Clipping

Viagens ao novo mundo: fundamentos das Ecovilas

Restaurar biomas originais. Comer comida sem veneno. Reciclar, consumir pouco e evitar produção de resíduos. Tudo orientado pelo ideal regenerativo da permacultura, que propõe outro manejo do solo, sociabilidade e reconecta sabedorias ancestrais – como a simplicidade do bem-viver

Por: Débora Nunes | Crédito Foto: Reprodução/Jardim do Mundo

Em terras dos cinco continentes, este é um compromisso evidente nos ecolugares em que passamos: restaurar os biomas originais fazendo retornar a fauna, a flora e a microbiota original do solo. Vimos que isto leva a uma maior abundância de água, ao aumento da biodiversidade, a purificação do ar e a criação de microclimas amigáveis. Em alguns casos, constatamos que desertos se transformaram em florestas, em esforço de décadas. Em outros, a proteção das nascentes e a acumulação de água em lagos artificiais – que com os anos se naturalizam – transformou climas secos em climas mais úmidos localmente.

De onde vem a determinação para ações deste porte de regeneração da Natureza? Sem dúvida da emergência climática que urge por ações restauradoras e leva, nas populações engajadas das ecovilas, a um comportamento regenerativo. Nas comunidades ancestrais este contexto leva à intensificação da luta pela preservação de suas terras, que é sustento de suas culturas. Mas a resposta não é apenas objetiva, uma consequência natural da análise de um contexto que caminha para ser distópico. Há razões afetivas, éticas e espirituais para isto, motivações profundas que levam estas pessoas a sair da inércia em que se encontram outros grupos humanos que também conhecem a imensidão do problema ambiental e de degradação civilizacional em que vivemos.

Pode-se dizer que o aspecto afetivo vem da reconexão com o planeta na dimensão “Mãe Terra”, que é um arquétipo presente em todo o mundo. A Pachamama dos povos originários andinos, a Maka Ina dos povos Lakota/Sioux da América do Norte, a Prithvi Mata, indiana ou a Gaia grega, são derivações deste arquétipo que inspira comunidades regenerativas e povos originários pelo mundo. Esta dimensão afetiva é também uma dimensão espiritual: frequentemente a Mãe Terra é uma entidade divina, referenciada como uma dimensão que exige reverência e cuidado. Como pano de fundo das escolhas de vida das comunidades visitadas há preceitos éticos muito claros, e um deles é que tudo está conectado e que cada pessoa é parte do problema ou da solução dos desafios coletivos.

É muito comum que na cultura das ecovilas as pessoas sintam que para proteger a Vida no seu sentido amplo, é necessário proteger e regenerar sua fonte. Os gestos cotidianos podem ser vistos como uma espécie de ritual de reverência a esta sacralidade: comer comida sem veneno, restaurar o solo com compostagem, purificar as águas usadas, manter um baixo nível de consumo, reaproveitar e reciclar objetos e evitar produzir resíduos de difícil absorção pelos solos, como produtos químicos e plásticos. Disto nasce também, nas ecovilas, uma produção orgânica de alimentos, de cosméticos e produtos de limpeza biodegradáveis, de roupas e sacolas de algodão para substituir o uso de plástico e sintéticos, entre outros itens que mobilizam a economia destas comunidades por dentro e para fora, gerando renda.

Neste processo regenerativo, muito frequentemente se fala em Permacultura. Esta incrível ciência nascida na Austrália e que ganhou o mundo por seus valores claros, seus métodos objetivos e simples, é uma mistura de práticas tradicionais indígenas para o tratamento resiliente da terra, com conceitos mais contemporâneos. Os valores da Permacultura, disseminados por seus criadores Bill Mollison e David Holmgren são: I) Cuidado com a Terra, II) Cuidado com as Pessoas e III) Redistribuição de Excedentes. Estes valores são muito próximos das filosofias ancestrais de interdependência como o “Bem Viver” dos povos aymara (Suma Qamaña) e quéchua (Sumak Kawsay) dos Andes ou o Ubuntu, da cultura bantu, do sul da África. Em termos concretos, a Permacultura propõe, por exemplo, os círculos que se ampliam para manejo do solo, que é muito corrente nas ecovilas: a zona de uso intensivo e recreacional em torno das habitações, depois agroflorestas com variada produção de legumes, frutas e ervas, em seguida as produções de cereais, e às vezes também animais para consumo e no entorno mais distante as áreas de florestas.

