheres-medida passaram a ser fabricadas e distribuídas gratuitamente.
“Com isso você colocou na mão da mãe a possibilidade de fazer um tratamento em casa”, diz Nelson Neumann.
Só entre 1998 a 2024 (período em que a Pastoral possui dados), foram mais de 11 milhões de colheres entregues aos brasileiros.
Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério da Saúde informou que a distribuição seguiu só até 2004, “em virtude do aumento da cobertura da Estratégia Saúde da Família e da redução da mortalidade infantil por desidratação”.
A importância do soro caseiro — seja pelos sais ou pela colher — foi tanta que a publicação científica Lancet descreveu a terapia de reidratação oral como “potencialmente o avanço médico mais importante” do século 20, que pode ter salvado até 50 milhões de pessoas.
O Unicef, fundo das Nações Unidas para infância, disse que nenhuma outra inovação médica do século “teve o potencial de evitar tantas mortes em um curto período de tempo e custo tão pequeno”.
Como Brasil ‘abraçou’ a colher
Os primeiros pacotes com os sais de reidratação oral chegaram ao Brasil junto à criação Pastoral de Criança, em 1983.
A ideia surgiu de um encontro entre dom Evaristo Arns, irmão de Zilda e tio de Nelson, e o então diretor da Unicef, James Grant. Na conversa, os dois falaram sobre os resultados positivos na Ásia e África da terapia de reidratação oral.
“Grant dizia que os pacotes não chegavam onde precisa. E que ele ouviu falar que a Igreja Católica chegava aos pobres”, relata Nelson Neumann.
Dom Evaristo entregou os pacotes a Zilda, que passou a tentar convencer organizações brasileiras, como a Sociedade de Pediatria, a adotarem e recomendarem o tratamento.

Com a classe médica convencida aos poucos, o Brasil esbarrou no problema de logística para a entrega de pacotes.
“Minha mãe avaliou que no interior do Nordeste não chegava o suficiente. Em alguns postos de saúde, chegavam a vender, em vez de distribuir”, diz Nelson Neumann. Outro problema era o de armazenamento em unidades sem estrutura.
Pela falta de disponibilidade de pacote, passou ser ensinada a receita caseira — com punhados ou pitadas.
“Falava-se de uma pitada de sal para oito de açúcar. Foi um desastre, porque a maioria das famílias se perdia ao contar até sete”, lembra Neumann.
O problema de diluição, com mais ou menos açúcar ou sal, fazia com o que organismo absorva menos água, piorando o quadro.
Atenta também a esse problema na África, a organização Teaching-aids at Low Cost (TALC) do pediatra britânico David Morley, foi a primeira a criar uma colher-medida, chamando a atenção da Pastoral da Criança. A colher logo se tornou um item desejado por famílias africanas, que chegavam a decorar o objeto com miçangas.
Mas havia mais um problema aqui. As pesquisas da Pastoral identificariam que o açúcar usado na África era mais denso do que o açúcar utilizado no Brasil. Ou seja, se a mesma a colher africana fosse utilizada, o resultado da solução de soro seria diferente.
Junto à Unicef, a Pastoral fez experimentos e mudou os tamanhos da ponta de medição de açúcar da colher brasileira. Assim, passou a distribuí-las em grande escala.
“A vantagem da colher é que estaria disponível em casa, e uma vez ensinada a quantidade correta de água (200 ml), o problema da alta concentração [de açúcar ou sal] desaparecia”, diz o médico Nelson Neumann.

Na segunda fase, iniciou-se uma campanha para fixar a medida de 200 ml nas casas da família. As equipes da Pastoral iam às casas e marcavam o volume com um esmalte em algum recipiente que fosse usado para o soro.
O pico da campanha foi em 1994, quando se formou um grupo de defesa do direito da criança, inclusive com a participação de emissoras de TV que promoveram campanhas massivas.
Uma das músicas que ficaram famosas explicava: “Um copo cheio de água limpa / Uma medida de sal / Duas medidas de açúcar / E tudo vai ficar legal / Dê o soro para criança / Dê bastante e devagar / Corra para o posto médico /Se ela não melhorar”.
“As salas das unidades básicas de saúde que existiam apenas para reidratação começaram a ficar vazias”, conta Neumann.
“Não tinha mais demanda suficiente para a sala existir. Aquilo que mais matava, as mães sabiam agora manejar em casa.”
De acordo com Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o soro de reidratação oral foi um marco importante para o tratamento da desidratação e para a redução da hospitalização por diarreia aguda, por promover uma recuperação rápida.
Segundo Maria do Carmo Barros de Melo, do departamento de gastroenterologia da SBP, a orientação hoje é que as famílias busquem os pacotes com os sais de reidratação nas unidades de saúde, sendo o soro caseiro feito com a colher um “importante aliado” caso a família não tenha acesso aos pacotes.
A colher hoje

A colher não é mais distribuída pelo SUS, mas ainda é uma ferramenta essencial no trabalho da Pastoral da Criança.
“Ela é importante pelo baixo custo e a rapidez que pode salvar vida”, diz o enfermeiro Gean Soares, da coordenação nacional da Pastoral.
Para Neumann, a menor demanda pelo objeto, é um sinal de que a vida do Brasil melhorou.
Mesmo com uma colher em casa, explica, hoje já há o entendimento de que o ideal é que a criança não evolua para um quadro de desidratação.
A orientação do médico é manter a todo custo a alimentação das crianças doentes. Antigamente, diz, havia uma forte crença de que era para evitar oferecer comida aos filhos com diarreia. Isso levava aos casos de desidratação e desnutrição.
Caso a criança evolua o quadro para desidratação, com bocas secas, olhos fundos e pele sem elasticidade, ela precisa receber tratamento, seja de pacote ou caseiro.
De acordo com a SBP, o soro deve ser sempre provado antes de ser dado à criança e deve ser menos salgado que a lágrima. Todo o soro deve ser ingerido pela criança em pequenas quantidades até que ela esteja hidratada.
Após feita a receita, o líquido pode ser guardado na geladeira.
Nas redes sociais, postagens recentes sobre a colher mencionam que, hoje, em vez de salvar vida de crianças, ela pode ser usada para ressaca.
“Quando a pessoa perde muito líquido, a mistura ajuda a repor”, orienta Nelson Arns Neumann.
“Mas a minha recomendação é não beber a esse ponto.”
Publicado originalmente em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c98yqpe54vdo
Comente aqui