Ausência de um horizonte político e material ameaça mergulhar a juventude em individualismo e consumo vão. Vislumbre de futuro foi encurtado. Como resgatar a dimensão do sonho, e restaurar a noção de que é possível transformar o mundo?
Por: Jaqueline Morelo | Arte: Adobe Stock
Em artigo publicado recentemente, Marcio Pochmann ressalta a urgência de se construir um projeto de transformação social capaz de articular desenvolvimento material e sentido coletivo, em um contexto de descrença da juventude na esquerda como força política indutora do futuro.
Na mesma direção, a também economista Juliane Furno afirma que esse vácuo de esperança tem sido preenchido por discursos da extrema-direita que prometem “mudar tudo”. Ela sustenta que a esquerda brasileira falha ao focar apenas em dados estatísticos, como inflação baixa, sem oferecer uma “utopia de futuro” ou mudanças radicais que respondam à frustração da juventude.
Segundo Furno, a sensação de melhora econômica não chega à base, especialmente à juventude, devido a fatores como recorde de endividamento e inadimplência, juros abusivos, precariedade no mercado de trabalho. A juventude vivencia uma realidade de trabalhos sem carteira assinada, jornadas longas, baixa remuneração e falta de perspectivas de ascensão social.
Dado também preocupante é o resultado da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), que apresentou indicadores sobre a saúde mental de crianças e adolescentes brasileiros.
Cerca de 30% dos alunos de 13 a 17 anos se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Meninas de 13 a 17 anos relatam mais que o dobro de tristeza constante (41% contra 16,7% dos meninos) e pensamentos de que a vida não vale a pena.
Entristecidos e sem vontade de viver, imersos no individualismo e no imediatismo da sociedade do consumo, dificilmente os jovens poderão vislumbrar sozinhos um futuro pós-neoliberal.
Nesse cenário crítico, é indispensável superar a crise de imaginação e introduzir a dimensão do sonho e da mudança estrutural da sociedade.
Redes de isolamento e adoecimento
Ainda que diversos fatores estejam associados ao agravamento da crise de saúde mental de crianças e adolescentes, existe um consenso acadêmico entre adoecimento mental e crescente exposição às diversas redes sociais e aplicativos.
Na perspectiva da sociologia do conhecimento, entende-se que as redes sociais não são apenas ferramentas tecnológicas, mas ambientes que transformam ativamente a construção social da realidade, influenciando as interações, a formação de identidades, a circulação do conhecimento e a percepção do que é “real” e “verdadeiro” na vida cotidiana. O uso excessivo das redes sociais também resulta em isolamento social no mundo físico e no distanciamento das relações pessoais e familiares diretas.
Assim, diferentemente do que o senso comum costuma apregoar, a hiperconexão não promove uma expansão da visão de mundo nem conduz à diversidade de pensamento. Perde-se o contato com a maior riqueza da humanidade, a pluralidade cultural.
Como a lógica de funcionamento das redes favorece o contato apenas com os iguais, formam-se as chamadas bolhas, câmaras de eco que reforçam crenças existentes, preconceitos, percepções muitas vezes distorcidas dos fatos sociais e afirmação de ponto de vista único, condições ideais para a proliferação de extremismos e fundamentalismos.
Na mitologia grega, Eco é uma ninfa que, ao ser amaldiçoada pela deusa Hera, não consegue mais conversar, apenas repete as últimas palavras que ouve. Apaixona-se por Narciso, mas, como não consegue estabelecer um diálogo com ele, acaba sendo rejeitada. Sofrendo profunda tristeza, isola-se em cavernas.
Esse mito-metáfora sobre as consequências do uso das redes sociais nos auxilia a entender parte do problema atual dos jovens. Isolados em suas bolhas, com identidades fragilizadas, eles também estão perdendo vocabulário e, consequentemente, a capacidade de articular o pensamento. Quem não pensa, não dialoga, e só pode viver com pensamentos exteriores a si mesmo. É assim que surgem os rebanhos nos governos fascistas, capazes de tudo pelo seu pastor ou líder.
Segundo a filósofa Hannah Arendt, ocorre a banalidade do mal extremo porque ele é praticado por pessoas que não são necessariamente más. Elas simplesmente não pensam, são pessoas idiotas (idion = o próprio, aquele que está fechado em si mesmo).
Em carta a um teólogo, escreveu: “minha opinião é de que o mal nunca é ‘radical’, é apenas extremo e não possui profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode cobrir e deteriorar o mundo inteiro, precisamente porque se espalha como um fungo na superfície (…) essa é a sua ‘banalidade’. Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical.”