Do mesmo modo, a ideia de “cultura permanente” da Permacultura estimula a produção e uso de energias renováveis, de construções de baixo impacto, de gestão da água sob o lema “reter, infiltrar e armazenar”, do saneamento ecológico com banheiros secos, círculos de bananeiras, bacias de evapotranspiração e muitas formas de compostagem. Ou seja, ecovila e permacultura são palavras muito próximas na prática e isto leva a outro processo que ajuda a restauração e a economia das ecovilas, que é o CSA, Comunidade Sustenta a Agricultura. Trata-se de uma parceria direta entre comunidades produtoras, as ecovilas, e compradores do entorno, negociando preços, itens e períodos de entrega sem intermediários, promovendo economias solidárias e restauração ecológica.

As pessoas que sustentam a regeneração nas ecovilas percebem, como os povos ancestrais, que a Natureza é sagrada, que nós somos a Natureza e buscam viver de forma coerente com esta convicção. Esta percepção é a fonte da cura ambiental proposta por Ayrton Krenak, este indígena brasileiro internacionalmente conhecido por seu livro “Futuro ancestral”. Sua afirmação de que se o futuro não for ancestral, ou seja, reconectado com lógicas que se mantiveram por milênios nos quatro cantos do planeta, ele “não será”, evidencia a possibilidade de um não futuro. O compromisso das ecovilas é exatamente construir futuros possíveis e sua reconexão com saberes ancestrais é evidente. Para aprofundar esta compreensão e demonstrar esta hipótese, vamos dar um passeio por alguns destes saberes que contrastam com aqueles da sociedade ocidental na qual estamos majoritariamente imersas e imersos, a ponto de nem perceber que a vida é simplesmente impossível se tudo continuar como está.

As sabedorias ancestrais e o Novo Mundo

Parto do mesmo princípio que Krenak e observo que as ecovilas também estão muito sintonizadas com ele: para superar a cultura do fast food, do hiperconsumo, da aparência de sucesso a qualquer custo, que sustentam o capitalismo, há que se reconectar com sabedorias ancestrais, com tempos em que outras aspirações e valores norteavam a vida. Nestes tempos primordiais da cultura humana era natural que a Natureza fosse a maior fonte de ensinamentos. A ação humana ainda a tinha pouco impacto e as pessoas viviam imersas em ambientes minimamente modificados. No Taoísmo, por exemplo, era na Natureza que se forjava a explicação para as forças criadoras do Universo, o Yin-Yang, a força escura e a força clara, a lua e o sol, o dia e a noite, o homem e a mulher. Para o Yoga, os animais, os elementos geográficos e as plantas inspiraram exercícios físicos e respiratórios para a manutenção da saúde, mas também muitos dos princípios éticos dessa tradição. No Sumak Kawsay, quando o comportamento individual se harmoniza com a Natureza e com a comunidade, a vida é plena.

Outro princípio das tradições destes povos originários, escolhidos aqui por estarem mais distanciados dos valores ocidentais atuais, mas presentes nos cinco continentes, é o reconhecimento da responsabilidade de cada pessoa na harmonia do todo. Este é uma ética amplamente incorporada na vida das ecovilas. Diferente da tradição judaico cristã da cultura ocidental, que se baseia na existência de um Deus todo-poderoso que determina o que é certo e o que é pecado e pune as pessoas por seu comportamento, muitos preceitos espiritualistas originários não se referem a este tipo de Deus. São tradições profundamente espiritualizadas, mas cujos fundamentos estão na compreensão da conexão entre todas as coisas e na reverência ao mistério sagrado da Vida. Ao propor as condições para uma vida harmoniosa, reconhecem a responsabilidade de cada pessoa na harmonia do todo. Quem não se harmoniza, de certa forma, culturalmente, pune a si mesmo dispensando a presença de um Deus punidor.

A seguir farei um resumo das concepções de mundo de três tradições ancestrais, o Yoga, o Taoismo e o Sumak Kawsay, para exemplificar a conexão entre o modo de vida que vimos nas ecovilas, que produz regeneração, e sabedorias multimilenárias. Embora a maior parte das tradições ancestrais venham sendo preservadas através da oralidade e pela repetição de rituais, nosso passeio se baseará três livros, dois deles milenares: o Yoga Sutra, de Patañjali, escrito há cerca de três mil anos na Índia e o Tao Te Ching, escrito na China por volta do século II aC, presumidamente por Lao Tsé1. Já o Sumak Kawsay só recentemente teve seus conceitos e práticas descritos em livros; destacarei a sistematização feita pelo intelectual aymara Fernando Huanacuni Mamani2, legítimo para buscar revelar a tradição do seu povo.

