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Por que a Bolívia está em chamas

Multidões tomam La Paz e exigem a renúncia do presidente – eleito em outubro. Como tudo mudou, em seis meses? A curiosa estratégia de Rodrigo Paz. A traição e as leis neoliberais. A crise do MAS, a grandeza e debilidade do movimento popular

Por: Arián Laguna Quiroga, no Diario Red | Tradução: Antonio Martins | Crédito Foto Reprodução/Midia1508

Embora a Bolívia nunca deixe de surpreender politicamente, as mobilizações populares atuais e os crescentes pedidos de renúncia, apenas 6 meses após o início do governo de Rodrigo Paz podem parecer incompreensíveis e até insensatos. Não são. Os mineiros, camponeses, professores e vizinhos que hoje protestam e exigem a renúncia de Paz são os que votaram por ele, em outubro de 2025. O que aconteceu para que, apenas no meio do ano depois, exijam sua saída?

Uns meses antes das eleições de 2025, ninguém atribuía a Rodrigo Paz mais de 3% de intenções de voto. Como foi capaz de ganhar o primeiro turno com 27% e a disputa final, com 54%?

A resposta principal relaciona-se à disputa interna do Movimento ao Socialismo (MAS), entre Luis Arce e Evo Morales, que atravessou toda a gestão de Arce (2020-2025) e se desdobrou em uma crise econômica marcada pela recessão e pelo desabastecimento dos combustíveis.

O mal-estar profundo do bloco popular diante dessa disputa traduziu-se em um voto-castigo contra o MAS, que terminou sendo canalizado para Rodrigo Paz. Cerca de metade do voto histórico do MAS – tradicionalmente próximo aos 54% – migrou para Paz no primeiro turno, e quase todo, no segundo.

A chave do sucesso eleitoral da dupla Rodrigo Paz – Edman Lara foi sem dúvida o candidato a vice-presidente. Lara é um ex-policial que se tornou famoso denunciando no Tik Tok a corrupção dos altos comandos policiais e da classe política boliviana em geral.

Mas Rodrigo Paz também desempenhou um papel importante: membro da casta tradicional boliviana – filho do ex-presidente Jaime Paz e sobrinho-neto do ex-presidente Victor Paz – foi capaz de se projetar como uma opção de mudança moderada e não racista – à diferença de outros candidatos de direita, como Tuto Quiroga e Samuel Doria Medina.

Teve a ideia lúcida de fazer campanha nos bastiões rurais e urbanos populares do MAS, onde reinava o descontentamento diante da disputa Evo-Arce, e também o fez sob o falso – porém, atraente — lema de “capitalismo para todos”.

Ao votar por Paz e Lara, o setor popular na Bolívia não votou contra o Estado Plurinacional, mas sim contra quem parecia estar se degradando com sua disputa visceral. Foi um voto para renovar o Estado Plurinacional, com a crítica agressiva de Lara à corrupção das elites políticas e com a promessa de paz de um Estado Plurinacional mais propenso à economia popular.

A expectativa de um pacto entre o Estado e a sociedade – baseado no poder político para as organizações sociais e no investimento estatal – não se desfez com a saída de Evo, Arce ou com a vitória de Paz. Segue vigente no imaginário coletivo e orienta as expectativas populares a respeito do Estado.

No entanto, a oferta de Paz para manter esse pacto sob uma versão renovada foi apenas um aceno demagógico. No dia da posse, nem uma única organização popular foi convidada. O gabinete de ministros foi novamente dominado pelas gravatas e caras brancas.

O revertério não foi apenas simbólico, mas econômico. Em dezembro, Paz aumentou o preço da gasolina em 86% e do diesel em 163%. Paralelamente, pretendia-se legalizar a venda de recursos naturais “fast track” (o termo foi redigido em inglês no Decreto Supremo), medida revertida graças às mobilizações populares de dezembro e janeiro de 2026.