Imaginar o novo, sonhar o bem radical
Percebe-se que os jovens sofreram, nos últimos anos, um encurtamento do horizonte de possibilidades e, sozinhos, não encontrarão uma saída. Medidas como maior supervisão do uso das plataformas digitais por adultos, ECA Digital e regulamentação das redes são necessárias, mas não suficientes.
Quando Arendt defende a dimensão ética da radicalidade do bem, ela a vincula à capacidade de reflexão e julgamento crítico. Agir com o bem é o resultado de uma pausa para pensar, ao passo que a banalidade do mal é a ausência desse pensamento. Portanto, tarefa imprescindível é fomentar o pensamento crítico dos jovens.
É preciso também valorizar a dimensão do sonho e da utopia na vida das crianças e jovens. Nesse sentido, ampliar o contato com diferentes culturas possibilita a descoberta de outras formas de pensamento. O contato intercultural permite o alargamento da visão de mundo, promove empatia, respeito e tolerância. Condição para a alteridade, a diversidade é também necessária para se imaginar outras formas de existência.
Um passo em direção à transformação social seria interpelar o que historiador e cientista político Achille Mbembe chamou de novo tipo de fundamentalismo: a ideia, disseminada e transformada em dogma pelo capital financeiro, de que já não é possível criar outras formas de organização da sociedade fora deste sistema econômico.
Portanto, deve-se questionar a adesão às regras do mercado e as consequências dessa adesão, a liberação das paixões e afetos que se voltam não contra a crescente desigualdade social, mas produzem conflitos sociais que se apresentam em forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia, como forma de fortalecimento identitário.
Como alternativa, é necessário introduzir a dimensão do sonho de um novo modelo de vida, de resistência à lógica capitalista ocidental, como defende Ailton Krenak. A crítica do filósofo se dirige especialmente à separação entre humanidade e natureza, a transformação de tudo em mercadoria. “A existência humana não pode se resumir em produzir, consumir e gerar lucro”, afirma.
Krenak argumenta que a vida é um dom de fruição e experiência, o que significa que deve ser vivida como celebração, dança, sonho e experiência, não apenas como uma busca por resultados, produção.
A busca pela harmonia e equilíbrio entre os seres humanos, a sociedade e a natureza é também o argumento central da filosofia do Bem Viver. Essa sabedoria ancestral de povos indígenas andinos postula que a vida plena só é possível através da consciência de interconexão, onde o ser humano não é superior, mas parte integrante da “Mãe Terra” (Pachamama).
Os pilares do Bem Viver podem ser guias em um projeto de transformação social. Eles se assentam na harmonia com a natureza, vista não como recurso a ser explorado, mas um sujeito de direitos com o qual se deve coexistir de forma sustentável; na reciprocidade e coletividade, que têm base na solidariedade e no compartilhamento (convivência), em oposição ao individualismo e ao acúmulo de bens; na interdependência, ao reconhecer que a vida humana depende da saúde do ecossistema e da comunidade, respeitando territórios e ancestralidade, e na alternativa ao desenvolvimento segundo a lógica capitalista. Viver bem prioriza a vida sobre o lucro, viver com o essencial.
Essa visão de mundo que busca uma “boa e bela maneira de ser e estar no território”, equilibrando o sentir-se bem, o pensar bem e o fazer bem, coincide com a dimensão ética da radicalidade do bem, de Arendt. O bem radical que se enraíza no amor pelo mundo e na preservação da dignidade humana.
Segundo essa ética, um programa efetivo da esquerda, capaz de ampliar o horizonte de possibilidades dos jovens, não se basearia em doutrinação ou promessas de utopias demagógicas, mas sim na criação de condições para que os jovens ajam, pensem criticamente e assumam a responsabilidade pelo mundo comum.
Em linhas gerais, as bases desse programa seriam fomento à educação para o pensamento crítico; criação de espaços públicos de ação e fala para os jovens, para que discutam e exerçam a liberdade política, a fim de que suas vozes tenham peso na tomada de decisão; valorização da pluralidade e da perspectiva dos jovens marginalizados pois, segundo Arendt, eles têm uma visão mais clara da necessidade de mudança.
Em suma, esse programa forneceria as condições para que os jovens decidam como renovar o mundo. O objetivo é “amar o mundo” a ponto de assumir a responsabilidade por ele, exercendo a liberdade por meio da ação política concreta.
Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/outrapolitica/ideias-para-sonhar-novo-mundo/