O Yoga

Para Patañjali, o Yoga se baseia em oito passos: os Yamas (preceitos éticos e morais para se relacionar com o mundo), os Niyamas (hábitos positivos para o mundo interior da pessoa), os Ássanas (exercícios físicos), os Pranyamas (exercícios respiratórios), o Prathyahara (interiorização, o desligar-se dos estímulos externos), o Dharana (prática da concentração anterior à meditação), o Dhyana (prática da meditação) e o Samadhi, a iluminação. Esses oito passos são inspiradores de uma vida sã em todos os campos e caminho para a evolução da consciência humana. O caminho do Yoga tudo relaciona: a saúde física está interligada à saúde mental, emocional e espiritual e estar em busca de cada uma delas interfere positivamente nas demais e no ambiente em que se vive.

Os ciclos da Natureza, sua forma de operar, seu processo evolutivo, as características dos reinos mineral, vegetal, animal e humano são decodificados para favorecer a compreensão do caminho correto para cada pessoa e para as comunidades. A prática do Yoga constantemente se refere à Natureza, imita sua sabedoria, recomenda que o ou a praticante esteja em espaços naturais e se conecte com os elementos, a terra, a água, o ar e o fogo, honrando o Sol e a Lua, as estações, as marés, o dia e a noite, etc. Além disto, o Yoga é baseado no conceito de fluxo vital, chamado de Prana, ou energia cósmica, que anima a vida e precisa ser mantido em equilíbrio por cada indivíduo para sua harmonia e harmonia do Todo.

A prática do Yoga convida a mais quietude, silêncio, desapego e a viver o agora, que são princípios que encontramos nas ecovilas que visitamos. Essas práticas, assim como os Niyamas explicitados a seguir, podem ser interpretados como caminhos de percepção dos desafios do presente, da necessária responsabilização de cada pessoa com os destinos da humanidade e estão sintonizadas com as necessidades urgentes de regeneração da Natureza.

Os cinco Yamas, preceitos do Yoga para a vida em sociedade, são o Ahimsa (a não violência); a Satya (a prática da verdade em pensamentos, palavras e ações), a Asteya (o não se apropriar de coisas, ideias, tempo ou energia alheia); aBrahmacharya (o controle dos sentidos, a moderação no uso da energia vital) e a Aparigraha (o desapego). Numa interpretação atualizada, esses preceitos podem ser norteadores da superação dos excessos da vida atual: a violência, a vida de aparências e futilidades, o roubo das gerações futuras pela irresponsabilidade com o planeta, a sexualização de tudo e o consumo sem limites. Esta é uma ética profundamente disseminada nas comunidades regenerativas que visitamos, inclusive ancestrais, mesmo que não se expressem em termos yóguicos, embora o Yoga seja largamente praticado nas ecovilas.

Também os Niyamas são caminhos pessoais antissistema em busca da harmonia interior: a Shaoca, o caminho da pureza ao invés da manipulação atual; o Santosha, o contentamento ao invés do desejo insaciável; o Tapah, a determinação e o auto governo, ao invés de uma vida de “manada”, que segue modas e fake news; o Svadhyaya, o uso da razão para assuntos espirituais ao invés da diluição dessa em face aos modismos pseudo-espirituais, e o IshvaraPranidhana, a entrega dos frutos de suas ações a uma vontade superior, ao invés do narcisismo ególatra das redes sociais.

O Taoísmo

Outra tradição ancestral relevante e expressiva de modos de vida que visitamos é o Taoísmo, cujos fundamentos foram sistematizados por Lao Tsé, incorporando tradições ancestrais do povo chinês, e assim ofertando à humanidade o Tao Te Ching. Nos aforismos desse livro, em suas curtas regras práticas e morais, busca-se inspirar as pessoas para a obtenção de uma vida longa e feliz em harmonia com o Tao, “o Caminho do Universo”. Esse primeiro princípio, que diz respeito à harmonia interna em cada ser, cada sociedade, cada empreendimento, convida a balancear as forças do yin (contemplação, receptividade) com as forças yang (atividade, expansão). Outros princípios se seguem: o Wu-wei, a não-ação, ou ação desprovida de intenções egóicas, seguindo o fluxo da vida, sem forçá-la; o Ziran, a espontaneidade e a autenticidade como forma de se expressar no mundo; o Pu, a simplicidade, a eliminação de necessidades supérfluas.

No Taoísmo, o autocontrole, a serenidade e a contemplação da natureza são cultivados e ajudam a chegar às “Três Jóias” – a compaixão, a moderação e a humildade – como modo de relacionamento com as pessoas e o mundo. Vimos em muitas ecovilas um compromisso militante com a paz, uma prova cotidiana de moderação e a busca constante da humildade. Como foi descrito em texto anterior da série Visitando o Novo Mundo, a condição de fundadoras e fundadores de um laboratório de convívio humano, por vezes dificulta uma postura humilde, já que é preciso afirmar com força o projeto em que se está envolvido, mas esta crítica só pode ser compreendida dentro do contexto, que você encontra aqui.