A isso somaram-se políticas menos visíveis, mas que repercutiram fortemente entre o público, como a eliminação de impostos sobre grandes fortunas e lucros extraordinários, além de diversos atos de corrupção.

As duas medidas que fizeram o copo transbordar, ao desencadear vasto descontentamento popular, foram a chamada política da “gasolina adulterada” e a lei de reclassificação de terras. Não só os preços dos combustíveis aumentaram drasticamente, numa sociedade já em recessão econômica, como também houve a distribuição de gasolina adulterada, danificando veículos particulares, transporte público, motores e maquinário agrícola.

Além disso, a aprovação da Lei 1720 abriu a possibilidade de converter pequenas propriedades camponesas — historicamente isentas de confisco — em propriedades de médio porte, sujeitas a juros e execução hipotecária. Isso despertou desconfiança em um dos setores mais sensíveis de um país predominantemente indígena que, em 1953, viveu uma das reformas agrárias mais radicais do mundo.

Esses dois eventos desencadearam um novo ciclo de mobilização contra Paz, precisamente por parte daqueles que votaram nele e em Lara, na esperança de uma renovação do Estado Plurinacional e não de uma virada neoliberal racista e excludente.

Os horizontes do protesto

A mobilização tem sido maciça e absolutamente decidida no departamento de La Paz: praticamente todas as suas estradas estão bloqueadas. No entanto, o conflito ainda não se espalhou para o resto do país, e isso pode determinar suas chances de vitória. Enquanto isso, apoiadores de Evo Morales de Cochabamba iniciaram uma marcha em direção à cidade capital, onde devem chegar nos próximos dois dias.

Até o momento, o governo respondeu aos protestos com três estratégias. A primeira foi atribuir as mobilizações a uma conspiração de Evo Morales; no entanto, essa narrativa não convenceu nem mesmo os setores conservadores, já que é evidente que o apoio a Evo está concentrado em Cochabamba, enquanto o epicentro dos protestos é La Paz.

A segunda consistiu em fragmentar o movimento popular por meio de negociações e concessões a alguns dos setores mobilizados. Essa estratégia parece fadada ao fracasso, já que a base superou a liderança e também ameaçou puni-la severamente, caso faça um acordo com o governo.

Finalmente, desde sexta-feira à noite, o governo recorreu à repressão, mobilizando a Polícia e o Exército, o que deixou pelo menos dois cidadãos mortos, provavelmente inflamando ainda mais a situação em uma sociedade acostumada a responder à repressão com mais rebelião.Apesar das dificuldades do governo em conter os protestos, a situação é complexa. O movimento popular, embora forte em sua capacidade de mobilização, ainda carece de líderes fortes capazes de unir e liderar um bloco eleitoral em caso de eleições. Além disso, ainda não surgiu uma agenda econômica que ofereça uma alternativa progressista para superar a crise econômica.

Extrema direita à espreita

Enquanto isso, Rodrigo Paz alinha-se cada vez mais com grupos de extrema-direita — Tuto Quiroga, Manfred Reyes e as elites de Santa Cruz — que lhe ofereceram abertamente a oportunidade de governar a partir daquela cidade, distante das “hordas” indígenas e populares.

No entanto, Paz sabe que buscar refúgio nesse setor tem um preço: eles exigem cargos-chave no governo, pacotes de leis neoliberais e níveis de repressão que só alimentarão a rebelião popular.

Paz encontra-se claramente entre a cruz e a espada. Mesmo que consiga sobreviver a esta segunda onda de protestos populares, provavelmente sairá tão enfraquecido que a implementação de seu tão desejado pacote de leis neoliberais será extremamente difícil.

Além disso, setores da direita boliviana começam a vê-lo como uma figura fraca, incapaz de liderar uma reestruturação neoliberal da sociedade boliviana, e começam a sondar alternativas.

Rodrigo Paz é vítima do seu próprio jogo. Chegou ao poder explorando expectativas e ressentimentos acumulados, e agora precisa responder a eles. Por ora, torna-se cada vez mais improvável que consiga escapar de seu próprio labirinto.