Voltando ao Taoísmo, ele afirma que o movimento incessante do Tao formado pela complementaridade yin-yang, se manifesta no mundo em cinco movimentos/elementos que organizam toda a existência: o movimento ascendente do Fogo, o movimento descendente da Água, o movimento estável da Terra, o movimento de expansão da Madeira e o de retração do Metal. Toda uma visão de mundo é organizada assim a partir destes cinco elementos e dos movimentos aos quais eles estão relacionados. Um exemplo claro são as estações: a primavera está relacionada com a expansão/madeira; o verão com o fogo/ascensão; o outono com a terra/estabilidade e o inverno com a retração/metal. Do mesmo modo, as horas do dia, as emoções, os cinco sentidos, as notas musicais, os sabores e muitos outros aspectos da Vida são compreendidos. Viver em saúde e harmonia é fruto do balanço entre os elementos/movimentos e suas interrelações na vida comunitária e no corpo humano. A genial e amplamente curativa MCT, Medicina Tradicional Chinesa, é fruto da filosofia e práticas taoístas, do mesmo modo que a medicina ayurvédica se relaciona com o Yoga.

Outro conceito importante oriundo do Taoísmo – e que também existe no Yoga – é a existência do Chi, a força vital representada pelo ar, pela respiração, que também está relacionada aos princípios masculino yang (expirar) e feminino yin (inspirar). A dualidade no Taoísmo, é a fonte do movimento, representado no símbolo que o define, o Tao, e favorece o processo evolutivo que nasce da unidade e voltará ela, sendo, portanto, um processo cíclico e provisório. A complementaridade dos contrários, e não o confronto e o conflito, são princípios taoístas para lidar com a Vida e sua diversidade, com a saúde e com a busca da harmonia. Mesmo não sendo manifestamente taoístas, as comunidades das ecovilas visitadas apresentam muita afinidade com estes princípios ancestrais, suas medicinas e recomendações.

O Bem Viver (Sumak Kawsay ou Suma Qumaña)

A última tradição ancestral apresentada, como foi dito, é conhecida como “Bem Viver” e é uma expressão indígena dos Andes que significa Viver PlenamenteOs povos andinos vêm demonstrando, como sua luta pelos direitos da Natureza, que sua tradição é uma alternativa ao catastrófico desenvolvimento atual e conseguiram consagrar estes direitos nas Constituições da Bolívia e do Equador. Ao invés de aumento do PIB, da riqueza individual, do hiperconsumo exibicionista e da vida em velocidade estonteante, o Bem Viver busca simplesmente o “estar bem consigo, com os outros e com a Natureza”. Quando se está inteiramente inserido no sistema vigente é difícil perceber a sabedoria desta prática milenar de vida comunitária, porém nas ecovilas o ideal do Bem Viver é algo muito presente, mesmo que seja muito mais fácil dizer do que realizar.

A simplicidade do Bem Viver vem de seus princípios, que começam na vida cotidiana e acabam por mudar tudo, pois é o próprio sentido da vida que está em jogo3. Buscar viver bem com quem somos, com os que nos rodeiam e com quem nos nutre, a Natureza, é traduzido em 13 princípios que não foram gravados em um livro sagrado, mas inscritos na tradição oral milenar e nas vivências dos povos quéchua e aymara. Os treze princípios da busca de equilíbrio podem ser divididos em três grandes categorias, segundo Fernando Huanacuni Mamani: I) Conexão com a Pachamama (Mãe Terra); II) Equilíbrio interno e III) Relação com os outros. São eles:

A Conexão com a Pachamama se expressa em: 1) Suma Manq’ aña: saber nutrir-se do que é são. Deste princípio derivam-se práticas como comer o alimento da estação e do local, fazer jejum na lua nova, nas transições dos solstícios, ou fazer oferendas alimentares à Natureza, já que tudo se alimenta e o alimento é sagrado. 2) Suma Umaña: saber beber sentindo o fluxo da vida. Daí origina-se a prática de oferecer-se de beber à Pachamama e aos elementos naturais reverenciados no local antes de beber. Beber bebidas sagradas favorece a conexão com o coração que ajuda a pessoa a “fluir como o rio”; 3) Suma Thokoña: saber dançar em conexão com o Universo. As danças ancestrais permitem entrar em conexão com a energia telúrica da Terra e cósmica do Céu; entende-se que toda atividade deve ser realizada incluindo a dimensão espiritual, da energia cosmo telúrica; 4) Suma Ikiña: saber dormir entre um dia e outro. Pensa-se que é necessário dormir dois dias, o seja, antes da meia noite, para se obter as duas energias, a da noite e a da manhã do dia seguinte. A direção do corpo ao dormir também é importante, para o norte no Hemisfério Sul e para o Sul no Hemisfério Norte. 5) Suma Irnakaña: saber trabalhar alegremente. Tradicionalmente o trabalho era manual, na terra, no artesanato, na caça, na cozinha; atualiza-se o conceito para todas as atividades que não devem significar sofrimento e sim serem realizadas com paixão e alegria;

O Equilíbrio interno se manifesta em: 6) Suma Lupiña: saber estar em silêncio meditativo. No processo de introspecção, o silêncio pessoal se conecta com o equilíbrio e silêncio do entorno natural e como consequência emerge a calma e a tranquilidade necessárias para viver bem. 7) Suma Amuyaña: saber pensar com a mente e o coração. Um dos princípios aymaras diz “ sem perder a razão, caminhemos os caminhos do coração”, portanto o pensar não é só racional, ele está em conexão com o sentir. 8) Suma Munaña: saber amar e ser amado. Saber respeitar a tudo o que existe gera o amor de retorno e uma relação harmônica consigo, com os outros, com a Natureza.

A sabedoria na Relação com os outros se manifesta em: 9) Suma Ist’ aña: saber escutar a si, aos outros e à Mãe Terra. Na cultura andina escuta-se não só com os ouvidos, é perceber, sentir, escutar com o corpo, já que tudo que vive, fala e quer ser escutado.10) Suma Aruskipaña: saber falar construtivamente. Recomenda-se que antes de falar é preciso sentir e pensar bem, pois só assim se fala em forma de alento, de modo a contribuir. Tudo o que se fala é gravado no coração do outro e as vezes é difícil esquecer, por isto é preciso saber falar bem. 11) Suma Samkasiña: saber sonhar para ter uma melhor realidade. Na cultura andina percebe-se a vida através do sonho, tanto dormindo quanto acordado. O sonho é o início da realidade por isto sonhar certo, projetar bem a vida ajuda a viver bem. 12) Suma Sarnaqaña: saber caminhar sentindo-se acompanhado pelas boas energias. Quem percebe que está acompanhado pelos ancestrais, pelo sol e pela lua, pelo vento, pela Pachamama e muitos outros seres, não se cansa e está protegido. 13) Suma Churaña, suma Katukaña: saber dar e receber. Reconhecer que a Vida é uma conjunção de muitos seres e muitas forças, que na vida tudo flui sob o calor generoso do Pai Sol, a força da Mãe Terra, a fluidez da Mãe Água. Saber dar abençoando, saber receber agradecendo ajuda a Vida a fluir melhor.

Ecovilas e sabedoria

As três tradições, yogue, taoísta e do Bem Viver veem o mundo como uma grande teia em que tudo está interligado e que tocar em um ponto implica em tocar todos os demais. Como na física quântica, que será objeto de discussão em outro artigo desta série, o Todo está emaranhado, é tecido junto e cada ser é um ponto, um nó deste Todo. A passagem de cada ser pelo mundo é vista a longo prazo e o sentido de comunidade é sempre presente. Honrar os bens comuns – sejam eles materiais ou sutis, como a água ou o ar ou os rituais e a cultura, é parte integrante do sentido da vida. Neste contexto de Vida, honrar e regenerar a Natureza é consequência natural do modo de ver o mundo.

Vimos pessoas em busca do essencial, desde as coisas mais simples, como os treze princípios do Bem Viver, até o vínculo sagrado com o Tao, ou desejo de respirar melhor para que o Prana ou o Chi circulem fluidamente entre o Ser e o Cosmos, sendo tudo Natureza. Esta busca do essencial dá à vida um sentido de certo e errado, de importante e desimportante, que faz a busca da plenitude algo cotidiano e natural. O menos é mais e o simples é o caminho seguido nestes laboratórios nos quais são testadas novas formas de viver. Estas escolhas de vida naturalmente levam a uma vida regenerativa das pessoas e do ambiente, e a Natureza agradece estes esforços com renovada exuberância. Foi isto que vimos e acreditamos que desta e de outras maneiras vamos construindo pouco a pouco a Era da Regeneração.

 

 

Publicado originalmente em: https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/viagens-ao-novo-mundo-fundamentos-das-ecovilas/